“Se ansiamos que nosso planeta seja importante, há algo que podemos fazer quanto a isso. Podemos fazer com que ele seja significativo com a coragem de nossas perguntas e a profundidade de nossas respostas.” – Carl Sagan

Carl Sagan não precisa de apresentações, assim como Cosmos. Quem viveu nos anos 1980 e 1990 lembra bem da série de TV que aproximou ainda mais o público “comum” da ciência, essa coisa tão obscura e complicada. E quem, como eu, não viveu essa descoberta do universo com a série original, acabou impactado com seu reboot dois anos atrás, agora na versão de Neil deGrasse Tyson. É claro que eu já sabia quem era Carl Sagan e qual era a sua importância para a comunidade científica antes dessa nova série, já tinha lido alguns de seus livros – é curioso lembrar que meu primeiro contato com sua obra foi justamente através de sua única ficção, o romance Contato. Depois de ver a série, de ler outros de seus livros – como O mundo assombrado pelos demônios –, foi bom demais ler Cosmos e entender a paixão de Sagan pela ciência.

Fome, pestes e guerra: durante toda a sua existência, o homem teve que superar essas tragédias para se manter vivo. A fome dizimava populações inteiras, metade das pessoas na Terra podiam perecer a uma nova peste que matava rapidamente, durante séculos nações viveram em pé de guerra e os momentos de paz mundial eram apenas pequenos intervalos entre um conflito e outro. No século XXI, esses “problemas” foram minimizados: as pessoas morrem mais de diabetes e obesidade que de fome; novas doenças são rapidamente isoladas e combatidas; conflitos entre nações ainda existem, mas a morte por homicídio e até suicídio superam as mortes em guerras. Vivendo nesse tempo de paz constante, qual será a próximo passo do homo sapiens?

Janna Levin não sabia que os cientistas do grupo Ligo (sigla em inglês para Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria Laser) haviam detectado ondas gravitacionais quando enviou para alguns deles uma versão quase pronta de seu livro, A música do universo. Durante anos, a física e jornalista entrevistou dezenas de pessoas envolvidas no projeto que tem como objetivo comprovar a teoria das ondas gravitacionais de Albert Einstein. Quando estava finalizando seu manuscrito, o que tinha de material eram as histórias por trás dessa iniciativa: a burocracia para conseguir fundos, as intrigas entre os cientistas, os seus temperamentos difíceis e o trabalho para tirar tudo do papel. Mas meses antes do centenário da teoria de Einstein e do livro de Levin ser lançado, o Ligo detectou ondas causadas pela colisão de dois buracos negros a milhões de anos-luz da Terra. A teoria estava comprovada. As ondas gravitacionais existiam. Einstein estava certo: dois corpos celestes de grandes massas eram capazes de provocar ondas que se propagavam na malha do espaço-tempo do universo como o som que sai de um tambor e chega ao seu ouvido – impossível de ser visto, mas podendo ser sentido.

Antes de ler O mundo assombrado pelos demônios, li Contato, o romance “alienígena” de Carl Sagan. Protagonizado por uma cientista, o livro apresenta um observatório que recebe estranhos sinais de rádio que, quando descriptografados, mostram que estivemos sendo observados do espaço esse tempo todo, e ainda oferece um manual para a construção de uma espécie de nave para encontrarmos nossos “vizinhos”. Antes mesmo de saber quem era Sagan e qual era a sua importância para a ciência, eu conhecia sua ficção – que na época gostei bastante.

a-mente-assombradaFaz algum tempo em que ando interessada no funcionamento do cérebro humano. O interesse surgiu, acredito, quando comecei a ler mais sobre a memória – como funciona, o que nos faz lembrar de certas coisas e esquecer outras. Tudo era tão diferente do que eu pensava, e tão maravilhoso, que cada vez mais fui procurando ler coisas sobre o cérebro. A última dessas leituras foi A mente assombrada, novo livro do inglês Oliver Sacks, renomado neurologista autor de diversas obras que exploram a mente humana. Nesse último livro, seu interesse se debruça sobre as alucinações, as involuntárias e as induzidas por drogas e outras substâncias, mostrando de que maneira o ato de enxergar aquilo que não existe está presente no cotidiano e na cultura humana.

O início de A mente assombrada já dá ao leitor uma ideia do quão extraordinário é o nosso cérebro, de uma maneira que o deixa maravilhado e assustado. Alucinações, na definição que Sacks faz, são “percepções que surgem na ausência de qualquer realidade externa – ver ou ouvir coisas que não existem”. Diferente do que o senso comum considera, ter alucinações não possui relação alguma com a loucura. Muitas pessoas que sofrem com alucinações podem não procurar tratamento ou não admitir para outros que veem coisas que não existem com receio de serem consideradas loucas, uma reação preconceituosa e ignorante da real natureza dessas visões ou percepções. Esclarecer isso, então, é a primeira coisa que Sacks faz ao leitor.