Perto do final do livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, o escritor e roteirista Stephen Rebello fala de como o filme é recepcionado pelos jovens telespectadores acostumados com os filmes de terror que vieram depois dos anos 1980: “o filme de Hitchcock pode soar hoje tão incompreensível quanto uma velha série dos primórdios da TV ou um filme mudo. Quem foi criado com Jason e Freddy pode ficar perplexo com o fato de o público de 1960 ter gritado por causa de Norman.” Achei interessante essa percepção ser expressa logo no final do livro que acompanha como foi a produção de um dos mais famosos filmes do aclamado diretor de suspense. Depois de mais de 200 páginas ressaltando a característica inovadora e corajosa do longa, é dito ao leitor que, hoje, o que Hitchcock fez não causa espanto algum.

Claro que isso não significa que o filme perdeu sua importância dentro da história do cinema, muito pelo contrário. O livro, publicado nos anos 1990 e reeditado agora por conta do filme Hitchcock, feito com base no relato de Rebello, é um documento que atesta o caráter transformador do trabalho de Hitchcock no cinema e sua importância na época. Para quem nunca havia visto Psicose antes, como eu, ler essas páginas foi querer ver o filme com toda a atenção do mundo para perceber os detalhes que o autor destacou no livro – o que realmente acabei fazendo.

A infância na Elizabeth Street, no Lower East Side em Nova York, diz muito sobre o futuro do pequeno e asmático Marty, embora ele nem fosse pensar isso na época. Ali, entre as décadas de 1940 e 1950, a comunidade italiana como todos conhecemos – alegre, festiva e intensa – convivia ao lado de outra característica que ligamos muito aos ítalo-americanos: a máfia, a violência, o medo. Marty sentia o peso desse ambiente na sua juventude, e mesmo com sua família estando fora das atividades perigosas exercidas por boa parte de seus vizinhos, saber que o pai daquele amigo com quem brincou no dia anterior foi morto por criminosos e que a qualquer hora alguém poderia sumir desse jeito, era um fato amedrontador. Para fugir disso, a igreja e as salas de cinema foram seus esconderijos.

É falando dessa infância atribulada em Little Italy que Richard Schickel dá inicio à conversa com um dos maiores diretores de cinema norte-americano, Martin Scorsese. Na verdade, o diálogo parece ter início bem antes, mas é a partir desse momento que o leitor entra na roda como um expectador invisível para conhecer mais intimamente a história e trabalho do diretor. Em Conversas com Scorsese, com uma edição brasileira mais que caprichada publicada pela editora Cosac Naify, até quem não é lá muito chegado a cinema, ou conhece pouco da filmografia do diretor, se encanta com a visão e dedicação de Scorsese ao seu trabalho.

Se um diretor consegue condensar 700 páginas de um livro em duas horas de filme, então um escritor pode transformar duas horas de filme, ou uma carreira inteira de um diretor, em 10 páginas de um conto – ou mais, ou até menos. E dezessete escritores, cada um com seu diretor preferido, reúnem esses contos em 24 letras por segundo, último lançamento da Não Editora. Organizada pelo não-editor Rodrigo Rosp, que encarna Woody Allen no conto “Todos os homens dizem eu te amo”, a proposta da antologia é homenagear grandes diretores do cinema baseando-se em suas obras, trazendo para a literatura as principais referências de seus filmes.

Se os textos estão carregados de pedaços da história do cinema, com o livro em si isso não poderia ser diferente. O que o destaca, além da proposta, é a capa de Samir Machado de Machado também autor de um dos contos, inspirado em Steven Spielberg – e o projeto gráfico de Guilherme Smee, que fazem do livro uma capa de VHS vinda direto dos anos 1980. Antes de começar a leitura, é bom gastar bons minutos para olhar todos os detalhes do exemplar, cada referência colocada na contracapa, na folha de rosto, nas imagens que abrem os contos. 24 letras por segundo é o tipo de livro que torna insossa a leitura em um e-reader por conta de sua qualidade gráfica, coisa que nenhum leitor digital conseguiria imitar.