Esses dias, em uma aula na faculdade, um professor falou que a morte, a nossa única certeza, é o que moveu a criação de lendas, mitos e histórias na tentativa de explicá-la – pelo menos é o que acho ter ouvido dele. Incontáveis histórias foram criadas para tratar do fim da vida, outras inúmeras trazem a própria como personagem, é inegável dizer que a morte alimenta a criatividade e o imaginário, pois ao mesmo tempo em que é um fato do qual não podemos fugir, é rodeada de dúvidas que nunca se esgotam, sempre são renovadas. Eni Allgayer, gaúcha autora de livros juvenis e ensaios históricos, apresenta em seu primeiro livro de contos a morte como ponto central. Em Ciranda negra, publicado pela Dublinense, se deparar com a morte é regra para todas as personagens.

Os contos de Eni são ambientados predominantemente na vida rural, do interior do Rio Grande do Sul, mas não deixam de falar também de áreas urbanas e sua relação com a morte, apresentada nesse livro das mais diversas formas. Eni começa dando ao leitor uma ideia das adversidades pelas quais suas personagens passam no conto “A maçã”, em que narra a alegria e satisfação com que uma criança come a fruta, fazendo a história parecer um inocente e feliz momento em sua vida infantil. Mas os bons sentimentos narrados pela autora escondem a podridão do local em que a menina está, surpreendendo com o final melancólico do curto conto. Esse primeiro texto também engana o leitor sobre o que mais Eni tem a contar, pois a morte não precisa ser necessariamente triste, perturbadora ou indesejada.