Quando a vida está uma merda, a gente faz escolhas bostas. Um exemplo disso é o livro Luxúria, de Raven Leilani (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe). Edie, a protagonista, está naquela fase da vida em que nada é garantido. Funcionária em uma editora de Nova York, está entediada com o trabalho e se sentindo ameaçada por uma nova contratada, uma jovem negra como ela em um ambiente majoritariamente branco. Como se não houvesse lugar para mais de uma pessoa negra na editora. Ainda mais quando a “concorrente” age para agradar a todos, enquanto Edie não faz questão nenhuma disso. 

A pessoa quando deprimida não vê esperança e sentido em nada. A vida pessoal parece estagnada — e se não estagnada, em constante decadência. A crença no trabalho acaba, a pessoa duvida de suas capacidades e até da utilidade da sua existência. E é difícil identificar qual a razão dessa depressão. É uma tristeza que invade sua mente e seu corpo, e aos poucos vai se alastrando como um vírus, impossível de ser contido pelos nossos anticorpos — as frases motivacionais, os objetivos a serem alcançados, as pessoas que amamos. Antônio Xerxenesky escreveu em Uma tristeza infinita (Companhia das Letras) uma história que retrata muito bem essa sensação de que nada mais vale a pena e tudo vai desmoronar. 

Num dia você encontra o amor da sua vida. No outro começa a notar comportamentos estranhos na pessoa, um tom agressivo, uma fala grossa. Um relacionamento abusivo se constrói devagar, com o abusador aos poucos cercando a vítima e a isolando do mundo. Nem todo mundo percebe os sinais. Muitos não percebem os sinais. E quando percebem, já é tarde: as coisas estão muito piores e tendem a só piorar. O relato que Carmen Maria Machado fez sobre o relacionamento abusivo que sofreu deixa isso bem claro. 

Nada como uma tragédia familiar para te fazer ficar presa em um livro. Sou da opinião de que todo leitor de ficção é um grande fofoqueiro, então essas histórias são perfeitas para a sede de fofoca que habita em nós. Histórias de gente que podemos imaginar como sendo nossos vizinhos, fuxicando uns com os outros sobre a vida alheia e seus segredos. Foi com isso em mente que li Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, um sucesso literário dos anos 1950 que ganhou nova edição pela Companhia das Letras. 

Uma das coisas que contribuem para a falta de vontade de viver, para mim, é quando a minha casa está desarrumada. Não sou a pessoa mais organizada, nem a mais limpinha, mas se eu deixo a casa chegar a um estado de quase abandono, meu humor só piora. A irritação aumenta conforme cresce a poeira em cima dos móveis. Limpar a casa acaba sendo, então, uma forma de terapia. Ver o chão limpo, as coisas no seu lugar, a louça lavada… Isso traz uma paz de espírito. Lendo Os tais caquinhos, de Natércia Pontes (Companhia das Letras), reafirmei isso para mim mesma: minha casa reflete meu (des)equilíbrio mental. 

Raquel Tommazzi é artista, tem 130 quilos, estudou na Europa e usa sua arte para discutir a violência. Alexandre Tommazzi, seu irmão, é dono de uma rede de academias, religioso, daqueles que prezam a família e os bons costumes. Durante uma palestra em um seminário sobre a violência, Raquel é espancada em cima do palco por um homem que tem ligação com seu irmão. Esse acontecimento repercute no meio artístico, e uma cineasta europeia vem até o Brasil para entrevistar Raquel e Alexandre sobre esse acontecimento para um documentário que trata, também, da violência. 

Garota, mulher, outras é aquele tipo de livro que chega em mim sem eu saber nada sobre ele. Não andei muito atenta às premiações internacionais do ano passado, então meio que ignorei que livro ganhou o quê. Ando com ranço de premiações — um beijo, Jabuti. Quando recebi o livro aqui em casa (enviado pela Companhia das Letras), me interessei, primeiramente, por ter sido traduzido pela Camila von Holdefer. E depois por ver um bem destacado “Vencedor do Booker Prize” na capa. Passei o livro na frente de todos quando muitos me falaram que ele era bom, e eu acredito demais na opinião alheia.  

Livros eram coisas que, na minha infância, pareciam inalcançáveis. Lembro de ter visto uma grande quantidade de livros apenas na casa de uma família: os patrões da minha mãe, que tinham uma vida bem mais confortável que a nossa. Apesar de ter passado anos naquela casa, os livros eram inacessíveis para mim, não só porque ficavam dentro de uma estante envidraçada, mas porque eram quase todos em um idioma que eu não compreendia. Eu gostava de ficar olhando para aquela estante, já gostava de ler os poucos livros que chegavam até mim. E eu desejava ter muitos livros quando eu crescesse, como os patrões da minha mãe.   

Edgar Wilson trabalha recolhendo restos de animais mortos na beira da estrada. Quem já andou pelas estradas do interior sabe bem o quanto essa cena é comum: gambás, tatus, aves, cachorros, gatos, vacas… Não são poucos os animais que colidem com veículos e que assustam e até matam quem é surpreendido por eles. Mas Edgar não não se preocupa com quem atropela, e sim com o atropelado. Seu trabalho é recolher os animais, não os humanos. Ele é o protagonista de Enterre seus mortos, de Ana Paula Maia (Companhia das Letras), livro que foi finalista do Prêmio Jabuti.