Nunca antes na história (deste país) desta leitora, um livro de Nicole Krauss caiu em suas mãos. Eu conhecia o nome, sabia que deveria estar na minha lista de autoras contemporâneas lidas, mas fora isso, não tinha nenhuma outra informação sobre ela e seus livros – deixemos os dados matrimoniais de lado. No último mês, chegou aqui no Brasil seu romance mais recente, Floresta escura, traduzido por Sara Grünhagen e lançado pela Companhia das Letras. Aí aproveitei.

Edward St. Aubyn começou a publicar os romances de Patrick Melrose em 1992 e terminou a série de cinco livros em 2012. Baseado em fatos de sua própria vida, os livros acompanham Patrick da infância até a idade adulta. Seu pai, David, é um ex-soldado e médico que enriqueceu após o casamento com Eleanor, filha de uma tradicional família inglesa. Patrick é filho único, cresceu em mansões e estudou em boas escolas. Viajou pelo mundo todo e frequentou festas com a presença da família real. Uma vida bem abastada, digamos, para render uma narrativa de cinco livros sobre os podres da elite londrina. Mas a história de Patrick Melrose não é só puro deboche da vida cheia de riquezas de sua família e amigos.

Há famílias onde nada é segredo. Pais e filhos conversam abertamente sobre o que estão sentindo, sobre seus problemas mais complicados e íntimos, e tudo se resolve numa boa conversa. Eu não vim de uma família assim, e, ainda hoje, não sinto que posso falar sobre qualquer coisa com meus pais, tios, avós ou primos. Pode ser uma forma de autoproteção, de evitar reprimendas e julgamentos, ou por achar que vivo uma realidade distante da deles e por isso não haveria compreensão. Assim, nem as coisas mais mundanas são ditas.

Estou sentindo cheiro de ceia de Natal, de amigo secreto da família, de tios bêbados e de melancolia de fim de ano. Significa que é hora da: LISTA DE MELHORES LEITURAS DO ANO!

O ano ainda não acabou, eu sei, mas posso declarar que já tenho a lista de livros mais legais de 2017 – se bem que achei o mesmo no ano passado e tive que adicionar um livro extra depois de ter postado a lista. Mas como o ritmo de leitura anda lendo e tudo o mais, acho que já posso encerrar o expediente de 2017 (que foi bem preguiçoso, desculpa).

“Se ansiamos que nosso planeta seja importante, há algo que podemos fazer quanto a isso. Podemos fazer com que ele seja significativo com a coragem de nossas perguntas e a profundidade de nossas respostas.” – Carl Sagan

Carl Sagan não precisa de apresentações, assim como Cosmos. Quem viveu nos anos 1980 e 1990 lembra bem da série de TV que aproximou ainda mais o público “comum” da ciência, essa coisa tão obscura e complicada. E quem, como eu, não viveu essa descoberta do universo com a série original, acabou impactado com seu reboot dois anos atrás, agora na versão de Neil deGrasse Tyson. É claro que eu já sabia quem era Carl Sagan e qual era a sua importância para a comunidade científica antes dessa nova série, já tinha lido alguns de seus livros – é curioso lembrar que meu primeiro contato com sua obra foi justamente através de sua única ficção, o romance Contato. Depois de ver a série, de ler outros de seus livros – como O mundo assombrado pelos demônios –, foi bom demais ler Cosmos e entender a paixão de Sagan pela ciência.

Depois de quatro volumes da série Minha Luta, já era hora de Karl Ove Knausgård falar sobre o principal tema de seus livros: a própria escrita. É claro que ele passou por esse tema nos volumes anteriores, principalmente em Um outro amor e Uma temporada no escuro, segundo e quarto volumes da série. Mas A descoberta da escrita era de certa forma aguardado por compreender os anos de formação do norueguês como escritor.

Eu não fazia ideia de quem era Lucia Berlin até o lançamento de Manual da faxineira aqui no Brasil. Por algum motivo – talvez por causa da capa, ou do título –, não dei atenção para o livro quando começou a sair naquelas listas estrangeiras de melhores livros do ano, em 2015. Berlin não era uma autora muito lida nos EUA – sim, ela é americana –, ela era conhecida entre outros escritores, admirada por eles, mas não chegou a atingir o grande público. Não até Manual da faxineira. E não é porque seus contos são difíceis, intelectuais demais ou algo do tipo. Berlin tem uma escrita direta e bem-humorada, não é de se entender mesmo porque só anos depois de sua morte é que seus textos finalmente “estouraram”.

Sei que é bobagem essa coisa de “currículo literário”, de que certas obras ou autores são obrigatórias. Mas sempre senti que, se tem um autor que eu deveria mesmo ler, esse seria Philip Roth. E demorei para pegar um livro dele. Com todo esse negócio de Donald Trump presidente, Bolsonaros e seus fãs, gente achando que a ditadura deve voltar e tudo o mais, a escolha para começar a ler Roth foi mais do que certeira: Complô contra a América, lançado em 2004 (tradução de Paulo Henriques Britto).

George Saunders é um dos principais nomes do conto norte-americano. Aqui no Brasil, lançou Dez de dezembro, livro que reúne dez contos que, como escrevi na época, são “de alguma forma ligados a questões como a realidade obscura da vida no subúrbio, conflitos morais, o cotidiano com suas falhas, acertos, dramas e comédias”. Os contos possuem certa dose de fantasia, ou de absurdo, mas são, basicamente, sobre questões existenciais, sobre o comum da vida. Lembro de ter gostado de tudo nesses contos: dos enredos, das personagens, da maneira com que Saunders escreve. Então não foi por puro acaso que li Lincoln in the Bardo, seu primeiro romance que foi lançado no começo desse ano.

 

Quem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet (tradução de Rosa Freire D’Aguiar), foi o último livro lido em 2016, e um dos meus preferidos do ano. É daqueles livros que você não sabe exatamente os motivos de ter gostado, ou apenas não consegue descrevê-los bem. Ele é divertido, ele é bem escrito, ele pode até ser considerado inventivo, apesar de ser uma clássica história de investigação policial, um quem matou quem – ou quem mandou alguém matar quem, neste caso –, um romance que usa elementos reais para criar uma absurda história de conspiração que envolve a linguagem. Talvez eu tenha gostado do livro porque finalmente usei o que tive que aprender de semiótica na faculdade. Talvez.