o-perseguidorÉ de conhecimento de todos, ou pelo menos da maioria que gosta de Julio Cortázar, que o escritor era um amante do jazz. Tocava trompete amadoramente, e chegava até a utilizar o jazz como uma analogia à própria arte de escrever – como fez em uma entrevista para a Paris Reiview. Em O perseguidor, o jazz é quase que um personagem principal. O texto, publicado originalmente em 1959 na coletânea As armas secretas, é uma homenagem do argentino a Charlie Parker, um saxofonista norte-americano e compositor, um dos melhores que o jazz já conheceu. Nesse volume agora lançado pela Cosac Naify, com ilustrações de José Muñoz, Cortázar conta através de um crítico de música a perturbada vida de Johnny em sua estada em Paris.

Bruno é um jornalista parisiense que havia escrito uma biografia sobre Johnny, um dos maiores saxofonistas vivos do jazz. Nas palavras de Bruno, Johnny não é nada menos que genial: onde entra, toca a todos com sua música, e o mais impressionante é que ninguém consegue definir com clareza o que seu estilo tem que o coloca em um patamar tão alto. Mas Johnny é um homem perturbado. É viciado em drogas, depressivo, havia acabado de perder seu saxofone no metrô de Paris e não tinha dinheiro para comprar um novo a tempo de um show já contratado na capital francesa. Suas falas são delírios perceptíveis, constantemente divagando sobre sua vida, a passagem do tempo e a música. Bruno é um amigo que lhe visita, tenta resgatá-lo para que cumpra seus contratos e grave mais músicas inesquecíveis, ao mesmo tempo em que tenta entender o que está por trás de Johnny, o motivo de um homem tão desagradável e comum ser considerado um gênio do jazz.

Depois de ler tantos contos que tratam predominantemente de casos cotidianos, é até estranho pegar uma reunião de histórias policiais nas mãos. A impressão que tenho é que o gênero hoje se reserva apenas ao romance, deixando no passado nas mãos de escritores como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie o papel de criar curtas histórias investigativas. Na apresentação de A Prova dos Noves, o autor gaúcho Élcio Conte até faz essa comparação de seus textos publicados pela editora Nova Prova com os dois mestres policiais. Basta ao leitor concordar se os três contos que compõem seu livro merecem ser assim comparados.