“História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo.”

Roman Osipovitch Markin é um artista que virou censor. Na União Soviética dos anos 1930, seu trabalho consiste em apagar da História personalidades controversas, artistas, políticos, ativistas, qualquer pessoa que tenha se oposto ao regime socialista. Seu talento para a pintura, mais especificamente os retratos, não era grande o bastante para se tornar um artista. Mas em um regime onde a “História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo”, Markin é um dos melhores no seu trabalho.

Quando li Tipos de perturbação, passei a considerar Lydia Davis uma das minhas autoras favoritas. Seus contos curtíssimos, muitas vezes com poucos parágrafos ou até mesmo uma frase, têm aquele humor sagaz que te deixa por minutos rindo sozinha, pensando em como tão pouco pode dizer tanto. E seus textos mais longos são tão encantadores quanto, com personagens muito bem desenvolvidas e histórias que se sustentam a cada frase. Seu primeiro romance, O fim da história, não causou a mesma impressão, mas não abalou minha admiração pela autora. E bem ansiosa fui ler sua segunda coletânea de contos publicada no Brasil, Nem vem (tradução de Branca Vianna), lançada no Brasil no ano passado pela Companhia das Letras.

Eu não fazia ideia de quem era Lucia Berlin até o lançamento de Manual da faxineira aqui no Brasil. Por algum motivo – talvez por causa da capa, ou do título –, não dei atenção para o livro quando começou a sair naquelas listas estrangeiras de melhores livros do ano, em 2015. Berlin não era uma autora muito lida nos EUA – sim, ela é americana –, ela era conhecida entre outros escritores, admirada por eles, mas não chegou a atingir o grande público. Não até Manual da faxineira. E não é porque seus contos são difíceis, intelectuais demais ou algo do tipo. Berlin tem uma escrita direta e bem-humorada, não é de se entender mesmo porque só anos depois de sua morte é que seus textos finalmente “estouraram”.

É difícil falar sobre contos e blábláblá. A leitura é mais leve, mas ao mesmo tempo profunda e blábláblá. Resenhar um livro de contos é complicado porque ou você fala de cada texto, ou faz um comentário que consiga abranger todos os contos em uma coisa só e blábláblá. Não sei quantas vezes já comecei a falar sobre um livro com essas frases, mas a sensação, terminada a leitura, é essa: como explicar que os textos de tal autor são ótimos e como resumir a sensação da leitura como um todo? Isso só acontece, claro, com os bons livros, como foi o caso de Dez de dezembro, de George Saunders.

Em 2013, aos 82 anos de idade, a canadense Alice Munro ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. A autora já tinha alguns livros traduzidos aqui no Brasil, mas, como é regra para mim, geralmente não conheço escritores recém-agraciados com o prêmio da academia sueca, e o Nobel acaba sendo o ponto de partida para lê-los. Felizmente, assim que anunciado, editoras apresentaram novas edições e traduções engatilhadas – como a de seu último livro publicado, Vida querida. Outra delas foi Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, publicado no final do ano passado pelo selo Biblioteca Azul da Globo Livros.

O volume traz nove contos que narram vidas de personagens bem distintas: jovens, idosos, crianças, todas as histórias girando em torno de reencontros, do companheirismo, do amor e de algumas traições. O primeiro conto, que dá nome ao livro, faz referência a uma brincadeira adolescente de duas das personagens, que inventam cálculos matemáticos com os nomes de suas paqueras e, contando em ordem, preveem se suas relações vão terminar em ódio, amizade, namoro, amor ou casamento. Neste primeiro conto Alice Munro joga com a percepção do leitor, fazendo a história mudar de rumo a toda hora.

Vou começar dizendo o óbvio: é difícil, extremamente difícil, falar sobre um livro de que se gostou muito. A impressão (talvez acertada) é de que é muito mais fácil elencar os motivos para não se ter admirado uma obra: o ser humano é extremamente crítico e facilmente enxerga aquilo que não lhe agrada – e, ao mesmo tempo, é polido demais para sair por aí apontando para tudo aquilo de que não gosta. Quando o livro me conquista, não resta muito a dizer além de: amei. “Amar” algo já engloba toda uma gama de preferências e sentimentos que não precisa ser muito explicada – até porque o amor nem sempre faz sentido. Mas há a obrigação, depois de anos falando sobre livros, de tentar apontar o motivo desse “amor”. O problema é que nenhum desses pontos parece ser justo com a obra, a ponto de resumir com exatidão o que torna algum livro digno desse amor.

Dentro de si, o homem guarda impulsos sombrios. Por fora, a imagem é de uma pessoa normal, incapaz de pensar em alguma atrocidade contra outro ser humano, ainda mais de praticá-lo. Mas por mais direito, ético e bem apessoado que alguém possa parecer, a verdade é que todos guardam em seu íntimo algo nebuloso, um desejo maléfico ou vontade de, em alguns momentos, praticar em alguém algo dolorido como castigo ou escape. São momentos assim os narrados nos breves contos de Flavio Torres em seu primeiro livro, lançado pela Não Editora, Monstros fora do armário.

Nascido em Niterói, mas criado em Porto Alegre, o currículo de Flavio como ficcionista é parecido com o de vários outros autores publicados por essas bandas: participação na oficina de Luiz Antonio de Assis Brasil – provavelmente uma das oficinas de criação literária mais famosas do país – e também dos seminários de criação literária de Léa Masina. Ou seja, exercício criativo não faltou.

Há uma predisposição dos adultos, parece, de rechaçar o que é desconhecido e fantasioso. Todos devemos ter o pé no chão, conhecer tudo, e se possível não se maravilhar ou se entreter a algo que não seja ligado aos tormentos da mente e da sua existência no mundo. A fantasia, a ficção científica e a aventura guardam, ainda, aquele estigma de produto planejado unicamente para distrair crianças e adolescentes ociosos durante as férias. Mas quando essa geração de crianças cresce, a visão desse tipo de literatura – ou cinema, ou jogos – passa por mudanças e ganha ares não só de fantasia, mas também de papel fundamental na formação de leitores. O escape da realidade que esse gênero promove na infância e adolescência se mostra válido e necessário na vida adulta.

Aí está mais que um belo motivo para embarcar nas seis aventuras publicadas pela Não Editora no quinto volume do Ficção de Polpa, dessa vez com o subtítulo de Aventura!. Publicação voltada para a literatura de gênero que imita tanto no conteúdo quanto na parte gráfica as antigas revistinhas pulp, o Ficção de polpa já trouxe aos leitores histórias de ficção científica, horror, crimes, e agora o foco está nas aventuras que vêm acompanhadas de mapas e desbravamento de lugares desconhecidos. Com menos textos que os volumes anteriores, o espaço para os autores desenvolverem seus contos é maior, e entre as histórias suas personagens conhecem mundos secretos, desbravam novas terras e tentam sobreviver a ambientes hostis. O livro ainda traz a tradicional “faixa bônus”, o conto “O Aranha: uma aventura amazônica”, do norte-americano Arthur O. Friel.

Durante algum tempo, Breves entrevistas com homens hediondos foi o único livro de David Foster Wallace traduzido no Brasil. Felizmente, ano passado a Companhia das Letras lançou Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, que, segundo seu organizador, o escritor Daniel Galera, seria o melhor meio para quem quer começar a ler DFW. Pois diferente de Ficando longe, que reúne ensaios e reportagens do autor, Breves entrevistas é pura ficção. O que o livro trás são parte de seus contos, recheados de notas de rodapé – até quem nunca o leu conhece essa sua fama – e dos mais obscuros desejos e casos que envolvem o pensamento dos homens.

Cada dilema ou tara humana serve para DFW escrever um texto perturbador e provocativo. Seja quando o foco são os homens, como é o caso dos enxertos espalhados em várias partes do livro intitulados “Breves entrevistas com homens hediondos”, em que desvelam para uma interlocutora, cuja fala não temos acesso, todos os seus truques de conquistas baratas ou preferências sexuais; seja quando são as mulheres, como nos contos “A pessoa deprimida” e “Adult world I” e “Adult world II”, os textos exploram questões profundas, interiores, problemas íntimos que tomam várias formas em diferentes pessoas.