Dentro de si, o homem guarda impulsos sombrios. Por fora, a imagem é de uma pessoa normal, incapaz de pensar em alguma atrocidade contra outro ser humano, ainda mais de praticá-lo. Mas por mais direito, ético e bem apessoado que alguém possa parecer, a verdade é que todos guardam em seu íntimo algo nebuloso, um desejo maléfico ou vontade de, em alguns momentos, praticar em alguém algo dolorido como castigo ou escape. São momentos assim os narrados nos breves contos de Flavio Torres em seu primeiro livro, lançado pela Não Editora, Monstros fora do armário.

Nascido em Niterói, mas criado em Porto Alegre, o currículo de Flavio como ficcionista é parecido com o de vários outros autores publicados por essas bandas: participação na oficina de Luiz Antonio de Assis Brasil – provavelmente uma das oficinas de criação literária mais famosas do país – e também dos seminários de criação literária de Léa Masina. Ou seja, exercício criativo não faltou.

Há uma predisposição dos adultos, parece, de rechaçar o que é desconhecido e fantasioso. Todos devemos ter o pé no chão, conhecer tudo, e se possível não se maravilhar ou se entreter a algo que não seja ligado aos tormentos da mente e da sua existência no mundo. A fantasia, a ficção científica e a aventura guardam, ainda, aquele estigma de produto planejado unicamente para distrair crianças e adolescentes ociosos durante as férias. Mas quando essa geração de crianças cresce, a visão desse tipo de literatura – ou cinema, ou jogos – passa por mudanças e ganha ares não só de fantasia, mas também de papel fundamental na formação de leitores. O escape da realidade que esse gênero promove na infância e adolescência se mostra válido e necessário na vida adulta.

Aí está mais que um belo motivo para embarcar nas seis aventuras publicadas pela Não Editora no quinto volume do Ficção de Polpa, dessa vez com o subtítulo de Aventura!. Publicação voltada para a literatura de gênero que imita tanto no conteúdo quanto na parte gráfica as antigas revistinhas pulp, o Ficção de polpa já trouxe aos leitores histórias de ficção científica, horror, crimes, e agora o foco está nas aventuras que vêm acompanhadas de mapas e desbravamento de lugares desconhecidos. Com menos textos que os volumes anteriores, o espaço para os autores desenvolverem seus contos é maior, e entre as histórias suas personagens conhecem mundos secretos, desbravam novas terras e tentam sobreviver a ambientes hostis. O livro ainda traz a tradicional “faixa bônus”, o conto “O Aranha: uma aventura amazônica”, do norte-americano Arthur O. Friel.

Durante algum tempo, Breves entrevistas com homens hediondos foi o único livro de David Foster Wallace traduzido no Brasil. Felizmente, ano passado a Companhia das Letras lançou Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, que, segundo seu organizador, o escritor Daniel Galera, seria o melhor meio para quem quer começar a ler DFW. Pois diferente de Ficando longe, que reúne ensaios e reportagens do autor, Breves entrevistas é pura ficção. O que o livro trás são parte de seus contos, recheados de notas de rodapé – até quem nunca o leu conhece essa sua fama – e dos mais obscuros desejos e casos que envolvem o pensamento dos homens.

Cada dilema ou tara humana serve para DFW escrever um texto perturbador e provocativo. Seja quando o foco são os homens, como é o caso dos enxertos espalhados em várias partes do livro intitulados “Breves entrevistas com homens hediondos”, em que desvelam para uma interlocutora, cuja fala não temos acesso, todos os seus truques de conquistas baratas ou preferências sexuais; seja quando são as mulheres, como nos contos “A pessoa deprimida” e “Adult world I” e “Adult world II”, os textos exploram questões profundas, interiores, problemas íntimos que tomam várias formas em diferentes pessoas.

Toda antologia que pretende reunir o “melhor” de qualquer coisa vem carregada de polêmicas. Como a recepção de um texto é muito baseado na subjetividade – suas preferências e experiências determinam o que será apreciado ou não, mesmo reconhecendo a qualidade literária de um texto que pouco agrada –, a lista dos 20 melhores jovens escritores brasileiros de cada um seria diferente da que os jurados da Granta formaram. Sempre haverá alguém para dizer que aquele outro escritor merecia estar no lugar desse aqui, que gosta dos livros e contos de X mais do que dos de Y. Que reclama que W nem ao menos tem um livro próprio publicado ainda, então o que está fazendo nessa lista? Reclamações à parte, falta dizer que a palavra “melhores” não quer dizer nada. Cada um tem os seus “melhores”, e nesse caso, ela vem para mostrar alguns destaques que, futuramente, podem ser reconhecidos como os “melhores” de nossa literatura.

Fazendo um comentário geral, quando os nomes dessa nona edição da Granta em português foram anunciados, achei as escolhas bem justas e previsíveis. Parte dos escolhidos eu já havia lido, outra parte eu já havia ouvido falar com elogios. O resultado foi o esperado: nomes bem vistos pelos críticos, com uma ou duas surpresas que mostram que não são só os já “famosos” que ganham espaço na revista. A expectativa ao começar a ler, claro, é grande, se espera realmente o “melhor” de cada escritor, pois foi assim que a revista foi vendida. Mas apesar de bons, não é exatamente o melhor que se encontra – novamente, a subjetividade da literatura.

Escatológico seria a palavra mais abrangente para definir o livro Festa na usina nuclear, do estreante autor carioca Rafael Sperling. Lembra aquele momento da adolescência masculina em que, querendo mostrar que cresceu e está maduro, milhares de palavras chulas e referências a sexo são despejadas a cada nova frase. Pode-se fazer um paralelo com os jovens escritores, que querendo parecer mais culto e intelectual, abarrotam seus escritos com palavras mirabolantes em desuso que confundem tanto quanto uma letra de música do Djavan. Mas apesar de tudo isso, tanto sexo, sujeira e um conto com frases de efeitos incompreensíveis, Sperling começou bem.

Publicado pela editora Oito e Meio, Festa na usina nuclear reúne 25 contos do escritor que abusa das situações absurdas. Nele há um mundo onde o trabalho é o ócio, e ganha mais aquele que passa a maior parte do tempo dormindo (“Éz”). Há três textos intitulados “Um homem chamado Homem”, em que o Homem procura, em seu fim, o direito de praticar a Não Atividade. Nesses três contos o autor brinca com as definições das coisas: o Homem se casa com a Mulher e tem o Menino, realiza o Trabalho e também pratica o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja. O clichê dos nomes é utilizado para contar uma história em que a impessoalidade das personagens dá lugar a comportamentos revolucionários.

a-pagina-assombrada-por-fantasmasQuando fui ao lançamento do livro A página assombrada por fantasmas, na metade do ano passado, já estava pensando em não resenhar seus contos. Estaria seguindo uma regra do próprio Antônio Xerxenesky publicada no blog do Michel Laub: não resenhar livro de amigos. Não que sejamos lá muito amigos, mas conhecidos sim, com certeza, e levando em conta meu medo/receio/vergonha de saber que um autor leu uma resenha minha, preferi ficar no silêncio mesmo quanto a qualquer crítica. Apenas ler, dizer que gostei – já com a certeza que iria gostar, veja bem – e nada além disso. Pois bem, demorei mais de seis meses para ler o livro, não sei dizer por que. Mesmo com o “polvo leitor” tão elegante desenhado na folha de rosto, fui adiando a leitura até que, em uma viagem para Santa Catarina, dentro do ônibus, resolvi finalmente encarar esses contos. E que arrependimento foi essa demora.

Vamos começar então falando de literatura. A página assombrada por fantasmas é um livro que fala sobre ela. Mas não com pedantismo, daquela maneira que coloca a leitura no mais alto patamar das atividades que um ser humano pode querer usufruir – e Shakespeare o autor mais nobre que poderemos ler. A literatura é abordada, até, de maneira mais cômica, como uma forma de brincar com nossos autores e obras mais estimados. Tchau glamour das letras, olá personagens meio perturbadas, meio engraçadas, às voltas com os livros. Como o leitor/fã nervoso ao ir entrevistar seu autor favorito na capital da Argentina, imaginando diferentes situações – e recusas do entrevistado – antes mesmo de botar os pés nos corredores de seu apartamento. E também Charles Makuviac, “Brasileiro, apesar do nome. Um escritor contemporâneo de grande repercussão mundial, apesar de brasileiro”, frente a uma síntese de sua obra que marca seu futuro na literatura.

Antes de falar diretamente do livro De tudo fica um pouco, quero comentar duas coisas, ou fazer duas reflexões, o que quer que isso signifique. Primeiro já falando do livro de certa forma, ele é fruto de uma oficina literária ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC-RS. O professor é nome conhecido e acompanha muitos lançamentos de novos escritores da cena literária porto-alegrense, autores que passaram pela sua oficina de escrita criativa. Uns bons, outros nem tanto. Não sei exatamente o que pensar dessas oficinas, se elas são mais uma máquina de fazer escritores – contribuindo para a tal reclamação que corre por aí que possuímos mais autores do que leitores e por isso estamos em uma área já saturada cheia de “criação não criativa” –, um capricho de quem gosta de rabiscar algumas linhas para aperfeiçoar um pouco a linguagem ou uma ferramenta que realmente contribui para a formação do escritor. Minha opinião sobre isso é inexistente, no final das contas.

Outra coisa é relacionada à orelha do livro assinada pelo editor da Dublinense, Rodrigo Rosp, em que, além de apresentar o resultado da turma 41 da oficina literária, revela outra linha que agrupa todos esses contos neste livro: a inspiração. E é aí que o leitor descobre a origem do nome dessa coletânea: tudo o que vemos, ouvimos, comemos e consumismos deixa seu rastro. De tudo fica um pouco, e disso os alunos de Luiz Antonio de Assis Brasil tiraram a base para construir seus contos. Mas esse comentário é esquecido logo quando a leitura começa, pois nenhuma informação é dada ao leitor sobre essas fontes de inspiração. Isso aparece apenas nas últimas páginas, e aí se percebe a grande gama de referências que existe em seus contos: a própria literatura, a música, as artes em geral com suas pinturas, esculturas e composições.

Ao falar da literatura japonesa na introdução de 14 contos de Kenzaburo Oe, Arthur Dapieve destaca o talento desse povo em dizer muito usando poucas palavras. Ou seja, da forma que os japoneses, como sociedade em geral e não só seus escritores, dizem tanto sobre suas dores e problemas quando justamente silenciam. É estranho pensar na literatura como algo que se destaca pelo silêncio, pela ausência de palavras, sejam ditas ou escritas, justamente na abertura de uma coletânea de contos de um dos maiores escritores japoneses, ganhador do Nobel de Literatura em 1994. Ainda mais que Kenzaburo Oe não esconde nenhum desses dramas dentro dele mesmo, mas confere à suas personagens certa dificuldade para falarem de seus problemas – e, por isso, o talento da narrativa se faz indispensável para que o leitor veja o que elas não dizem.

Contos fantásticos que abordam temas recheados de seres sobrenaturais, como demônios e gárgulas, misturados com outros de ficção científica que se passam no espaço e em futuros distantes. É bom sair um pouco da realidade e seus dramas tão exaltados pela literatura contemporânea que conseguem, em sua maioria, representar bem esses aspectos surpreendentes que todos guardam. Não há problema em deixar isso tudo um pouco de lado e se embrenhar em fantasias mirabolantes, certo? Certo. E foi assim que li Conexões malignas, de Mário André Pacheco, mais um dos recentes lançamentos da editora Dublinense.

Na orelha escrita por Glee Bohanon (autora da trilogia Code word heaven, que desconheço), havia a promessa de contos inspirados no estilo de Isaac Asimov, autor que Pacheco admira, e também uma pitada de horror nos contos que trazem demônios como protagonistas ou o inferno como cenário. Motivador. O livro começa, então, justamente com um demônio, um coletor de almas que “burla” o sistema do inferno para corromper pessoas puras e trazê-las para o lado do mal. Com a ajuda de uma secretária bonitinha, ambos se fingem de humanos e sobem à Terra para mais um dia de trabalho, mas o receio de ser descoberto em suas trapaças toma conta da cabeça do demônio. E é já aí, no primeiro conto, que alguns problemas se apresentam.

Breve como sugere o título são os contos de Henrique Schneider no livro A vida é breve e passa ao lado, publicado pela editora Dublinense. Se o gênero crônica comporta a fantasia, assim eles poderiam ser classificados. Os textos de não mais que duas páginas escritas por Schneider trazem uma mistura de realidade e corriqueiro com a fantasia que dá características incomuns às suas personagens. São 44 contos que buscam falar das alegrias, dramas e tristezas que todos – ou quase todos – enfrentam na vida, e tudo em poucas linhas – uma exigência, certamente, do espaço que tem no jornal em que elas foram originalmente publicadas, o ABC Domingo que circula aqui na região do Vale do Sinos, no Rio Grande do Sul.

A maioria dos textos segue uma estrutura simples na apresentação de seus “conflitos”. O texto inteiro descreve as personagens, monta todo um cenário para as tramas que, no fim, tem o contexto alterado com uma única frase na última linha. Isso traz surpresa para o leitor, tira o conto do que seria mais uma história normal do cotidiano, arranca as personagens de um estado de conforto e abre portas para novos dramas que devem ser preenchidos pelo próprio leitor – é tarefa dele completar os espaços não narrados por Schneider e dar um verdadeiro fim a essas histórias.