Histórias para quem gosta de contar histórias é um livro que deixa dúvidas: é escrito para o leitor ou para o próprio autor? Ele, Cássio Pantaleoni, diz na contracapa que é inegável o fato de que gostamos de ouvir e contar histórias – uma justificativa simples para o porquê de ele escrever. Nessa apresentação, aliás, o autor justifica a própria escrita: ilustrar acontecimentos mundanos deixando-os mais “coloridos”, trazer histórias sobre prazer, angústia e outros aspectos cotidianos revividos através do seu estilo. Assim, é de se pensar que o livro foi feito para ele mesmo, para aproveitar em uma edição bem acabada (da editora 8Inverso) as histórias que primeiro figuraram em folhas soltas de papel – ou num documento do Word.

Mas o leitor não é esquecido por Pantaleoni. Os 20 contos que preenchem cerca de 100 páginas são bons entretenimentos – como o próprio autor sentencia, dizendo que pelo menos isso pode ser tirado do texto –, mas melhores aproveitados se lidos em doses homeopáticas. No livro a história fica, na verdade, em um segundo plano. O que salta aos olhos é o estilo de Pantaleoni: uma narração musicalizada, com palavras cuidadosamente escolhidas e frases rimadas, perfeitas para se ler em voz alta apreciando o seu som. Isso fica acima dos enredos, tramas simples que exploram a sexualidade – como em “Despantalhamundo”, “Casa de Menina” e “Vai, Fontinha!” –, acontecimentos cômicos e momentos melancólicos – a angústia de um casamento sem sentimentos em “Para não passar em branco”, um enterro visto pelos olhos de um menino em “O Abismo”, uma vida dupla em “Substituição”.

Esses dias, em uma aula na faculdade, um professor falou que a morte, a nossa única certeza, é o que moveu a criação de lendas, mitos e histórias na tentativa de explicá-la – pelo menos é o que acho ter ouvido dele. Incontáveis histórias foram criadas para tratar do fim da vida, outras inúmeras trazem a própria como personagem, é inegável dizer que a morte alimenta a criatividade e o imaginário, pois ao mesmo tempo em que é um fato do qual não podemos fugir, é rodeada de dúvidas que nunca se esgotam, sempre são renovadas. Eni Allgayer, gaúcha autora de livros juvenis e ensaios históricos, apresenta em seu primeiro livro de contos a morte como ponto central. Em Ciranda negra, publicado pela Dublinense, se deparar com a morte é regra para todas as personagens.

Os contos de Eni são ambientados predominantemente na vida rural, do interior do Rio Grande do Sul, mas não deixam de falar também de áreas urbanas e sua relação com a morte, apresentada nesse livro das mais diversas formas. Eni começa dando ao leitor uma ideia das adversidades pelas quais suas personagens passam no conto “A maçã”, em que narra a alegria e satisfação com que uma criança come a fruta, fazendo a história parecer um inocente e feliz momento em sua vida infantil. Mas os bons sentimentos narrados pela autora escondem a podridão do local em que a menina está, surpreendendo com o final melancólico do curto conto. Esse primeiro texto também engana o leitor sobre o que mais Eni tem a contar, pois a morte não precisa ser necessariamente triste, perturbadora ou indesejada.

Ao terminar a leitura de O homem despedaçado, o próprio autor resume bem o que o leitor acabou de ver em seu livro de estreia: “Todos os contos apresentam formas de despedaçamento e não surpreende que, em alguns pedaços, eles se encontrem assim como, às vezes, lembrem outras histórias”. Essa explicação final que Gustavo Melo Czekster faz de sua própria obra apenas confirma as desconfianças do leitor de que seus contos funcionam em conjunto, se complementam e mostram olhares diferentes das situações absurdas e extraordinárias pelas quais passam suas personagens. Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de auto-conhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo.

Publicado pela editora gaúcha Dublinense, os contos trazem diversas personagens que vivem em variadas épocas, mas ainda assim parecem semelhantes em seus medos, angústias e na própria fantasia que as envolve. Teorias filosóficas as levam a se digladiar com paradoxos e invencionices inacreditáveis se tornam críveis nas palavras do escritor, como em “A gênese dos paradoxos brancos”, em que um grupo de “pensadores” descobre a parte mínima que individualiza os seres humanos. A descoberta daquilo que faria “Deus” enxergar a matriz de cada homem é tão perturbante que leva as personagens a temerem o próprio ato de pensar – como na frase de Pamela Anderson (sim!) que abre o texto: “Pensar demais me deixa assustada”.

Se um diretor consegue condensar 700 páginas de um livro em duas horas de filme, então um escritor pode transformar duas horas de filme, ou uma carreira inteira de um diretor, em 10 páginas de um conto – ou mais, ou até menos. E dezessete escritores, cada um com seu diretor preferido, reúnem esses contos em 24 letras por segundo, último lançamento da Não Editora. Organizada pelo não-editor Rodrigo Rosp, que encarna Woody Allen no conto “Todos os homens dizem eu te amo”, a proposta da antologia é homenagear grandes diretores do cinema baseando-se em suas obras, trazendo para a literatura as principais referências de seus filmes.

Se os textos estão carregados de pedaços da história do cinema, com o livro em si isso não poderia ser diferente. O que o destaca, além da proposta, é a capa de Samir Machado de Machado também autor de um dos contos, inspirado em Steven Spielberg – e o projeto gráfico de Guilherme Smee, que fazem do livro uma capa de VHS vinda direto dos anos 1980. Antes de começar a leitura, é bom gastar bons minutos para olhar todos os detalhes do exemplar, cada referência colocada na contracapa, na folha de rosto, nas imagens que abrem os contos. 24 letras por segundo é o tipo de livro que torna insossa a leitura em um e-reader por conta de sua qualidade gráfica, coisa que nenhum leitor digital conseguiria imitar. 

Familiarizar o leitor com histórias baseadas principalmente no cotidiano é fácil quando o que se tem em mãos é um enredo simples, uma trama interessante e bem fechada, realista e próxima ao que se vê na realidade. Quando essa realidade é cortada por rompantes de fantasia, tornar essa história ainda natural aos olhos de quem lê é um pouco mais complicado. E quando isso é feito, o efeito de surpresa é ainda maior, assim como a satisfação da leitura. Em Todos os fogos o fogo, de Julio Cortázar, a união do real com a fantasia não distancia o leitor daquilo que ele mesmo vê em seu dia-a-dia, mas o aproxima dele mesmo, com seus desejos e fantasias que ele alimenta poderem ser reais.

Na vida cultuamos o que é belo, aquilo que possa ser admirado, que seja agradável e tão interessante que é impossível desviar os olhos. Diz-se também que ignoramos o que é feio, ou nos esforçamos por deixar passar em branco aquilo que nos embrulha o estômago e que pode se fixar em nossa mente o bastante para nos tirar o sono. Mas há coisas que, mesmo desprovidas de beleza, são atraentes o bastante para que nosso olhar recaia sobre ela e a mente fique ocupada com esse interesse que está longe de ser perturbador. Ou até sejam, mas em doses menores que conseguimos digerir.

Delicadamente Feio, lançamento da editora Dublinense e estreia de Ricardo Silveira na literatura, pretende falar dessas pequenas coisas presentes em nosso cotidiano, mas ignorados por conta de sua feiúra. A intenção é mostrar personalidades e ações que estão longe de serem belas, sejam elas físicas, como o rosto de uma pessoa, ou morais, alguma atitude pouco louvável. Ricardo Silveira é mais um dos autores da safra de oficinas literárias ministradas por Charles Kiefer, e assim como outros que exercitam sua escrita, seu primeiro livro contém os textos ali trabalhados. Mas isso não significa que sejam excelentes por terem a aprovação do professor.

“O daimon, para os antigos gregos, é tanto a natureza externa quanto a interna”, diz a contra capa de Daimon Junto à Porta, livro de contos de Nelson Rego. Como diz Charles Kiefer em sua orelha, daimon foi convertido a daemon, que em latim significa “demônio”. Mas o lançamento da editora Dublinense não traz histórias de demônios – só uma, pelo menos – ou coloca o diabo parado na frente de várias portas esperando levar almas para o inferno. Daimon, aqui, é a inspiração artística, uma força que existe no artista que a recebe e a transforma em texto.

Mas esse também não é o tema central desse livro. Nelson Rego traz histórias que oscilam entre o inocente e o sexual, com narradores que aos poucos também se revelam protagonistas. Esse confronto que traz sensualidade aparece logo no primeiro conto, “Platero e o Mar”, cujo narrador fala de Inocência, uma de suas amigas com quem passa uma temporada no litoral. Inocência, uma jovem adulta, é o sonho de um grupo de garotos pré-adolescentes, e seu amigo conta como ela gradualmente é seduzida por essas “inocentes” crianças. O mesmo narrador encerra o livro com “Um pedacinho do tempo diante dos olhos”, onde ele e suas amigas voltam ao livro, dessa vez como pessoas registradas pelas lentes de uma fotógrafa que todos os dias busca eternizar segundos em sequências. Ambos os textos prendem a leitura pelo cuidado na escolha das palavras, mas o último não tem a mesma atração exercida pelo primeiro.

Dias comuns viram literatura com personagens que se perdem em reflexões sobre o que rodeia suas vidas. Identificadas ou não, essas pessoas falam de suas dúvidas, dores e angústias pelas palavras da escritora gaúcha Daniela Langer em No inferno é sempre assim e outras histórias longe do céu, coletânea de contos publicada recentemente pela editora Dublinense. As histórias falam de pessoas normais com que topamos todos os dias pelas ruas, mas para as quais damos pouca atenção.

Dividindo o livro em duas partes – Histórias longe do céu e No inferno é sempre assim –, Daniela pega personagens comuns e deles tira angústias e expectativas que ocupam suas vidas. Acontecimentos que podem durar poucos segundos são transformados em minutos ou horas pela autora. Ela intensifica o detalhe, metaforiza e adjetiva pequenas ações, seja o voar de uma mosca, o suor escorrendo pelas costas, o beber de um copo de cerveja bem gelada ou o estirar-se na areia da praia. Nenhuma ação passa despercebida pelo texto de Daniela, que com suas palavras consegue remeter o leitor a sensações que já vivenciou.

O conto é um gênero literário que parece ter pouco espaço entre os leitores brasileiros, mas bem visto entre os escritores. Ao escolher a próxima leitura, noto que o leitor prefere os romances longos, cheios de personagens e enredos com mil reviravoltas. Enfim, dão preferência às histórias que se aprofundam no que pretendem contar. Com os contos tudo é diferente: não é apenas o tamanho reduzido que proporciona leitura curta, mas também a própria abordagem de uma história, que age com mais ação e intensidade. Para o leitor amante de romances, o livro A Poética do Conto: de Poe a Borges – um passeio pelo gênero, do professor Charles Kiefer e publicado pela editora Leya, não serve apenas para conhecer mais o conto, mas para ver sua grandeza na literatura.

Para falar desse gênero, Kiefer aborda no livro a produção crítica e literária de três grandes autores que dedicaram a vida ao conto: o pai da literatura policial Edgar Allan Poe e os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges. Nomes conhecidos que veem o conto como o gênero onde o autor pode mostrar de forma mais única todo o seu talento. A pesquisa de Kiefer se divide em três partes, cada uma tratando de um dos autores estudados e suas leituras. Assim, o leitor tem acesso às críticas de Poe ao escritor Nathaniel Hawthorne, às de Cortázar a Poe e às de Borges a todos os escritores anteriores. Esse é um exercício que define o conto ao mesmo tempo em que mostra como cada autor o enxergava e o que colocavam em seus próprios textos. Kiefer também avalia se eles seguiam as regras estipuladas em seus ensaios e resenhas em suas próprias obras.