Um dos meus primeiros contatos com Thomas Pynchon foi através de Como funciona a ficção, do crítico James Wood. Segundo ele, Contra o dia é um exemplo de uma fraqueza no romance pós-moderno: “Não existe nada mais setecentista do que o amor de Pynchon pela multiplicação picaresca do enredo, seu arremedo de pedantismo que, ao mesmo tempo, é um amor pelo pedantismo, seu costume de apresentar personagens rasos dançando em cena por um instante, para despachá-los logo em seguida, seu gosto vaudeviliano por nomes bobos, piadinhas, reveses, disfarces, erros farsescos etc.” É mesmo isso o que Pynchon faz, seu livro é recheado de personagens praticamente incontáveis, que se cruzam, somem e reaparecem conforme os caprichos do autor. Mas Wood reconhece: “Há como extrair prazer dessas telas agradáveis e cheias de gente, e há trechos de grande beleza”. Muitos trechos.

O segundo contato com o autor veio através do conto “Esse maldito sotaque russo”, publicado em A página assombrada por fantasmas, do Antônio Xerxenesky. O nonsense do conto (um detetive à procura de Thomas Pynchon que descobre que seus livros estão sendo escritos, na verdade, por sua amante russa que é nada mais nada menos que Maria Sharapova) me fez esquecer totalmente da crítica de Wood. Quando a Companhia das Letras lançou a tradução do livro, aquela máxima do “ame ou odeie” despertou vontade de ler e ver para que lado eu penderia: foi para o “ame”.