Em 2011, Enrique Vila-Matas aceitou o convite para participar da Documenta, uma exposição de arte sediada na cidade de Kassel, na Alemanha (seria Kassel a Inhotim da Europa?). Conhecido como um evento que apresenta o que há de mais novo no mundo da arte, o rótulo vanguardista da Documenta, à princípio, não o deixa muito animado. É da arte vanguardista que seus colegas riem, pensa o escritor, são ideias “inovadoras” facilmente rejeitadas. Mas esse não é o tipo de pessoa que ele quer ser, alguém que zomba daquilo que propõe ser novo, inédito, diferente. Aceitando participar, viaja à cidade onde fica por alguns dias, mais contemplando as obras e refletindo sobre a literatura e a arte do que, de fato, sendo parte da obra – ou, pelo menos, da obra que ele deveria representar. O relato – romanceado – desse convite e de sua participação está em Não há lugar para a lógica em Kassel, recém-lançado no país com tradução de Antônio Xerxenesky. A tarefa de Vila-Matas na Documenta é sentar em um restaurante e escrever, assim como outros colegas escritores fizeram. Escrever e interagir com possíveis curiosos que venham lhe perguntar o que está escrevendo. Dar ao visitante a oportunidade de conversar com o autor sobre seu processo criativo enquanto ele está realmente criando, quem sabe. Mas a perspectiva de passar dias sentado à mesa de um restaurante chinês durante algumas horas em uma cidade alemã não lhe é muito empolgante, e logo a animação que sente ao raiar do dia vai sendo soterrada pela ansiedade de estar à espera de ninguém tendo que escrever “ao vivo”.

Faltam poucos dias para 2014 acabar (poderia colocar o número de dias aqui, mas sou tão ruim com números que poderia errar esse cálculo fácil, então vamos usar o “poucos dias” mesmo), e esse foi um ano bom profissionalmente, pessoalmente, mas fraquíssimo na minha intensidade de leitura – provavelmente por estar tão ocupada com as coisas fora dos livros, né – e também por usar o tempo no ônibus para dormir mais.

Mas vamos lá: foram 27 livros lidos ao todo (sim, só isso), e há ainda quatro em processo de leitura – Graça infinitaque está maravilhoso, O demônio do meio-dia, que interrompi justamente por causa do Graça, mas que também estava ótimo, A balada de Adam Henry, a atual leitura de ônibus (pois né, difícil carregar DFW por aí), e Oblómovque já vou até considerar aqui como “abandonado” porque sei que vou levar eras até pegar ele de novo – tiro da conta o Dom Quixote marcado como “lendo” no Goodreads porque li o primeiro volume no ano retrasado e falta só o segundo, hehe.

A terra neste lugar já foi próspera, mas não se pode dizer o mesmo nos dias de hoje. Plantação nunca vingou muito, só para o sustento. Criação ninguém nunca teve muita para dela tirar lucro. A riqueza que havia ali vinha das pedras, do garimpo de diamantes que levou até lá homens em busca de riqueza, e que caíram nas mãos controladoras de um coronel capaz de confiscar as próprias ferramentas de trabalho como pagamento de dívidas que ele forçou seus homens a adquirir. Hoje eles continuam a trabalhar com menos afinco que antes, mas com esperança e desespero maior, movidos pela fome em busca da última pedra.

Em Tempo de espalhar pedras, Estevão Azevedo acompanha a vida de quatro personagens nessa terra sem nome: Ximena, filha de um dos garimpeiros mais velhos, se engraça com Rodrigo, este caçula de garimpeiro rival, Diogo. Ainda há Joca, seu irmão, que busca uma forma de mostrar seu valor, se não para a família que seja para Bezerra, amigo que o acolhe na busca pela pedra em local escondido das fuças do coronel. E, por fim, Silvério, o carola que reza enquanto, alucinando de fraqueza e fome, procura convicto a pedra que se esconde quiçá debaixo da própria casa.

Sou simpática a livros curtos. Com Bonsai, de Alejandro Zambra, foi paixão na primeira leitura. Existe algo na finura do exemplar, no tamanho grande da fonte e nos grandes espaços em branco na página que me atraem logo para a leitura. Como se um livro breve fosse a melhor representação da frase “o que é bom dura pouco”. Óbvio que essa impressão existe também com os grandes romances – em que 700 páginas são lidas sem mal notar. Mas com o livro curto você sabe que será rápido mesmo, em um, no máximo dois dias (se você se esforçar demais para adiar a leitura), vai terminá-lo. Era isso o que eu pensava logo que comecei Um, dois e já (Cosac Naify, 2014), primeiro livro da uruguaia Inés Bortagaray publicado no Brasil.

Mudança era para ser um livro sobre as mudanças pelas quais a China passou nos últimos 30 anos. No povoado rural em que nasceu, Mo Yan viveu os últimos dias da era maoista, vivenciou a Revolução Cultural e se tornou escritor enquanto a China caminhava para um grande crescimento econômico. Mas o livro, uma encomenda feita por Tariq Ali para a coleção What Was Comunism, acabou tomando outra forma do que um relato preciso sobre as transformações da China comunista. Na verdade, é uma “autobiografia ficcionalizada” em que Mo Yan mostra a mudança por um viés mais humano, focado nas pessoas de seu povoado e em um velho caminhão soviético.

Um caminhão soviético porque, desde quando ainda estava na escola, a vida de Mo Yan esteve ligada ao Gaz 51 dirigido pelo pai de uma de suas colegas, Lu Wenli. Na comunidade rural em que cresceu, dirigir um caminhão conferia um status superior ao seu motorista e sua família, pois poder sentar atrás de um volante e ser responsável por ele era um sinal de importância que deveria ser respeitado. Havia satisfação em ver o Gaz 51 percorrendo as ruazinhas, levantando poeira sem se importar com o que vinha pela frente – o que causava a morte de muitas galinhas por atropelamento. Todas as crianças sonhavam em sentar no banco do caminhão com o pai de Lu Wenli para sentir sua velocidade.

Ultimamente os romances breves têm me agradado muito. É estranho lembrar de quando era adolescente, eu empolgada com a descoberta da leitura querendo ler os maiores livros que eu encontrava na biblioteca – se tivesse menos de 400 páginas não me interessava. Naquela época havia tempo livre e mais energia para isso. Não que eu não goste dos livros grandes hoje, mas depois de certo período lendo o mesmo romance, fico com a sensação de que a leitura está se arrastando, quando o problema ne verdade é não ter mais aquelas preciosas horas para dedicar a um livro. Tudo isso só para dizer que os livrinhos que eu desprezava naquela época de descoberta literária hoje estão entre as minhas melhores experiências.

No ano passado, uma das minhas leituras favoritas foi Bonsai, do chileno Alejandro Zambra. O que me encantou no livro foi a forma econômica que ele utilizou para escrever o romance, cortando tudo aquilo que fosse enfeite, penduricalho estilístico, deixando apenas o básico que uma narrativa precisa para funcionar. Isso não significa de forma alguma que o texto seja seco e bruto, sem emoção. Bonsai é carregado de sentimento, de paixão, e cada linha era lida com certo ar aparvalhado de surpresa. É possível escrever um grande romance com poucas páginas. As opiniões sobre o livro de Zambra foram quase unânimes – é impossível que qualquer coisa agrade a todos –, e com certeza o tamanho do romance teve algum efeito sobre a lista de livros lidos de muitos conhecidos.

O ser humano é um animal dotado de racionalidade que tem todas as escolhas nas suas mãos. Pode escolher seguir os impulsos instintivos do que ainda resta de sua natureza selvagem, ou viver em harmonia com a sociedade seguindo as suas regras éticas e morais. É da escolha dele viver intensamente ou prezar pela tranquilidade dos fins de semana em casa. É totalmente sua a responsabilidade de se empenhar nos estudos e trabalhar arduamente para, anos depois, recolher os frutos na aposentadoria. Ou vagabundear pelo mundo sempre sem dinheiro, mas com liberdade. E também é da escolha dele, simplesmente, viver ou tirar a própria vida. Sim, nós podemos deixar a existência física – e eu acredito, a consciência – no momento em que quisermos. Nós podemos nos matar, suicidar. Mas nem todos conseguimos.

Em Suicídios exemplares, o catalão Enrique Vila-Matas elenca uma série de histórias em que os protagonistas flertam constantemente com a opção da morte. Não são personagens deprimidas, num todo, como o leitor pode imaginar ao começar a ler o livro. O suicídio, muitas vezes, não é o deles, mas de alguém em volta que por algum motivo exerce alguma atração em pensar sobre a própria morte, imaginar inúmeras possibilidades de se deixar levar por ela. Mas ela, apesar de rondar quase todas as linhas desse livro, nem sempre é alcançada.