Já falaram muito sobre a forma, os traços, as linhas, o desenho, a composição, as referências à arquitetura, à Grécia e sua mitologia e tudo o mais que podemos encontrar de bom em Asterios Polyp. A nova e surpreendente obra de David Mazzucchelli, vencedora dos prêmios Eisner e Harvey (e aqui publicada pela Quadrinhos na Cia.), chegou até mim carregada de elogios à sua beleza gráfica, ao uso incomum das cores, aos traços ousados e ao cuidado do quadrinista ao utilizar tudo o que o gênero permite para contar uma história – cada elemento de suas páginas é fundamental e faz parte da narrativa. Mas o que nenhuma indicação ou resenha me disseram sobre Asterios Polyp – ou o que eu não vi, procurando apenas por comentários sobre a forma – é que ele narra uma história de amor e perdas.

Asterios é um arquiteto “de papel”, um profissional renomado que nunca teve um de seus projetos construídos, mas é muito reconhecido pelas suas teorias e pela carreira acadêmica como professor em Ithaca. Ele é um homem que pode ser descrito como possuidor de linhas retas, bem planejadas e duras, tudo em sua vida segue à risca a regra da utilidade. O mundo, para ele, é dividido em dois: o útil e o inútil, o bonito e o feio, o vencedor e o perdedor. Ele é o vencedor – o gêmeo que viveu, que prosperou. Mas isso vemos apenas no transcorrer da história. No início da HQ, Asterios é só um homem desgraçado, deitado na cama enquanto tudo à sua volta está de pernas para o ar, até que um raio atinge seu apartamento. Na pressa de sair para escapar do fogo, leva consigo apenas três objetos: um relógio, um isqueiro sem fluido e um canivete suíço. O resto do apartamento e toda a sua vida ele deixa ser consumido pelas chamas.