“Eu faço a vida como quem tem sorte / e não prática / como quem deseja o fruto / e o tendo à mão / não colhe / como quem só espera da lástima / que evapore.” Num verso de degustação da contracapa de Sétima do singular, livro de Diego Grando publicado pela Não Editora, já pude perceber uma identificação que é difícil eu ter com a poesia. Ao ler “Hiato”, de onde é tirado esse trecho, a confirmação é de que sim, essas foram as palavras que mais me disseram algo, e assim permaneceu até o fim da leitura. Não quer dizer que apenas a contracapa já sirva como contato com os poemas dele, abrir o livro vale à pena. Assim como podemos escolher uma roupa ao vê-la na vitrine, não significa que olhar o que mais a loja tem a oferecer não possa ser recompensador.

Sétima do singular é dividido em sete partes, cada uma delas com sete poemas. Essas partes são condicionadas a um tema, todas as poesias dentro de uma coisa só: o ser poeta, as relações, o cotidiano, as profissões ordinárias – e por ordinárias se entende “frequente”, “comum” – o ser (e não ser) fumante. Curtos, mas carregados com aquilo que o poeta e o leitor podem ter em comum em experiência: o que um diz se encaixa no que o outro sente. E para quem, como eu, não tem a poesia em alta conta e chega a considerá-la intragável, Diego Grando mostra o contrário: a poesia se entende, sim, e ainda conta histórias.

Sábado passado foi lançado em Porto Alegre um projetinho muito bacana. A Não Editora criou o Contém 1 Drama, uma série de poesias longas ou contos distribuídos gratuitamente pela internet que vai reunir vários autores. O primeiro poema lançado do projeto é 25 Rua do Templo, que conta na verdade com dois textos de Diego Grando inspirados em sua estadia em Paris, de onde acaba de voltar.