se-eu-olhar-pra-trasEdimar é um funcionário público de Porto Alegre prestes a se aposentar. Leva aquele tipo de vida monótona, sem sobressaltos. Tranquilidade e estabilidade, para ele, sempre foram o mais importante – o que o levou a largar a carreira de professor de História. Com uma filha já casada, uma neta e sua mulher, ele mantém uma tradicional família de classe média da capital, daquelas que os vizinhos não encontrariam uma fofoca sequer para cochicharem no pátio do prédio próximo ao shopping Praia de Belas. Resumindo, a vida de Edimar não conta com grandes emoções para preencher um livro. Até ele receber o telefonema de um estranho de Santa Maria, sua cidade natal, que causa um impacto inimaginável no seu cotidiano pacato.

Em Se eu olhar pra trás, publicado pela editora Dublinense, Ademir Furtado faz seu protagonista voltar ao passado motivado por um mistério que envolve seu pai, um conhecido professor universitário da cidade do interior do Rio Grande do Sul. A ligação de um antigo conhecido à procura de alguns documentos deixados a uma assistente leva o funcionário público a fazer descobertas sobre a vida do pai e, principalmente, a relembrar sua própria trajetória do momento em que se mudou para a capital, nos anos 1970, até 2003, quando inicia esse romance. Sem seguir a ordem cronológica, Edimar resgata as memórias de seus tempos de universitário, de professor e do começo de seu único e recatado relacionamento com a esposa.

O nome, a capa, o subtítulo: tudo indicava que Peregrina de araque: uma jornada de fé e ataque de nervos no Oriente Médio é um daqueles tipos de livros no melhor estilo YA Books, só que nacional. Lembra aquelas histórias de mulheres decididas que embarcam em alguma viagem maluca para esquecer um desapontamento afetivo ou profissional e, no melhor estilo Sessão da Tarde, aprontam altas confusões. Depois de muitas situações absurdas e engraçadas, terminam em um momento de epifania, autoconhecimento ou qualquer outra coisa que “levante o astral”. O diário de viagem da jornalista gaúcha Mariana Kalil, publicado pela editora Dublinense, pode até ter muito disso. Contudo, ele não tem a pretensão de trazer importantes ensinamentos sobre a vida através de um romance água com açúcar. Mariana só quer mesmo contar como foi sua viagem, assim, de forma bem despretensiosa.

Não, a autora não passou por nenhuma decepção amorosa ou algo do gênero para partir para o Oriente Médio. Jornalista da Zero Hora, foi a convite do jornal que ela topou partir para o Egito, Jordânia e Israel com mais 35 pessoas para fazer uma peregrinação religiosa em 15 dias. Sem procurar paz, conhecimento, Deus, revelações sobre a vida ou outras questões que inquietam as pessoas. Era para ela simplesmente ir e relatar sua viagem na companhia dos peregrinos. Puro trabalho. Mas o Oriente Médio, com todas as suas peculiaridades – a cultura, os conflitos, etc. – não podia deixar de marcar Mariana, e os e-mails diários enviados para a família em Porto Alegre como desabafo da estranha viagem se transformaram no livro Peregrina de araque.

Antes de falar diretamente do livro De tudo fica um pouco, quero comentar duas coisas, ou fazer duas reflexões, o que quer que isso signifique. Primeiro já falando do livro de certa forma, ele é fruto de uma oficina literária ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC-RS. O professor é nome conhecido e acompanha muitos lançamentos de novos escritores da cena literária porto-alegrense, autores que passaram pela sua oficina de escrita criativa. Uns bons, outros nem tanto. Não sei exatamente o que pensar dessas oficinas, se elas são mais uma máquina de fazer escritores – contribuindo para a tal reclamação que corre por aí que possuímos mais autores do que leitores e por isso estamos em uma área já saturada cheia de “criação não criativa” –, um capricho de quem gosta de rabiscar algumas linhas para aperfeiçoar um pouco a linguagem ou uma ferramenta que realmente contribui para a formação do escritor. Minha opinião sobre isso é inexistente, no final das contas.

Outra coisa é relacionada à orelha do livro assinada pelo editor da Dublinense, Rodrigo Rosp, em que, além de apresentar o resultado da turma 41 da oficina literária, revela outra linha que agrupa todos esses contos neste livro: a inspiração. E é aí que o leitor descobre a origem do nome dessa coletânea: tudo o que vemos, ouvimos, comemos e consumismos deixa seu rastro. De tudo fica um pouco, e disso os alunos de Luiz Antonio de Assis Brasil tiraram a base para construir seus contos. Mas esse comentário é esquecido logo quando a leitura começa, pois nenhuma informação é dada ao leitor sobre essas fontes de inspiração. Isso aparece apenas nas últimas páginas, e aí se percebe a grande gama de referências que existe em seus contos: a própria literatura, a música, as artes em geral com suas pinturas, esculturas e composições.

Contos fantásticos que abordam temas recheados de seres sobrenaturais, como demônios e gárgulas, misturados com outros de ficção científica que se passam no espaço e em futuros distantes. É bom sair um pouco da realidade e seus dramas tão exaltados pela literatura contemporânea que conseguem, em sua maioria, representar bem esses aspectos surpreendentes que todos guardam. Não há problema em deixar isso tudo um pouco de lado e se embrenhar em fantasias mirabolantes, certo? Certo. E foi assim que li Conexões malignas, de Mário André Pacheco, mais um dos recentes lançamentos da editora Dublinense.

Na orelha escrita por Glee Bohanon (autora da trilogia Code word heaven, que desconheço), havia a promessa de contos inspirados no estilo de Isaac Asimov, autor que Pacheco admira, e também uma pitada de horror nos contos que trazem demônios como protagonistas ou o inferno como cenário. Motivador. O livro começa, então, justamente com um demônio, um coletor de almas que “burla” o sistema do inferno para corromper pessoas puras e trazê-las para o lado do mal. Com a ajuda de uma secretária bonitinha, ambos se fingem de humanos e sobem à Terra para mais um dia de trabalho, mas o receio de ser descoberto em suas trapaças toma conta da cabeça do demônio. E é já aí, no primeiro conto, que alguns problemas se apresentam.

Breve como sugere o título são os contos de Henrique Schneider no livro A vida é breve e passa ao lado, publicado pela editora Dublinense. Se o gênero crônica comporta a fantasia, assim eles poderiam ser classificados. Os textos de não mais que duas páginas escritas por Schneider trazem uma mistura de realidade e corriqueiro com a fantasia que dá características incomuns às suas personagens. São 44 contos que buscam falar das alegrias, dramas e tristezas que todos – ou quase todos – enfrentam na vida, e tudo em poucas linhas – uma exigência, certamente, do espaço que tem no jornal em que elas foram originalmente publicadas, o ABC Domingo que circula aqui na região do Vale do Sinos, no Rio Grande do Sul.

A maioria dos textos segue uma estrutura simples na apresentação de seus “conflitos”. O texto inteiro descreve as personagens, monta todo um cenário para as tramas que, no fim, tem o contexto alterado com uma única frase na última linha. Isso traz surpresa para o leitor, tira o conto do que seria mais uma história normal do cotidiano, arranca as personagens de um estado de conforto e abre portas para novos dramas que devem ser preenchidos pelo próprio leitor – é tarefa dele completar os espaços não narrados por Schneider e dar um verdadeiro fim a essas histórias.

Esses dias, em uma aula na faculdade, um professor falou que a morte, a nossa única certeza, é o que moveu a criação de lendas, mitos e histórias na tentativa de explicá-la – pelo menos é o que acho ter ouvido dele. Incontáveis histórias foram criadas para tratar do fim da vida, outras inúmeras trazem a própria como personagem, é inegável dizer que a morte alimenta a criatividade e o imaginário, pois ao mesmo tempo em que é um fato do qual não podemos fugir, é rodeada de dúvidas que nunca se esgotam, sempre são renovadas. Eni Allgayer, gaúcha autora de livros juvenis e ensaios históricos, apresenta em seu primeiro livro de contos a morte como ponto central. Em Ciranda negra, publicado pela Dublinense, se deparar com a morte é regra para todas as personagens.

Os contos de Eni são ambientados predominantemente na vida rural, do interior do Rio Grande do Sul, mas não deixam de falar também de áreas urbanas e sua relação com a morte, apresentada nesse livro das mais diversas formas. Eni começa dando ao leitor uma ideia das adversidades pelas quais suas personagens passam no conto “A maçã”, em que narra a alegria e satisfação com que uma criança come a fruta, fazendo a história parecer um inocente e feliz momento em sua vida infantil. Mas os bons sentimentos narrados pela autora escondem a podridão do local em que a menina está, surpreendendo com o final melancólico do curto conto. Esse primeiro texto também engana o leitor sobre o que mais Eni tem a contar, pois a morte não precisa ser necessariamente triste, perturbadora ou indesejada.

Ao terminar a leitura de O homem despedaçado, o próprio autor resume bem o que o leitor acabou de ver em seu livro de estreia: “Todos os contos apresentam formas de despedaçamento e não surpreende que, em alguns pedaços, eles se encontrem assim como, às vezes, lembrem outras histórias”. Essa explicação final que Gustavo Melo Czekster faz de sua própria obra apenas confirma as desconfianças do leitor de que seus contos funcionam em conjunto, se complementam e mostram olhares diferentes das situações absurdas e extraordinárias pelas quais passam suas personagens. Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de auto-conhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo.

Publicado pela editora gaúcha Dublinense, os contos trazem diversas personagens que vivem em variadas épocas, mas ainda assim parecem semelhantes em seus medos, angústias e na própria fantasia que as envolve. Teorias filosóficas as levam a se digladiar com paradoxos e invencionices inacreditáveis se tornam críveis nas palavras do escritor, como em “A gênese dos paradoxos brancos”, em que um grupo de “pensadores” descobre a parte mínima que individualiza os seres humanos. A descoberta daquilo que faria “Deus” enxergar a matriz de cada homem é tão perturbante que leva as personagens a temerem o próprio ato de pensar – como na frase de Pamela Anderson (sim!) que abre o texto: “Pensar demais me deixa assustada”.

Sensações e sonhos são os materiais principais para as poesias. Amor é o sentimento que muitos atribuem a ela como forma de representação, mas ainda há como falar de sofrimentos – sejam ligados ao romance ou não –, de expectativas e, porque não, do próprio cotidiano. Com temas que giram em torno da vida no campo e suas dificuldades, Valmor Bordin estrutura os textos de Poemas Famintos, livro publicado pela editora Dublinense. Filho de agricultores, Bordin trouxe para a poesia a vivência no interior e a fonte de sustento de sua família: o vinho. Esse sustento é o cerne dos poemas que versam sobre o cultivo, a colheita e a venda dos produtos da terra, mas não se contentam apenas a mostrar de forma rimada esse cotidiano. O campo, algumas vezes, é apenas uma alegoria para tratar de questões maiores sobre a vida.

Os versos de Bordin são breves. Os primeiros poemas, dedicados aos pais, retornam aos tempos de juventude do autor, em que o sucesso de uma colheita é garantia da sobrevivência da família, e os dias giram em torno da apreensão de se conseguir uma boa safra. O vinho, aqui, tem importância maior do que trazer dinheiro para a casa. Ele traz a vida para aqueles que dele dependem. Com esses versos, Bordin evoca as texturas e odores daquela época, lembrando os trejeitos dos pais em cada tarefa que faziam e a importância do trabalho de pessoas simples.

Na vida cultuamos o que é belo, aquilo que possa ser admirado, que seja agradável e tão interessante que é impossível desviar os olhos. Diz-se também que ignoramos o que é feio, ou nos esforçamos por deixar passar em branco aquilo que nos embrulha o estômago e que pode se fixar em nossa mente o bastante para nos tirar o sono. Mas há coisas que, mesmo desprovidas de beleza, são atraentes o bastante para que nosso olhar recaia sobre ela e a mente fique ocupada com esse interesse que está longe de ser perturbador. Ou até sejam, mas em doses menores que conseguimos digerir.

Delicadamente Feio, lançamento da editora Dublinense e estreia de Ricardo Silveira na literatura, pretende falar dessas pequenas coisas presentes em nosso cotidiano, mas ignorados por conta de sua feiúra. A intenção é mostrar personalidades e ações que estão longe de serem belas, sejam elas físicas, como o rosto de uma pessoa, ou morais, alguma atitude pouco louvável. Ricardo Silveira é mais um dos autores da safra de oficinas literárias ministradas por Charles Kiefer, e assim como outros que exercitam sua escrita, seu primeiro livro contém os textos ali trabalhados. Mas isso não significa que sejam excelentes por terem a aprovação do professor.

“O daimon, para os antigos gregos, é tanto a natureza externa quanto a interna”, diz a contra capa de Daimon Junto à Porta, livro de contos de Nelson Rego. Como diz Charles Kiefer em sua orelha, daimon foi convertido a daemon, que em latim significa “demônio”. Mas o lançamento da editora Dublinense não traz histórias de demônios – só uma, pelo menos – ou coloca o diabo parado na frente de várias portas esperando levar almas para o inferno. Daimon, aqui, é a inspiração artística, uma força que existe no artista que a recebe e a transforma em texto.

Mas esse também não é o tema central desse livro. Nelson Rego traz histórias que oscilam entre o inocente e o sexual, com narradores que aos poucos também se revelam protagonistas. Esse confronto que traz sensualidade aparece logo no primeiro conto, “Platero e o Mar”, cujo narrador fala de Inocência, uma de suas amigas com quem passa uma temporada no litoral. Inocência, uma jovem adulta, é o sonho de um grupo de garotos pré-adolescentes, e seu amigo conta como ela gradualmente é seduzida por essas “inocentes” crianças. O mesmo narrador encerra o livro com “Um pedacinho do tempo diante dos olhos”, onde ele e suas amigas voltam ao livro, dessa vez como pessoas registradas pelas lentes de uma fotógrafa que todos os dias busca eternizar segundos em sequências. Ambos os textos prendem a leitura pelo cuidado na escolha das palavras, mas o último não tem a mesma atração exercida pelo primeiro.