Dias comuns viram literatura com personagens que se perdem em reflexões sobre o que rodeia suas vidas. Identificadas ou não, essas pessoas falam de suas dúvidas, dores e angústias pelas palavras da escritora gaúcha Daniela Langer em No inferno é sempre assim e outras histórias longe do céu, coletânea de contos publicada recentemente pela editora Dublinense. As histórias falam de pessoas normais com que topamos todos os dias pelas ruas, mas para as quais damos pouca atenção.

Dividindo o livro em duas partes – Histórias longe do céu e No inferno é sempre assim –, Daniela pega personagens comuns e deles tira angústias e expectativas que ocupam suas vidas. Acontecimentos que podem durar poucos segundos são transformados em minutos ou horas pela autora. Ela intensifica o detalhe, metaforiza e adjetiva pequenas ações, seja o voar de uma mosca, o suor escorrendo pelas costas, o beber de um copo de cerveja bem gelada ou o estirar-se na areia da praia. Nenhuma ação passa despercebida pelo texto de Daniela, que com suas palavras consegue remeter o leitor a sensações que já vivenciou.

A capa em braile já convida para a leitura, mexe com o lado sensorial do leitor. Claudia Schroeder fala de toque, amor, sexo e paixão eu seus curtos poemas publicados pela editoraDublinense no livro Leia-me Toda. Vencedora de vários concursos de poesia em 2010 e também do Prêmio Off-Flip de Literatura, Claudia coloca sensualidade e desejo nos pequenos versos que contabilizam 80 páginas do livro. Mas muitos dos poemas deixam a desejar pela superficialidade, no entanto pode-se encontrar alguns que vão além do simples jogo de linguagem.

Não existe tarefa mais comum que o ser humano faz do que trabalhar. É algo necessário pra conseguir dinheiro para conseguir “sobreviver”. Esse mundo do trabalho é o tema do livro Contos da Mais-Valia & Outras Taxas, de Paulo Tedesco, publicado pela editora Dublinense. O leitor encontra nele personagens com que cruza todos os dias pela rua, ou então retratos de si mesmos. Dos cargos de altos escalões aos pequenos promotores de venda, os contos de Tedesco englobam as mais comuns intrigas profissionais e frustrações pelas quais passam todos os que enfrentam a vida no mercado de trabalho.

Solidão e abandono estão presentes em muitos aspectos da vida. No amor, na amizade, nas relações familiares e profissionais. São sentidos por humanos, animais, destino de objetos descartados. A melancolia que envolve esse sentimento e essa ação é explorada pelo médico gaúcho J. H. Bragatti eu sua estreia literária com o livro Ponto Final, uma reunião de seus contos que buscam especificamente trazer à tona personagens que vivem esse sofrimento. Os textos curtos e bem escritos publicados pela editora Dublinense trazem diferentes situações e pessoas que querem sair desse estado triste que a solidão sugere.

O que menos gosto na poesia geralmente é a rima. Considero que às vezes o poeta se preocupa mais em fazer as palavras combinarem do que fazer a poesia ter algum sentido. Odeio não entender o que está escrito, ou então tirar do texto tão pouca coisa que não me incentiva a tentar pensar sobre ela. Menino Perplexo, de Israel Mendes, reúne poemas que geralmente trabalham a rima. Mas felizmente, seus poemas não só possuem sentido claro como contam de forma simples curtas histórias. Nele, o poeta brinca com a língua portuguesa e com o próprio espaço físico do livro.

Entre textos curtos com histórias de duração breve, porém não simples, Saul Melo preenche o livro Entre Sombras, um dos últimos lançamentos da gaúcha Dublinense. Como o título sugere, as tramas criadas pelo autor acontecem entre momentos sombrios, narrados por personagens ocultos em grande parte, falando não justamente de um momento específico de suas vidas, mas principalmente filosofando sobre elas. Saul Melo cria histórias que, não importa o contexto, sempre estarão submetidas à melancolia.

Juremir Machado da Silva diz que Gustavo Machado pode entrar na lista dos grandes jovens escritores gaúchos. O que, segundo ele, talvez possa não acontecer, por conta da sorte similar a de Mick Jagger que o jornalista possui. Mas eu digo que sim, Machado pode estar nessa lista. Não que eu tenha alguma autoridade para afirmar isso, mas seu primeiro livro foi um belo começo. Sob o Céu de Agosto, lançado semana passada pela editora Dublinense, é uma daquelas histórias raras capazes de prender o leitor por um dia inteiro, e que o simpatiza com uma personagem que tem mais defeitos do que virtudes.

Podolatria. Dentre tantas as taras que o homem tem, foi essa a escolhida por Carina Luft para compor seu romance policial, Fetiche. Assim como Ana Cristina Klein, Carina integra a oficina literária de Charles Kiefer, em Porto Alegre, e isso já é um ponto que causa certa curiosidade quanto a seu livro. Mas o enredo também chama a atenção: uma série de assassinatos em uma pequena cidade gaúcha onde as vítimas tem seus pés cortados. Um thriller, aquela velha caçada ao assassino, onde uma dupla de investigadores trabalha contra o tempo para solucionar o caso. São várias as expectativas quanto ao primeiro livro de Carina, mas nenhuma delas foi superada.

O que esperar de um livro de poesias chamado Cor de Maravilha, de autoria de uma mulher, cuja capa usa tons claros que remetem a coisas bonitas? Certamente, espera-se por versos repletos de sentimentos apaixonados, que falam de amor, amizade, e outras coisas alegres e melosas. Porém, não é isso que a gaúcha Maria Joaquina Carbunck Schissi dá aos leitores do novo lançamento da editora Dublinense. Cor de Maravilha aborda sentimentos contrários a tudo aquilo que se espera da poesia.

O bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, abriga não só os ricaços da capital gaúcha. Ele esconde os segredos e desejos daqueles que se julgam a alta classe da sociedade, mas que são tão baixos quanto a “plebe” que tanto abominam. Em Moinhos de Sangue, Ana Cristina Klein mostra que não há perfeição em morar em um apartamento de luxo nos bairros nobres de Porto Alegre ou participar de suas grandes recepções. Por mais glamour que esse livro possa ter, o que o leitor encontra são crimes e preconceitos retratados com muito humor.