Vocês devem ter percebido que as leituras de não ficção andam frequentes por aqui. Ando dando mais atenção a elas, seja por me interessar pelo assunto ou por querer conhecer mais sobre algo específico. Falso espelho (Todavia, tradução de Carol Bensimon) é um desses livros que mais aguardei a leitura. Jia Tolentino apresenta uma série de ensaios que refletem sobre a autoimagem, a internet, o discurso e tudo o que envolve nos expor e consumir conteúdos online. Além disso, traz boas questões sobre como enxergamos as mulheres nessas e em outras plataformas – como a literatura.

Empregar um olhar inusitado sobre um determinado fato é o que todo jornalista sonha ao redigir uma matéria ou reportagem. Em anos de profissão, e com uma concorrência grande com outros jornalistas, articulistas e escritores, o maior pecado é cair no clichê, ou parecer pouco interessante. Não é fácil ter a “sacadinha genial” que vai fazer crescer a curiosidade do leitor logo no primeiro parágrafo e impulsioná-lo a ler o resto do texto. É por causa dessas abordagens pouco usuais que acabo lendo reportagens sobre um cuidador de cobras, um presidente de um país qualquer, a vida de pessoas de uma comunidade no meio do nada ou como funciona um banheiro químico. Não basta saber apurar ou escrever, tem que saber como tornar um fato realmente interessante, por mais que ele já seja, e dar a ele uma leitura nova.

Ler Pulphead: O outro lado da América foi ter uma aulinha de como escrever de um jeito fora do comum. John Jeremiah Sullivan já é considerado um dos principais ensaístas em atividade nos Estados Unidos, sendo comparado à Tom Wolfe e David Foster Wallace, como a quarta-capa da edição da Companhia das Letras afirma. A apresentação escrita pelo crítico James Wood também só aumentou a curiosidade de lê-lo – que havia surgido através de recomendações e pela participação de Sullivan na Flip de 2013. No primeiro ensaio deste volume, pude comprovar essa característica que me fez gostar do autor.

David Foster Wallace não era um completo estranho para mim quando comecei a ler seu segundo livro publicado aqui no Brasil, uma coletânea de ensaios reunidos por Daniel Galera com tradução sua e de Daniel Pellizzari, que tem o curioso nome de Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudoO escritor, que se matou em 2008, já tinha uma certa fama entre todos os meus amigos dessa vidinha literária, então era como se eu já o conhecesse mesmo sem ter lido. Mas, na verdade, havia feito algum contato com a obra dele: Pense na lagosta, um dos ensaios que compõem esse volume que foi publicado na edição de setembro do ano passado na piauíIsto é água, texto também presente nesse livro e que pipoca eventualmente pela internet, e Para sempre em cima, trecho do primeiro livro publicado em terras brasileiras, Breve entrevistas com homens hediondosdisponibilizado no site da Companhia das Letras.

Ana Maria Machado nem havia trabalhado com crianças ou tido qualquer experiência parecida quando começou a escrever histórias infantis para a Revista Recreio em 1969. Assim como outros escritores que começaram a escrever para esse público na mesma revista e, como ela, nunca mais pararam de dedicar suas histórias às crianças. Agora, Ana Maria Machado é uma das principais autoras infantis do país, com mais de 100 livros publicados, além de romances e outros títulos voltados para o público adulto. Mas mesmo sem esse contato mais acadêmico com crianças, a autora é um dos primeiros nomes pensados quando o assunto é o incentivo da leitura e a importância da prática para o desenvolvimento pessoal e social.

Em Silenciosa algazarra: reflexões sobre livros e práticas de leitura, lançado recentemente pela Companhia das Letras, a autora reúne seus ensaios e palestras em que traz boas ideias e críticas sobre o incentivo da leitura a importância da literatura infantil e juvenil. Sua fala baseia-se principalmente em suas experiências como autora e leitora, e o livro trata tanto da tarefa de formar leitores até divulgar a literatura infantil brasileira no mercado internacional. E para abrir esses textos, nada melhor do que trazer justamente um que fala da importância da literatura para a sociedade. Ana Maria Machado traz vários argumentos para falar do papel da literatura na formação humana, em que sua leitura é uma ferramenta que nos torna críticos, melhora nosso vocabulário, nos faz conhecer novas culturas e principalmente nos ensina a aceitar a diversidade.

No meio literário, uma das discussões em maior evidência é sobre o que acontecerá com o livro. Nunca se produziu e vendeu tanto, e ainda entram no mercado novas tecnologias de leitura que prometem mudar o cenário literário. Aqui no Brasil, o mercado editorial baseado na digitalização ainda está engatinhando, mas nos Estados Unidos esse é um tema discutido há muito tempo, e os números só apontam para o crescimento do consumo de e-books e e-readers. A Questão dos Livros (Companhia das Letras), do historiador Robert Darnton, faz justamente essas reflexões, mas por um olhar acadêmico. Nessa reunião de ensaios e artigos, o autor fala de questões relacionadas ao presente, passado e futuro do livro e, principalmente, das digitalizações de obras promovidas pelo Google.

Poeta e editor da Revista Confraria, Márcio-André fez uma viagem no mínimo estranha em 2007. Aproveitando uma ida à Europa, cismou em visitar Pripyat, na Ucrânia, cidade atingida pelo desastre nuclear de Chernobyl ocorrido em 1986. Em meio aos prédios e casas abandonadas e exposto à intensa radiação, Márcio-André realizou a primeira Conferência poético-radioativa de Pripyat. A sua performance, com leituras de poemas próprios e de outros nomes renomados, lhe rendeu o título de poeta radioativo. Ensaios Radioativos, então, é um livro sobre ele, aquele que trouxe ao país um pouquinho da energia nuclear da Ucrânia.