Faltam poucos dias para 2014 acabar (poderia colocar o número de dias aqui, mas sou tão ruim com números que poderia errar esse cálculo fácil, então vamos usar o “poucos dias” mesmo), e esse foi um ano bom profissionalmente, pessoalmente, mas fraquíssimo na minha intensidade de leitura – provavelmente por estar tão ocupada com as coisas fora dos livros, né – e também por usar o tempo no ônibus para dormir mais.

Mas vamos lá: foram 27 livros lidos ao todo (sim, só isso), e há ainda quatro em processo de leitura – Graça infinitaque está maravilhoso, O demônio do meio-dia, que interrompi justamente por causa do Graça, mas que também estava ótimo, A balada de Adam Henry, a atual leitura de ônibus (pois né, difícil carregar DFW por aí), e Oblómovque já vou até considerar aqui como “abandonado” porque sei que vou levar eras até pegar ele de novo – tiro da conta o Dom Quixote marcado como “lendo” no Goodreads porque li o primeiro volume no ano retrasado e falta só o segundo, hehe.

A terra neste lugar já foi próspera, mas não se pode dizer o mesmo nos dias de hoje. Plantação nunca vingou muito, só para o sustento. Criação ninguém nunca teve muita para dela tirar lucro. A riqueza que havia ali vinha das pedras, do garimpo de diamantes que levou até lá homens em busca de riqueza, e que caíram nas mãos controladoras de um coronel capaz de confiscar as próprias ferramentas de trabalho como pagamento de dívidas que ele forçou seus homens a adquirir. Hoje eles continuam a trabalhar com menos afinco que antes, mas com esperança e desespero maior, movidos pela fome em busca da última pedra.

Em Tempo de espalhar pedras, Estevão Azevedo acompanha a vida de quatro personagens nessa terra sem nome: Ximena, filha de um dos garimpeiros mais velhos, se engraça com Rodrigo, este caçula de garimpeiro rival, Diogo. Ainda há Joca, seu irmão, que busca uma forma de mostrar seu valor, se não para a família que seja para Bezerra, amigo que o acolhe na busca pela pedra em local escondido das fuças do coronel. E, por fim, Silvério, o carola que reza enquanto, alucinando de fraqueza e fome, procura convicto a pedra que se esconde quiçá debaixo da própria casa.

No mundo da literatura, acompanhamos diversos tipos de pessoas de lugares distantes e inimagináveis, e que geralmente existem apenas na ficção. No máximo, inspiram-se em algum nome notório, uma técnica que estimula ainda mais a fantasia do leitor. Mas e se uma personagem de um livro qualquer realmente existisse? Não no sentido de ser parecido com ela, mas de ser ela mesmo? E se essa personagem descobrir que toda sua vida foi escrita, guiada por uma linha de texto? Provavelmente, a concepção de que todos são livres e donos do seu próprio destino cairia por terra.