“Não é magia, é tecnologia”. A propaganda da famigerada Tekpix é um bom exemplo de que magia e tecnologia não andam juntas. Uma é totalmente subjetiva, baseada em crenças nunca comprovadas. A outra é pura exatidão, real, palpável. Não tem como as duas coisas andarem de mãos dadas. Uma recusa a outra: a magia não aprova o progresso que a tecnologia traz, que destrói recursos naturais e deixa as pessoas mais próximas das máquinas, e não da natureza; a tecnologia não aceita a magia, uma invenção para pegar trouxa, pseudociência, coisa de gente doida.

Charlie Jane Anders quer aproximar esses dois “inimigos” em Todos os pássaros no céu (Morro Branco, tradução de Petê Rissatti), vencedor do Nebula Awards, um dos principais prêmios da ficção científica, e finalista do Hugo Awards. O livro acompanha a vida de dois jovens, Patricia e Laurence, que são completamente opostos. Mas seus destinos estão fortemente ligados.

Nos idos de 1750, o Brasil era um território divido entre portugueses e espanhóis. Nas terras gaúchas, jesuítas catequizavam e auxiliavam os índios guaranis, que eram mortos aos montes pelos soldados portugueses e espanhóis durante disputas pelo território. A ciência ainda estava engatinhando, ser esclarecido era ser excêntrico, muitos livros eram proibidos e, no caso dos brasileiros, tinham que ser importados pois não era permitido imprimir uma folha sequer no Brasil (pensamento paralelo: engraçado pensar que ainda hoje reclamam do acesso aos livros – preço e oferta – quando eles pululam por aí. Se bem que, em alguns locais, realmente é complicado). Pouco sei sobre esse Brasil, não li muitas histórias sobre ele, ou elas nunca me pareceram muito interessantes a princípio. Felizmente, o novo livro de Samir Machado de Machado superou a barreira do desinteresse e me presenteou com quatro ótimas histórias ambientadas nessa terra cheia de conflitos, com muitas aventuras e exaltação da leitura e dos livros.

Quando falamos de Jorge Luis Borges, lembramos principalmente do realismo fantástico e de suas contribuições para a literatura. Um dos autores latino-americanos mais conhecidos e aclamados é nome obrigatório em qualquer lista digna de leitura – e por isso mesmo já faz tempo que quis incluí-lo na minha. Mas além da produção literária, sabemos que o escritor, falecido em 1986, era um grande estudioso da literatura e línguas anglo-saxãs – aprendeu inglês com sua avó e daí vieram suas primeiras leituras. A literatura clássica, lendas e histórias vindas da Europa eram seu material de estudo, e é claro que seu trabalho como estudioso também está disponível para quem quiser ler. Como O livro dos seres imaginários, em que Borges enumera um grande número de criaturas mágicas que figuram nas mais variadas histórias contadas através dos tempos.

Escrito com a colaboração de Margarita Guerrero, esse compêndio reúne 116 criaturas – não necessariamente animais, como a palavra nos sugere – vindos tanto da literatura quanto de lendas, mitos e religiões. São seres estranhos criados pela mente fantasiosa do homem, e Borges pesquisa nas mais antigas fontes para tentar resgatar suas origens e diversas descrições. Organizados em verbetes breves, Borges usa as palavras de suas próprias fontes para, por vezes, descrevê-los. Assim, apresenta essas criaturas fantásticas através de C. S. Lewis, Franz Kafka, Edgar Allan Poe, resgata escritos de Shakespeare, Homero, Virgílio, conta-nos histórias de Confúcio e Plínio. O livro, então, não é apenas uma lista com descrições simples desses seres imaginários, mas uma reunião de grandes autores e histórias unidos por essas criaturas.

Gerard, Oludara, Sjala e Tajarê: quatro personagens de origens diversas criadas também por autores diferentes. Os dois primeiros, um holandês e outro africano, são de Christopher Kastensmidt, autor norte-americano que adotou o Brasil como morada. Os dois últimos, uma viking e um índio, de Roberto de Sousa Causo, esse sim brasileiro. Essas quatro personagens já apareceram antes, até concorreram a prêmios – no caso de “O encontro fortuito de Gerard von Oost e Oludara” e estão de volta em Duplo Fantasia Heroica 2. O primeiro volume que reuniu as séries fantásticas de Kastensmidt e Causo foi lançado pela Devir no ano passado e cumpriu com o objetivo de trazer boas histórias fantásticas ambientadas no Brasil. E com essa segunda edição não é diferente.

Seguindo a ordem do volume um, a primeira noveleta é “A batalha temerária contra o Capelobo”, dando seguimento à série A bandeira do elefante e da arara criada por Kastensmidt. Se em Dupla Fantasia Heroica o autor relatou o encontro que firmou a parceria entre o ex-escravo e o explorador holandês – narrando parte da história na terra natal de Oludara –, aqui ele e Gerard estão muito mais inseridos no folclore brasileiro. Depois de conseguirem autorização para explorarem as matas daqui, a bandeira de apenas dois homens encontra uma grande dificuldade: a ignorância quanto às características do país. Amedrontados diante de um inofensivo tatu, a dupla, depois de um sopro de inspiração do Saci-Pererê, decide ir aprender mais sobre a cultura, fauna e flora brasileira com os índios tupinambás. Mas eles não são assim tão amigáveis, e para conseguir ter acesso aos segredos indígenas, Gerard e Oludara recebem uma missão: se bem cumprida, farão parte da tribo.

Quando vem a tona o assunto fantasia, os livros citados desse gênero são predominantemente estrangeiros. Todos lembram do maravilhoso mundo tolkeriano, seus monstros e magias, ou de grandes romances que misturam história às lendas nórdicas, gregas ou egípcias, de civilizações extintas, antigas ou lendárias. São temas que mexem com o imaginário e são recorrentes na fantasia. Porém, não vemos que a própria cultura brasileira e suas misteriosas matas podem ser ótimos cenários para histórias igualmente mágicas. O livro Duplo Fantasia Heroica, um projeto publicado pela Devir, mostra que o Brasil é sim um ótimo lugar para ambientar fantasias repletas de encantos, tormentos, monstros e mistérios.

Dezoito anos depois de Haroun viajar até a segunda lua (invisível) da Terra, onde havia um Mar de Histórias que terminava no Lago da Sabedoria, de onde canos (também invisíveis) levavam a água mágica para os contadores de histórias, surge uma nova aventura. Mas dessa vez não é Haroun quem protagoniza a nova viagem. Nessa história, ele já é grande demais para isso, e o heroi da vez é seu irmão mais novo, Luka. Vemos o já então conhecido Xá do Blá-Blá-Blá, o contador de histórias Rashid Kahlifa, pai dos garotos, mais uma vez em risco.

Se há na literatura tantas boas histórias que figuram no meio fantástico, por que não contar uma que fale justamente de onde vem essas histórias? Qual a origem da inspiração para que autores e trovadores inventem casos tão interessantes para ler e ouvir? Pode-se tratar apenas de uma imaginação aguçada, ou talvez de uma segunda lua que gira em velocidade descomunal em volta da Terra, abastecendo-a com a água do Mar de Histórias, de onde vem todos os contos do mundo.

Quem não conhece Mogli, o garoto criado por animais no meio de uma selva? Neil Gaiman não esconde qual foi sua inspiração para escrever O Livro do Cemitério. O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, foi a base para esse romance infantojuvenil, então não estranhe a semelhança. Esse é o último lançamento do autor inglês aqui no Brasil pela editora Rocco no selo Jovens Leitores, que traz uma história tocante e inteligente recomendada para homens e mulheres, jovens e adultos, vivos e mortos.

Há seis mil anos, mais precisamente no dia 21 de outubro, Deus criou o mundo. Fez os animais, as plantas, céu, oceanos, essas coisas todas. Fez um paraíso e nele pôs um homem. Depois uma mulher. Para guardar os portões do Éden, escalou um anjo com uma espada flamejante. Mas isso não impediu que um outro anjo rastejasse do céu até a Terra. Então ele se transformou em um demônio. Ou melhor, numa cobra. A partir daí, anjo e demônio, ou Aziraphale e Crowley, conviveram até o fim dos tempos. Eram inimigos tão próximos que poderiam ser considerados amigos.

Joana D’Arc, o coelho branco de Alice no País das Maravilhas, guerras nucleares. Assuntos assim só podem estar reunidos em uma compilação de contos. E eles estão em Anacrônicas: Pequenos Contos Mágicos, de Ana Cristina Rodrigues. Em textos curtos e deliciosos, a autora nos transporta para diversos mundos onde o fantástico toma conta. Passado, futuro e clássica ficção são base para montar suas histórias mágicas.