Há um certo perigo na literatura experimental, que é o leitor não entender direito qual é a intenção do autor. Por que a estrutura desse livro é assim? O que esse capítulo tem a ver com o anterior – e com o próximo? Por que tantas personagens e histórias paralelas? Eu só queria ler uma boa história, mas já estou na página 100 e ainda não entendi qual é a desse livro… Quando me perguntavam o que eu estava achando de Nocilla dream, primeiro livro da trilogia de Agustín Fernández Mallo, era essa a minha resposta: “não entendi qual é a vibe do livro ainda”.

Mas você não precisa saber resumir o enredo de um livro em 140 caracteres para que ele seja bom. É só deixar se levar capítulo a capítulo até a última página para reconhecer o potencial da narrativa e tentar elaborar algumas interpretações e explicações. Pois é melhor, então, falar daquilo que me pareceu mais importante na obra de Mallo: o álamo no meio do deserto de Nevada. Nesse deserto, todos os álamos pereceram, mas restou apenas um, perdido no nada, e carregado de pares de sapatos presos em seus galhos pelos cadarços. Botas, tênis, sandálias, são centenas de pares que, apesar de ocuparem todos os cantos da árvore, não a danificam. Ela segue viva.