Nos idos de 1750, o Brasil era um território divido entre portugueses e espanhóis. Nas terras gaúchas, jesuítas catequizavam e auxiliavam os índios guaranis, que eram mortos aos montes pelos soldados portugueses e espanhóis durante disputas pelo território. A ciência ainda estava engatinhando, ser esclarecido era ser excêntrico, muitos livros eram proibidos e, no caso dos brasileiros, tinham que ser importados pois não era permitido imprimir uma folha sequer no Brasil (pensamento paralelo: engraçado pensar que ainda hoje reclamam do acesso aos livros – preço e oferta – quando eles pululam por aí. Se bem que, em alguns locais, realmente é complicado). Pouco sei sobre esse Brasil, não li muitas histórias sobre ele, ou elas nunca me pareceram muito interessantes a princípio. Felizmente, o novo livro de Samir Machado de Machado superou a barreira do desinteresse e me presenteou com quatro ótimas histórias ambientadas nessa terra cheia de conflitos, com muitas aventuras e exaltação da leitura e dos livros.

Em todo ano, por umas três ou quatro vezes, algum livro se transforma na coqueluche editorial. O sucesso, nacional ou internacional se espalha tanto que 8 em cada 10 leitores vão querer ler para confirmar o alvoroço em torno do livro, ter argumentos contrários, matar a curiosidade, ver “qual é” a desse autor – os outros dois leitores não leem simplesmente porque o livro está muito mainstream e preferem não entrar nessa discussão da maioria, nem para falar bem, nem para falar mal. Em 2010, isso aconteceu com Liberdade, do norte-americano Jonathan Franzen. Um romance tão aclamado que a editora que o publica no Brasil, a Companhia das Letras, procurou lançá-lo o mais rápido possível. Considerado o livro do século – isso porque estávamos apenas na primeira década dos anos 2000 –, uma obra tão boa que até a Ophra, que estava meio “brigada” com o escritor, voltou a considerá-lo. Enfim, Jonathan Franzen virou celebridade por conta de Liberdade.

Gerard, Oludara, Sjala e Tajarê: quatro personagens de origens diversas criadas também por autores diferentes. Os dois primeiros, um holandês e outro africano, são de Christopher Kastensmidt, autor norte-americano que adotou o Brasil como morada. Os dois últimos, uma viking e um índio, de Roberto de Sousa Causo, esse sim brasileiro. Essas quatro personagens já apareceram antes, até concorreram a prêmios – no caso de “O encontro fortuito de Gerard von Oost e Oludara” e estão de volta em Duplo Fantasia Heroica 2. O primeiro volume que reuniu as séries fantásticas de Kastensmidt e Causo foi lançado pela Devir no ano passado e cumpriu com o objetivo de trazer boas histórias fantásticas ambientadas no Brasil. E com essa segunda edição não é diferente.

Seguindo a ordem do volume um, a primeira noveleta é “A batalha temerária contra o Capelobo”, dando seguimento à série A bandeira do elefante e da arara criada por Kastensmidt. Se em Dupla Fantasia Heroica o autor relatou o encontro que firmou a parceria entre o ex-escravo e o explorador holandês – narrando parte da história na terra natal de Oludara –, aqui ele e Gerard estão muito mais inseridos no folclore brasileiro. Depois de conseguirem autorização para explorarem as matas daqui, a bandeira de apenas dois homens encontra uma grande dificuldade: a ignorância quanto às características do país. Amedrontados diante de um inofensivo tatu, a dupla, depois de um sopro de inspiração do Saci-Pererê, decide ir aprender mais sobre a cultura, fauna e flora brasileira com os índios tupinambás. Mas eles não são assim tão amigáveis, e para conseguir ter acesso aos segredos indígenas, Gerard e Oludara recebem uma missão: se bem cumprida, farão parte da tribo.

Há seis mil anos, mais precisamente no dia 21 de outubro, Deus criou o mundo. Fez os animais, as plantas, céu, oceanos, essas coisas todas. Fez um paraíso e nele pôs um homem. Depois uma mulher. Para guardar os portões do Éden, escalou um anjo com uma espada flamejante. Mas isso não impediu que um outro anjo rastejasse do céu até a Terra. Então ele se transformou em um demônio. Ou melhor, numa cobra. A partir daí, anjo e demônio, ou Aziraphale e Crowley, conviveram até o fim dos tempos. Eram inimigos tão próximos que poderiam ser considerados amigos.