“Faltava pouco para as oito da manhã quando o conselheiro titular Yákov Pietróvitch Golyádkin despertou de um longo sono, bocejou, espreguiçou-se e por fim abriu inteiramente os olhos. Aliás, ficou uns dois minutos deitado em sua cama, imóvel, como alguém que ainda não sabe direito se acordou ou continua dormindo, se tudo o que está acontecendo é de fato real ou uma continuação de seus desordenados devaneios.”

Em 1859, quando retorna a São Petersburgo após ficar quatro anos preso na Sibéria, Fiódor Dostoiévski começa a idealizar seu próximo romance: Humilhados e ofendidos (Editora 34, tradução de Fátima Bianchi). O título certamente ilustra bem o que ele passou em seus dias de prisioneiro, mas aqui ele retrata o povo. Diariamente ofendidos em seus direitos, humilhados pelas circunstâncias da vida, as personagens do romance são uma reunião de pessoas pisoteadas pela sociedade, por mais trabalhadores e honestos que sejam.

Fiódor Dostoiévski é nome conhecido entre qualquer um que goste de literatura, incluindo aqueles que nem o leram ainda. Ele é exaltado pelos clássicos Irmãos Karamazov, Crime e Castigo e outras obras que se aprofundam na mente de suas personagens atormentadas. Pela qualidade literária, foi um dos principais escritores russos do século XIX, e assim segue sendo aclamado. Da mesma forma que sua obra foi intensamente estudada, sua vida também foi esmiuçada pelos biógrafos, dentre os principais a sua segunda esposa, Anna Grigorevna. Os que se interessam pela vida e, consequentemente, pela obra do autor, podem ter também contato com seu cotidiano através de suas cartas em Dostoiévski: Correspondências 1838 – 1880, cuja segunda edição da tradução brasileira saiu pela editora 8Inverso.

Traduzidas por Robertson Frizero, a edição é baseada na tradução para o inglês que Ethel Colburn Mayne fez das cartas, mas inclui outras que ficaram de fora dessa seleção feita por Tchechichin em 1912. Destinadas para amigos, familiares, escritores, críticos e até para Aleksandr II, Dostoiévski expõe seu processo de escrita, seus problemas financeiros e opiniões sobre a política e literatura de sua época. Apesar desse conteúdo bem reunido, o leitor sentirá falta de alguns trechos que foram omitidos na versão original por “não interessarem ao leitor”, segundo diz Frizero no prefácio do livro. A maior parte das cartas possui esses cortes que são explicados em notas de rodapé, constantes na edição para esclarecer o leitor sobre escritores, acontecimentos e lugares citados por Dostoiévski. Muitos desses cortes se tratam de questionamentos do autor sobre amigos em comum com seu destinatário, ou então discussões sobre projetos de traduções e publicações de revistas e jornais. Ao ler essas notas, o leitor sente que perdeu parte do texto, pois lhe interessaria sim ter acesso a essas outras informações.

O que leva uma pessoa a cometer um crime? Pobreza, situação social, vontade, superioridade, ganância? E qual é a conseqüência desse crime? Podemos listar diversos casos onde o criminoso era um psicótico que não conseguia parar de matar ou um pai de família, tentando conseguir comida para os filhos. E as conseqüências podem ser prisão, morte, ou até liberdade sem nenhuma suspeita. Dependendo do caso, tudo ou nada pode acontecer. A reflexão sobre o que leva alguém a cometer um crime e o que acontece com essa pessoa é o que Fiodor Dostoiévski faz em um de seus mais famosos romances, Crime e Castigo.