Ao terminar a leitura de O homem despedaçado, o próprio autor resume bem o que o leitor acabou de ver em seu livro de estreia: “Todos os contos apresentam formas de despedaçamento e não surpreende que, em alguns pedaços, eles se encontrem assim como, às vezes, lembrem outras histórias”. Essa explicação final que Gustavo Melo Czekster faz de sua própria obra apenas confirma as desconfianças do leitor de que seus contos funcionam em conjunto, se complementam e mostram olhares diferentes das situações absurdas e extraordinárias pelas quais passam suas personagens. Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de auto-conhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo.

Publicado pela editora gaúcha Dublinense, os contos trazem diversas personagens que vivem em variadas épocas, mas ainda assim parecem semelhantes em seus medos, angústias e na própria fantasia que as envolve. Teorias filosóficas as levam a se digladiar com paradoxos e invencionices inacreditáveis se tornam críveis nas palavras do escritor, como em “A gênese dos paradoxos brancos”, em que um grupo de “pensadores” descobre a parte mínima que individualiza os seres humanos. A descoberta daquilo que faria “Deus” enxergar a matriz de cada homem é tão perturbante que leva as personagens a temerem o próprio ato de pensar – como na frase de Pamela Anderson (sim!) que abre o texto: “Pensar demais me deixa assustada”.