habitante-irrealVai ser difícil tentar definir como essa história passou da desilusão com a política e a vida estudantil para, no fim, o resgate das origens indígenas do Brasil. Habitante irreal, romance de Paulo Scott publicado pelo selo Alfaguara, parece se transformar em um livro totalmente diferente do que é em suas primeiras páginas, mesmo mantendo a sua estrutura do início ao fim, com o mesmo tom. Com uma transição sutil da história de uma personagem a outra, quase como uma metamorfose do texto, algo que reconhecemos como familiar – a narração, os cenários – se apresenta totalmente novo conforme os capítulos e o tempo passam.

Paulo – um dos protagonistas, não o autor – é um estudante de direito de Porto Alegre, militante do PT que estagia em uma banca de advogados. Essa história começa em 1989, sendo narrada em uma grande nota de rodapé, recurso que Scott repete em outros momentos do livro. Voltando de um congresso do partido realizado em Pelotas, Paulo nota a total perda de interesse pelo seu estágio, a vida de estudante e, principalmente, pelas atividades do partido que se prepara para lançar Lula nas eleições para a presidência do país. Dirigindo de volta para Porto Alegre, na beira da BR-116 – ou cento e dezesseis, como o autor prefere escrever, sempre por extenso –, ele encontra Maína: uma jovem índia de 14 anos, quase 15, que mora à beira da estrada com sua avó e duas irmãs, agarrada a velhos jornais e revistas debaixo da chuva. E Paulo a resgata, ou melhor, inicia o declínio da vida da moça.