Só porque as listas de bons livros lidos nos anos anteriores sumiram do blog – aquele problema lá que me obrigou a passar horas subindo todas as resenhas novamente -, e porque estou com vontade de fazer uma lista, aqui vai o meu top 16 de melhores leituras do ano. Queria que fosse um top 5, ou no máximo um top 10, mas revendo a lista de livros lidos de 2013 vi que seria impossível fazer uma seleção mais enxuta.

Foi um ano de bons livros, apesar de ter lido menos que o esperado por ter que me dedicar mais ao final do curso de jornalismo e usar boa parte do meu tempo de leitura para isso – aos curiosos, podem me considerar formada. Talvez se eu ainda estivesse no meu ritmo antigo de leitura essa lista fosse maior. Talvez. Mas estou satisfeita com o que li, e principalmente com o que conheci durante esse ano.

Quando tinha 16 anos, comecei a sentir dificuldades para dormir. Preferia passar as noites aproveitando a conexão gratuita da internet discada, conversando com pessoas distantes para passar o tempo, até o momento em que minha mãe, pela terceira vez, com certa indignação na voz, me pedia para desligar de vez o computador e ir dormir porque “você tem aula amanhã cedo, e já passou da hora”. Essa pseudo-insônia durou por mais uns três anos, principalmente no primeiro semestre em que estive dividindo um apartamento com mais duas meninas aqui em São Leopoldo. Sem ter pai ou mãe por perto, e calculando cada movimento para não acordar as gurias, pude passar minhas noites acordada, na internet. Depois que toda a rede mundial de computadores se recolhia para a cama, podia passar o resto da madrugada lendo e vendo vídeo clipes indies na MTV.

Vamos dizer que é compreensível que uma pessoa que tenha passado por um grande trauma se mate. Por grande trauma quero dizer: ter vivido um momento de violação física e psicológica infringido por outros, nela mesma ou vista por ela em algum momento, que seja tão horrível e impraticável que lhe abre uma ferida que não é capaz de cicatrizar. Uma ferida que faz da morte uma opção preferível à superação ou convivência com as marcas e memórias. Não é que se espere que essa pessoa tire sua vida, apenas que é possível entender seus motivos – um abuso físico, um bullying, uma perda inconformada, um sentimento de abandono e solidão. As pessoas guardam em si coisas que lhe são caras, e a sua perda é irreparável ou impossível de se conformar em vida.

Nas últimas semanas, o suicídio tem virado um tema de reportagens e discussões pela mídia. Isso no jornalismo brasileiro, que raramente relata casos em que pessoas tiram a própria vida – uma questão ética da profissão que até hoje ainda não conseguem explicar direito. Houve dois casos recentes que chamaram bastante atenção: o da menina indiana de 17 anos, levada pela polícia a não denunciar o estupro coletivo que sofreu e decidiu se matar; e a de uma jovem estagiária de advocacia paulista, estuprada pelos colegas do trabalho numa festa de fim de ano que se jogou do prédio em que morava. Ambos os casos tem por trás do suicídio um trauma físico e mental enorme, uma violação do corpo e a impunidade dos agressores. Coincidentemente, enquanto esses casos vinham à tona na mídia brasileira, estava lendo Norwegian Wood, livro publicado pelo japonês Haruki Murakami em 1987, em que o suicídio tem uma natureza levemente diferente da que impulsionou essas tragédias reais.