De dentro do útero da mãe, um feto de quase nove meses escuta os planos horríveis de sua genitora para assassinar seu pai. Ela arquiteta o plano com seu amante, que vem a ser também o tio do feto. O motivo do crime é a casa onde eles se encontram, um imóvel que, apesar de decrépito, vale cerca de seis ou sete milhões de libras. Se a mãe, Trudy, simplesmente se separasse do editor e poeta John, ela não conseguiria um bom acordo que enriquecesse sua conta bancária e a de Claude, o amante/cunhado. A única saída para arrancar dinheiro do decadente poeta é o assassinato. E o feto escuta tudo.

Dentre o monte de livros que compõem a minha pilha interminável de futuras leituras, escolhi A balada de Adam Henry, o mais recente romance de Ian McEwan, pelo dilema moral e religioso que a história prometia. Fiona Maye é uma juíza do Tribunal Superior especializada em direito de família, em Londres, e está prestes a completar sessenta anos. Com sucesso na carreira e, até então, na vida pessoal, ela vê sua rotina abalada pelo pedido do marido, Jack, de que eles tenham um casamento “aberto”, ou seja: insatisfeito com a vida sexual, ele informa Fiona que está interessado em uma mulher muito mais nova, uma estudante de estatística de 28 anos, e que gostaria de manter um caso com ela, mas com o consentimento da esposa – ela mesma poderia ter suas aventuras fora do casamento.

Era pouco mais de meio-dia do dia 7 de julho de 2012 quando Ian McEwan revelou para uma Tenda dos Autores lotada – e para quem assistia de fora – o final de seu novo romance, lançado mundialmente no Brasil durante a Flip. O segredo de Serena pertencia agora à todos, não só àqueles que já tinham dado conta do livro. Se o próprio autor de uma obra faz isso – entrega de mão beijada, durante um bate-papo, o final de uma história surpreendente –, quem sou eu para reclamar. Mas tudo não poderia passar de mais uma estratégia de manipulação de McEwan com o público, agora podendo ver ele fazer isso ao vivo, cara a cara, e não só através dos livros. Afinal, neste mesmo lugar, ele diria – ou já tinha dito, não lembro direito – que “manipular o leitor é o meu maior prazer”.

Hoje é raro um casal chegar na sua lua de mel sem saber o que deve – e como – fazer. O sexo não é mais aquele ato “sagrado”, que deve ser praticado apenas quando as duas almas apaixonadas estão ligadas pelos laços do matrimônio e toda essa lenga-lenga que persistiu a reprimir desejos durante tanto tempo. O homem sempre teve essa liberdade de ter algum tipo de relação sexual antes do casamento, e inclusive fora dele. Já para a mulher, sua virgindade era seu selo de honra, e tratar desse assunto com quem quer que fosse era um ato impensável. Existe ainda certo conservadorismo quando o assunto é a sexualidade da mulher, um conjunto de regras que deve reger o comportamento das “boas moças”, as para casar. Tudo besteira.

A orelha do primeiro volume de As Entrevistas da Paris Review, recém publicado pela Companhia das Letras, diz tudo o que o leitor precisa saber sobre uma das maiores revistas literárias em circulação. Criada em 1953, a Paris Review é sinônimo de qualidade, com material rico em informações sobre grandes autores e obras recolhido e editado criteriosamente. Ao abrir o livro, o leitor dá de cara com um simples sumário e logo os maiores escritores se revelam aos seus olhos pelas impressões daqueles que os entrevistaram. Traduzidas por Christian SchwartzSérgio Alcides, as entrevistas englobam todo o período de publicação da revista até os dias atuais, uma leitura que desde as primeiras páginas se mostra deliciosa e muito interessante.

As 14 entrevistas que compõem o volume feitas com W. H. Auden, Billy Wilder, Doris Lessing, Ernest Hemingway, William Faulkner, Javier Marías, Ian McEwan, Amós Oz, Jorge Luis Borges, Louis-Ferdinand Céline, Paul Auster, Primo Levi, Manuel Puig Truman Capote são dispostas em ordem cronológica. São nomes nada desconhecidos da literatura mundial, autores de obras contemporâneas cuja leitura é quase obrigatória. Não há nenhuma informação sobre o critério de seleção dessas entrevistas, mas a sua leitura justifica a presença de cada autor por si só. E o fato de que esse é só o primeiro volume de trabalhos da Paris Review mostra que ainda há muitos bons autores para conhecer melhor.