“História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo.”

Roman Osipovitch Markin é um artista que virou censor. Na União Soviética dos anos 1930, seu trabalho consiste em apagar da História personalidades controversas, artistas, políticos, ativistas, qualquer pessoa que tenha se oposto ao regime socialista. Seu talento para a pintura, mais especificamente os retratos, não era grande o bastante para se tornar um artista. Mas em um regime onde a “História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo”, Markin é um dos melhores no seu trabalho.

Levei um tempo para ler Um amor incômodo (Intrínseca, tradução de Marcello Lino). Na ânsia de ler Elena Ferrante, devorava um livro dela assim que chegava às livrarias brasileiras. Com o fim da tetralogia napolitana, resolvi deixar esse para depois, para quando batesse uma vontade de voltar à autora italiana. Pois bateu. Assim como seus outros romances fora da série – A filha perdida e Dias de abandono –, Um amor incômodo também reflete temas do dramalhão de Lila e Lenu. Neste caso, é a relação entre mãe e filha que fica em evidência.

Estou sentindo cheiro de ceia de Natal, de amigo secreto da família, de tios bêbados e de melancolia de fim de ano. Significa que é hora da: LISTA DE MELHORES LEITURAS DO ANO!

O ano ainda não acabou, eu sei, mas posso declarar que já tenho a lista de livros mais legais de 2017 – se bem que achei o mesmo no ano passado e tive que adicionar um livro extra depois de ter postado a lista. Mas como o ritmo de leitura anda lendo e tudo o mais, acho que já posso encerrar o expediente de 2017 (que foi bem preguiçoso, desculpa).

Nada pior do que desejar algo, não conseguir e jogar suas expectativas para cima de outra pessoa que não tem nada a ver com o assunto. Esse seria um resumo básico do que é Tudo o que nunca contei, romance de Celeste Ng lançado pela Intrínseca (tradução de Julia Sobral Campos). Tudo começa com o desaparecimento – e consequente morte – de Lydia Lee, 16 anos, aluna exemplar e filha mais do que amada pelos seus pais e seus dois irmãos. A polícia trabalha com a hipótese de suicídio, e é isso o que provavelmente aconteceu – Tudo o que nunca contei não é nenhum thriller, se é isso o que você esperava. É sobre a relação entre pais e filhos e tudo o que pode dar errado quando não há diálogo.

Esse é um daqueles raros casos em que fiquei com muita vontade de ler o livro depois de ver o filme. Quando saí da sessão de A chegada, queria conhecer tanto a história original quanto os outros contos de Ted Chiang – a ideia toda apresentada no filme me pareceu legal demais para me contentar só com o audiovisual. Claro que as indicações de pessoas cujo gosto literário eu confio também ajudaram na decisão de ler Chiang, assim como algumas entrevistas do próprio autor – ele parece ser um daqueles caras de boas que não quer muita atenção, só fazer seu trabalho e escrever uns textos fictícios vez ou outra, gosto desse pessoal.

Uma mulher de meia-idade, professora, deixa a cidade para passar as férias no litoral do sul da Itália. Leda está livre das obrigações de mãe. Suas duas filhas, já crescidas, vivem perto do pai em Toronto, no Canadá. As preocupações atuais de Leda são o trabalho e, agora, encontrar um lugar confortável nas areias de uma praia tranquila para ler e revisar seus estudos. Momentos que são interrompidos pelas lembranças da própria maternidade desencadeadas pela presença de uma jovem mulher e sua filha acompanhadas da barulhenta família, pessoas que também transportam a narradora para a sua juventude em Nápoles.

estacao-onze2Alguma coisa acontece no mundo de modo que a sociedade não é mais aquela que conhecemos. Uma catástrofe nuclear, um avanço tecnológico, uma invasão extraterrestre, a própria natureza se vingando do homem… Anos depois, podem ser centenas, podem ser milhares, essa sociedade se reorganiza, seja na própria Terra ou em outros planetas – nem sempre ela continua habitável, né. Há muitas ficções científicas assim, e vale lembrar que um velho livro conhecido da galera (vulgo Bílbia) traz um monte de ideias de como acabar com o mundo. Mas em Estação Onze (tradução de Rubens Figueiredo), o que podemos chamar de sci-fi pós-apocalíptico, a coisa acontece em um tempo mais recente e estamos observando tudo. E é isso o que me fez gostar muito do romance de Emily St. John Mandel.

É noite em Toronto, no Canadá. Jeevan Chaudhary está na plateia de uma montagem nova de Rei Lear, clássico shakespeariano, quando o ator principal, Arthur Leander, tem um ataque cardíaco fulminante. Estudando para ser paramédico após anos de carreira jornalística como paparazzi e repórter, ele logo tenta reanimar o ator, mas já é tarde. No palco, uma atriz-mirim de 8 anos, Kirsten Raymonde, vê tudo sem entender exatamente o que está acontecendo. Pouco depois da morte de Arthur, começam a aparecer na cidade as primeiras vítimas da Gripe da Georgia, até então limitada apenas à Europa, que em questão de horas mata uma multidão de pessoas. E aí o mundo como o conhecemos acaba.

A_SEGUNDA_PATRIA_1423665868435628SK1423665868BQuando eu era mais nova (ou seja, adolescente), ouvi várias histórias sobre Blumenau. Que a cidade tinha uma série de túneis debaixo dos principais prédios do centro – como os colégios, o Teatro Carlos Gomes, etc. – que serviriam como fuga para soldados alemães na Segunda Guerra Mundial. Que esse teatro, construído durante a guerra, imita o design de um quepe da SS, e teria o propósito de abrigar Hitler durante seus discursos para um público ariano caso precisasse fugir da Alemanha – Blumenau seria um óbvio destino, pelo jeito. Enfim, eram várias as histórias e “teorias da conspiração” postadas em antigas comunidades do falecido Orkut que envolviam uma das mais famosas cidades de Santa Catarina e a Segunda Guerra.

A colonização alemã, que foi bem intensa naquela região, pode ter abrigado, sim, uma certa comunidade nazista (como aconteceu até no interior de São Paulo, vamos lembrar, e também a recente suástica na piscina de um professor de HISTÓRIA de Pomerode, lá do ladinho de Blumenau). Mas, felizmente, o que se viu durante aquele período não foi um anexo menorzinho do nazismo no Sul do país. E aí chega Miguel Sanches Neto com um romance que imagina o contrário do que aconteceu na nossa História: e se o governo brasileiro tivesse ficado do lado dos alemães, e não dos americanos? O que teria acontecido?

nao-sou-uma-dessas-capaNão sou uma fã de Girls. Vi alguns episódios fora de ordem e de diferentes temporadas. Vi Lena Dunham nua praticando um sexo meio humilhante com aquele ator de voz grossa que vive aparecendo em filmes aleatórios que eu até gosto, mas é impossível para mim lembrar do nome dele – estava em Inside Llewyn Davis, Frances Ha e o último em que o vi era What If?, com o Daniel Radcliffe. Curti o estilo daquela loirinha que usa calças largas com as barras dobradas até as canelas, sapatos masculinos e coque alto. Comparei Hannah com algumas amigas espevitadas que tive no colégio, que se achavam legais demais para compensar uma falta de crença nelas próprias. Não vi episódios o bastante para dizer algo mais concreto sobre a série. Não desgostei do que vi, mas também não gostei a ponto de querer acompanhar ela inteira.

Porém, vivo na internet, o que significa que toda hora pula nas minhas timelines alguma coisa dita por Lena Dunham, sendo polêmica ou não – geralmente há pessoas criticando as tatuagens dela (que não acho horríveis), o cabelo novo ou as roupas que ela usa nas premiações (que também não me incomodam em nada, como não deveriam incomodar ninguém). Sempre tendi a achar que a própria Lena é uma dessas pessoas que causam essas “polêmicas” por causar, mas quando Não sou uma dessas foi publicado, fiquei curiosa para ler o que ela tinha a dizer sobre a vida de uma jovem garota mais perto dos 30 anos do que dos 20 – que é mais ou menos onde estou entrando agora.