Por trabalhar com redes sociais para uma editora, o que mais ando vendo no fim do ano são as listas de melhores livros do bendito ano. E eu não aguento mais tanta lista. Já tem até uma lista das melhores listas de melhores livros (please, stop listas, mas essa é bem legal porque mostra umas estatísticas das listas, como número de autoras mulheres, homens, traduções, brancos, negros que aparecem nelas etc.). Mas se eu não suporto mais ver tanta lista por aí, por que estou fazendo uma? Porque é tradição, porque quero relembrar o que li esse ano, porque o Google adora e vivo recebendo visitas no blog por causa delas (rs).

De acordo com o DATAr.izze.nhas (a página de livros lidos), o número de títulos que eu li vem caindo a cada ano, shame on me. Já cansei de procurar desculpa para justificar isso (ano passado foi a mudança para São Paulo), então vou jogar a real e dizer que às vezes estou tão cansada, mas tão cansada, que só quero deitar no sofá e encarar a parede (ou então assistir novela mesmo). Ou talvez esteja desenvolvendo alguma dificuldade de me manter concentrada em uma coisa só. Mas ainda consegui reunir nove livros que gostei muito mesmo de ler em 2015, entre coisas que comecei no ano passado (beijo, DFW) e até uma releitura. Então, segue a listinha em ordem cronológica de leitura. 🙂

No início dos anos 1980, a Espanha vive seus anos de liberdade após o fim da ditadura franquista. Francisco Franco ficou no poder de 1936 até sua morte, em 1975, e o país viveu tempos obscuros durante esse período. O que aconteceu entre opositores e apoiadores de Franco nestes anos raramente era comentado logo após as primeiras eleições livres, e os espanhóis, principalmente os jovens, aproveitavam essa liberdade, enquanto os que viveram os anos de ditadura preferiam não lembrar os detalhes do que aconteceu. Mas esse silêncio é quebrado, em parte, por Juan de Vere, um jovem de 23 anos contratado pelo cineasta Eduardo Muriel para ser seu assistente.

Com a mudança para São Paulo, o trabalho, a vida social (que agora posso considerar ter agora), e eu estar dando muito mais atenção para a televisão (tenho que justificar os R$ 150,00 da NET que venho pagando), não encontro muito tempo para escrever mais resenhas – até o número de livros lidos diminuiu consideravelmente. Mas calma, não estou desistindo do trabalho, só estou mais preguiçosa mesmo. Por isso, vou falar rapidinho de algumas leituras que fiz durante o ano até agora que não ganharam uma resenha própria por “n” motivos – como não saber como falar deles sem uma segunda leitura, ou achar que o texto ficaria muito ruim e preferir nem começar. Então aí vai:

Falar de amor é passatempo preferido da literatura. Amores, paixões, relacionamentos que se formam ou que se desgastam são matéria-prima para a maioria dos romances – quando se fala em “romance”, o gênero, muitos não familiarizados tendem a confundir com uma história de amor, um livro sobre uma moça que encontra um rapaz e eles-se-apaixonam-e-devem-enfrentar-vários-desafios-para-ficarem-juntos. Esse seria um esquema clássico de uma história de amor. Mas Os enamoramentos, de Javier Marías, passa longe dessa fórmula. Não parece ser uma história de amor, mas uma história sobre o amor, em suas formas mais variadas e que impulsionam ações não necessariamente corajosas ou moralmente belas.

María Dolz trabalha em uma editora em Madrid, e todos os dias pela manhã toma seu café em uma cafeteria perto de seu escritório. E todos os dias observa aquele que chama de Casal Perfeito, um homem e uma mulher que estão também todas as manhãs naquele café, às vezes com os filhos pequenos, às vezes sozinhos, mas sempre o motivo de María chegar atrasada para o trabalho. O que ela sente ao observar esse casal não é inveja, como muitos poderiam pensar – porque o amor alheio dá inveja, sim, naqueles que não têm um amor ou contam apenas com um caso mal resolvido. O que prende sua atenção é a forma como parecem se amar incondicionalmente, como o humor do homem e da mulher combinam, como parecem perfeitos um para o outro e inabaláveis. Até que ele morre.

A orelha do primeiro volume de As Entrevistas da Paris Review, recém publicado pela Companhia das Letras, diz tudo o que o leitor precisa saber sobre uma das maiores revistas literárias em circulação. Criada em 1953, a Paris Review é sinônimo de qualidade, com material rico em informações sobre grandes autores e obras recolhido e editado criteriosamente. Ao abrir o livro, o leitor dá de cara com um simples sumário e logo os maiores escritores se revelam aos seus olhos pelas impressões daqueles que os entrevistaram. Traduzidas por Christian SchwartzSérgio Alcides, as entrevistas englobam todo o período de publicação da revista até os dias atuais, uma leitura que desde as primeiras páginas se mostra deliciosa e muito interessante.

As 14 entrevistas que compõem o volume feitas com W. H. Auden, Billy Wilder, Doris Lessing, Ernest Hemingway, William Faulkner, Javier Marías, Ian McEwan, Amós Oz, Jorge Luis Borges, Louis-Ferdinand Céline, Paul Auster, Primo Levi, Manuel Puig Truman Capote são dispostas em ordem cronológica. São nomes nada desconhecidos da literatura mundial, autores de obras contemporâneas cuja leitura é quase obrigatória. Não há nenhuma informação sobre o critério de seleção dessas entrevistas, mas a sua leitura justifica a presença de cada autor por si só. E o fato de que esse é só o primeiro volume de trabalhos da Paris Review mostra que ainda há muitos bons autores para conhecer melhor.