Quando Cecilia cortou seus pulsos e se deixou esvair em sangue dentro da banheira da família Lisbon, a preocupação pelo bem-estar das meninas tornou-se fato de curiosidade de todos os moradores daquela rua de classe-média. A tentativa de suicídio aos 13 anos de idade confirmou que havia algo de errado com a caçula dos Lisbon. Para tentar recuperá-la, seus pais afrouxaram as regras da casa para ela e suas irmãs Lux, Bonnie, Mary e Therese – de 14, 15, 16 e 17 anos. Porém, a determinação de Cecilia era mesmo tirar a própria vida, e durante uma festa das irmãs para os seus vizinhos e colegas, a garota atinge seu objetivo ao se jogar da janela de seu quarto e cair em cima da cerca pontiaguda que rodeava a casa. Em um ano, todas as suas irmãs procurariam semelhante destino.

Quem narra a trágica história das garotas Lisbon em As virgens suicidas são seus próprios vizinhos, encantados pela beleza das meninas e também pela distância que guardam dela, o que as tornam praticamente intocáveis, alcançadas apenas em sonho. O livro de Jeffrey Eugenides é uma de suas obras mais aclamadas, e foi adaptado para as telas do cinema pela diretora Sofia Coppola. Os garotos contam, já adultos, tudo o que aquela rua vivenciou no ano após a morte de Cecilia, registrando minuciosamente a decadência da casa dos Lisbon e da sanidade de todos os seus moradores – não temos certeza se é apenas uma voz ou são relatos de todos que compõem a narrativa. Através de documentos, entrevistas e objetos que resgataram do lugar e guardam anos depois, tentam, de todas as maneiras, entender o que levou aquelas cinco garotas a preferirem deixar de viver em plena juventude.

Vamos dizer que é compreensível que uma pessoa que tenha passado por um grande trauma se mate. Por grande trauma quero dizer: ter vivido um momento de violação física e psicológica infringido por outros, nela mesma ou vista por ela em algum momento, que seja tão horrível e impraticável que lhe abre uma ferida que não é capaz de cicatrizar. Uma ferida que faz da morte uma opção preferível à superação ou convivência com as marcas e memórias. Não é que se espere que essa pessoa tire sua vida, apenas que é possível entender seus motivos – um abuso físico, um bullying, uma perda inconformada, um sentimento de abandono e solidão. As pessoas guardam em si coisas que lhe são caras, e a sua perda é irreparável ou impossível de se conformar em vida.