Um dia desses, um amigo retuitou uma mensagem que dizia mais ou menos assim: “a necessidade de ser criativo está fazendo mal ao jornalismo”. Discordo. Para mim, o que está fazendo mal ao jornalismo é a falta de profissionalismo, prazos apertados, acomodação e, principalmente, a padronização da informação. O jornalismo consumido hoje – sim, notícias são produtos – é baseado na repetição. Todo portal de notícias traz o mesmo conteúdo com a mesma abordagem, e o jornal impresso só repete a notícia que todo mundo já viu, assistiu e ouviu no dia anterior. Para o jornal impresso isso não é nada bom, pois manter-se informado através do papel atualmente significa receber informação atrasada, embora ele ainda garanta mais legitimidade à notícia.

Christian Carvalho Cruz, jornalista do caderno “Aliás” do Estado de S. Paulo, é um exemplo de como a criatividade – e gosto pela profissão – só tem a contribuir para o jornalismo. O seu trabalho consiste em reavivar no caderno dominical algum assunto que foi pauta no jornal durante a semana e apresentá-lo com um novo olhar: mais original, surpreendente e literário. E ele faz isso muito bem, pois não fala necessariamente daquilo que foi capa do jornal, mas sim de assuntos que não renderam – para outro jornalista e seu editor – nada além de uma notinha em um canto da página. Essas reportagens, que mais parecem crônicas, foram reunidas no livro Entretanto, foi assim que aconteceu: quando a notícia é só o começo de uma boa história, publicado pela Arquipélago Editorial.

A história de uma cidade é feita pelas pessoas que nela vivem. Pessoas que perpetuam a cultura de séculos e ao mesmo tempo sonham com a modernidade, avanços tecnológicos que lhes facilitam a vida, criando seus filhos em um lugar que mistura o antigo com o novo. Seja uma grande metrópole ou uma pequena cidade do interior, todas tem suas peculiaridades, suas histórias e personagens. Muitos são semelhantes, seguem a mesma rotina de casa e trabalho, mas existem aqueles que são singulares, estranhos e, por isso, notáveis. E por mais que essa cidade tenha falhas, quem nela cresce dificilmente irá esquecê-la e abandoná-la.

Essa introdução resume o que se encontra em Bombaim: cidade máxima, do jornalista indiano Suketu Mehta, finalista do Pulitzer de 2005 e recém lançado pela Companhia das Letras. No livro sobre a maior cidade do mundo, o autor revela os bastidores daquilo que mais caracteriza a capital da Índia: a superpopulação, o contraste entre riqueza e pobreza, os luxos de Bollywood e a corrupção incrustada no povo indiano. Nascido em Calcutá, Mehta viveu até a adolescência em Bombaim – que hoje é Mumbai, mas ele prefere se referir à cidade pelo nome que tinha em sua infância – até se mudar para os EUA com sua família e lá continuar seus estudos, se formar e construir uma carreira. Apesar de a América do Norte ser mais organizada e ter mais qualidade de vida, Mehta tem uma ligação forte demais com Bombaim para esquecê-la, o que o faz voltar a morar lá depois de 21 anos vivendo a cultura americana, já casado e com dois filhos pequenos. E é essa ligação que o motiva a escrever sobre a cidade.

Em outubro de 2001, depois dos ataques de 11 de setembro que destruíram o World Trade Center, parte do Pentágono e ainda derrubaram na Pensilvânia um dos aviões seqüestrados por terroristas, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão. O objetivo era encontrar Osama Bin Laden, que se acreditava estar escondido no país, destruir a Al-Quaeda e o talibã. A ocupação do exército norte-americano no Afeganistão permanece, mas já está programada o início da retirada das tropas ainda esse ano. O que diferencia essa guerra das outras travadas pelos EUA está nas pessoas que nela lutaram. Diferente da Segunda Guerra Mundial, os soldados combatentes não eram convocados, mas se voluntariavam querendo lutar por seu país, ou apenas dar um rumo à suas vidas já desgraçadas.

São esses jovens soldados o material do livro Guerra, do jornalista Sebastian Junger. O livro é fruto de cinco viagens do jornalista à região do Vale do Korengal, uma das áreas com mais conflitos entre o exército norte-americano e o talibã. Do material reunido por ele e pelo fotógrafo Tim Hetherington – morto em abril desse ano na Líbia – entre junho de 2007 e 2008 para a revista Vanity Fair, ainda foram produzidos um documentário, Restrepo, e finalmente Guerra. Relendo depoimentos e revendo imagens, vídeos e gravações, Junger divide seu livro em três partes para abarcar todo o ambiente da guerra e os seus efeitos psicológicos sobre os soldados, além de suas motivações para combater: Medo, Matança e Amor.

O que um entrevistado espera de um jornalista e o que esse jornalista espera que a pessoa que entrevista lhe diga causa descontentamento de ambos os lados. O jornalista quer informações que tornem sua personagem mais interessante. A personagem real quer que o escritor compre sua versão dos fatos, e não o contrário. Janet Malcolm, no livro O Jornalista e o Assassino, fala isso com palavras mais eficazes: “A disparidade entre o que parece ser a intenção de uma entrevista quando ela está acontecendo e aquilo que no fim ela de fato estava ajudando a fazer é sempre um choque para o entrevistado”.

Esse descontentamento é narrado no livro de Janet Malcolm, que recebeu recentemente nova edição de bolso pela Companhia das Letras. O entrevistado nesse caso é Jeffrey McDonald, médico acusado pelo assassinato de sua esposa grávida e das duas filhas pequenas, ocorrido em 1970. Primeiramente absolvido pelo julgamento do Exército e depois condenado, McDonald convidou o jornalista Joe McGinniss para acompanhar a sua defesa e escrever a sua história, que resultou no livro Fatal Vision, publicado em 1983. Mas o que McGinniss apresentou era totalmente diferente daquilo que McDonald esperava: ao invés de um livro que mostrasse a sua inocência, o que o jornalista fez foi confirmar o seu perfil psicótico de assassino. McDonald, então, processa McGinniss pelas “mentiras” divulgadas. Em O Jornalista e o Assassino, Malcolm expõe a relação entre entrevistado e jornalista e inverte os papéis das personagens dessa história: o vilão vira mocinho e o herói vira vilão.

Gay Talese é um nome de peso no jornalismo. Não existe estudante algum que não tenha ouvido falar do grande adepto do New Journalism, seja em recomendações de leitura ou elogios de professores falando de um ótimo exemplo a seguir. E quando um livro de Talese ou qualquer artigo seu cai nas mãos do leitor, ele deve ser lido. Quando Honra Teu Pai foi relançado há algumas semanas pela Companhia das Letras, havia chegado a minha hora de finalmente ler Gay Talese. Não só pelo grande histórico de  recomendações de leitura, mas pelo próprio tema que me chamou a atenção: o primeiro relato de não-ficção da vida da Máfia nos EUA. A história de ascendência e queda de uma família enraizada na Máfia.

Honra Teu Pai, originalmente publicado em 1971, segue os passos de Salvatore (Bill) Bonanno, filho de um dos maiores chefes da Máfia de Nova York, Joseph (Joe Bananas) Bonanno. Joseph, filho de um imigrante italiano de Castellamare del Golfo, na Sicília, desde jovem esteve envolvido com ações da Máfia, e depois da morte dos pais, em Nova York, voltou à cidade natal e logo teve de retornar aos EUA fugindo da pressão que Mussolini para erradicar os grupos criminosos da Itália. E aos poucos foi galgando os degraus da Máfia de Nova York até chegar à chefia da sua própria família. Seu filho, Bill Bonanno, um jovem com educação privilegiada, acabou seguindo a “carreira do pai”.