Se algumas personagens dos contos escritos por Kenzaburo Oe, escritor japonês ganhador do Nobel de Literatura em 1993, são dotados de certa dificuldade de externar seus sentimentos e preocupações – expostas através de uma narrativa cuidadosa –, uma faceta diferente, mas ainda assim semelhante a alguns de seus textos curtos, pode ser vista em Jovens de um novo tempo, despertai!O narrador/protagonista desse livro não conta com nenhum problema de expressão. Lidar com palavras, aliás, é o que o sustenta. Escritor conhecido e renomado do Japão, o protagonista decide a, finalmente, iniciar uma empreitada que vinha adiando: “Vou escrever o livro de definições do mundo, da sociedade e do ser humano nem tanto para dedicá-lo a meu filho, mas com o objetivo de purgar e de incentivar a mim mesmo.”

Ao falar da literatura japonesa na introdução de 14 contos de Kenzaburo Oe, Arthur Dapieve destaca o talento desse povo em dizer muito usando poucas palavras. Ou seja, da forma que os japoneses, como sociedade em geral e não só seus escritores, dizem tanto sobre suas dores e problemas quando justamente silenciam. É estranho pensar na literatura como algo que se destaca pelo silêncio, pela ausência de palavras, sejam ditas ou escritas, justamente na abertura de uma coletânea de contos de um dos maiores escritores japoneses, ganhador do Nobel de Literatura em 1994. Ainda mais que Kenzaburo Oe não esconde nenhum desses dramas dentro dele mesmo, mas confere à suas personagens certa dificuldade para falarem de seus problemas – e, por isso, o talento da narrativa se faz indispensável para que o leitor veja o que elas não dizem.