No fim do século XIX, na Inglaterra, a família de um diplomata norte-americano, os Otis, ignora todos os avisos da região e decidem comprar a Reserva de Caça Canterville, uma propriedade assombrada há 300 anos por um misterioso fantasma. O diplomata, sua esposa, seu filho mais velho, a filha do meio e seus dois gêmeos, educados no estilo prático dos republicados dos Estados Unidos, não deram a mínima para as antigas lendas inglesas que, para eles, não passavam de invencionices. Mas O fantasma de Canterville (1891) é real, como bem mostra Oscar Wilde nesse conto que, por trás da fantasia, esconde ácidas alfinetadas nas mudanças do fim de século pelas quais a sociedade norte-americana e inglesa passaram.

O conto ganhou recentemente uma nova edição no Brasil pelo selo Eternamente Clássicos da editora Leya/Barba Negra, claramente buscando atingir um público mais jovem através da arte que lembra os filmes de Tim Burton e das cores chamativas na sua capa. A edição ainda é complementada com ilustrações de Wesley Rodrigues que lembram mais rascunhos que desenhos, e encaixam perfeitamente na proposta gráfica do livro. Após a compra da mansão dos Canterville, na primeira noite o fantasma se revela aos Otis, mas ao contrário do que qualquer pessoa que teme pela morte faria, nenhum membro da família se sente abalado pela aparição de Sir Simon Canterville.

Sujeira, grafite, prédios sujos grudados uns nos outros e outdoors anunciando a marca da vez. Esse pode ser um retrato de qualquer grande cidade, mas em Encruzilhada, quadrinho de Marcelo d’ Salete, essa é a São Paulo que ele vê. Os desenhos do autor trazem recortes desse ambiente urbano carregado de propagandas, até nas próprias pessoas, que às vezes dá lugar a um pedacinho de céu com nuvens. E nessa cidade estão personagens simples, pessoas com as quais esbarramos na rua e nem notamos, trabalhadores e vagabundos que se encontram em tragédias comuns.

O projeto gráfico do livro publicado pela Leya/Barba Negra é o que primeiro chama a atenção e diz ao leitor que ele não deve ler os quadrinhos, mas observá-los e senti-los. As páginas negras trazem traços brancos “sujos”, com poucas falas e mais retratos das personagens e das paisagens em que elas interagem. As tramas em si são simples, até já repetidas em outras obras que abordam situações de preconceito e injustiça que já somos “acostumados” a ver nos jornais. Encruzilhada tem o par de meninos de rua injustiçados pela polícia, o viciado que rouba a prima para comprar mais drogas, o ladrão de carros, a prostituta observada pelo seu vizinho e o homem negro preso por engano. Nada muito longe daquilo que outras histórias contam, mas ainda assim diferentes pela maneira que d’Salete os representa.

O conto é um gênero literário que parece ter pouco espaço entre os leitores brasileiros, mas bem visto entre os escritores. Ao escolher a próxima leitura, noto que o leitor prefere os romances longos, cheios de personagens e enredos com mil reviravoltas. Enfim, dão preferência às histórias que se aprofundam no que pretendem contar. Com os contos tudo é diferente: não é apenas o tamanho reduzido que proporciona leitura curta, mas também a própria abordagem de uma história, que age com mais ação e intensidade. Para o leitor amante de romances, o livro A Poética do Conto: de Poe a Borges – um passeio pelo gênero, do professor Charles Kiefer e publicado pela editora Leya, não serve apenas para conhecer mais o conto, mas para ver sua grandeza na literatura.

Para falar desse gênero, Kiefer aborda no livro a produção crítica e literária de três grandes autores que dedicaram a vida ao conto: o pai da literatura policial Edgar Allan Poe e os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges. Nomes conhecidos que veem o conto como o gênero onde o autor pode mostrar de forma mais única todo o seu talento. A pesquisa de Kiefer se divide em três partes, cada uma tratando de um dos autores estudados e suas leituras. Assim, o leitor tem acesso às críticas de Poe ao escritor Nathaniel Hawthorne, às de Cortázar a Poe e às de Borges a todos os escritores anteriores. Esse é um exercício que define o conto ao mesmo tempo em que mostra como cada autor o enxergava e o que colocavam em seus próprios textos. Kiefer também avalia se eles seguiam as regras estipuladas em seus ensaios e resenhas em suas próprias obras.

Qual é a verdade por trás da humanidade, o real sentido de estarmos vivo? A resposta para essa pergunta, segundo Unhas, é o prazer. Fazer o que lhe dá mais vontade, o que mais o satisfaz. Seja comer, transar, ou brincar de assassino profissional com vezes de estuprador. Unhas é o romance policial de Paulo Wainberg, publicado ano passado pela editora Leya, um livro sobre a descoberta de um homem de vida monótona e regrada de que está na natureza da humanidade, e até de Deus, quebrar as suas hipócritas regras sociais para satisfazer seus maiores desejos.