Quando imaginamos um clássico da literatura, geralmente pensamos em um livro perfeito em sua técnica, aquele que ditou formas e maneiras de se narrar uma história. A inventividade, nesse caso, é uma característica que demora para vir à mente. O romance pode ter entrado para a história da literatura por quebrar paradigmas, narrar o que antes era inenarrável, desafiar a compreensão do leitor. Tudo isso, de alguma forma, se imprime no imaginário do livro ideal, daquele que, não importa o quanto os anos passarem, continuarão sendo aclamados com os grandes romances definidores do estilo e que, décadas depois, ainda continuam atuais. Reflexões do gato Murr – e uma fragmentada biografia do compositor Johannes Kreisler em folhas dispersas de rascunho, de E.T.A. Hoffmann, parece estar meio esquecido na coleção de clássicos literários, mas agora é resgatado em uma nova edição traduzida por Maria Aparecida Barbosa e publicada pela Estação Liberdade.

Zinos vive sozinho em Hamburgo-Altona. Ele tem família, um pai e uma mãe que voltaram para a Grécia assim que ele completou 18 anos de idade, e um irmão mais velho, Illias, que entra e sai da prisão. A existência de Zinos é bem melancólica: deixado sozinho na Alemanha e sem a presença do irmão que admira, o garoto se vê obrigado a conseguir emprego para poder se manter no apartamento pequeno que ganhou dos pais. Consegue um trabalho na cozinha de um restaurante italiano. E ali decide que cozinhar será a sua meta na vida, sonhando com a propriedade de um restaurante.

Com uma narração realizada em terceira pessoa, A cozinha da alma, de Jasmin Ramadan, propõe um mergulho ao íntimo do protagonista enquanto persegue o seu sonho e tenta descobrir seu lugar no mundo. Ele não é um jovem desajustado e preguiçoso, apresenta muitas vezes grande determinação, mas acaba se deixando levar pelo desejo durante breves momentos que comprometem todos os seus planos. Como quando foi demitido de seu primeiro emprego por se envolver com uma colega de trabalho e chegar atrasado à sua iniciação de “chef de cozinha”, ou se envolver com uma antiga amiga da ilha grega de onde veio sua família. Ele não é idiota, apenas ingênuo em algumas questões, principalmente quando elas envolvem mulheres.

Marca presente em qualquer governo totalitário e ditatorial, a censura e a perseguição a grupos que pensam o contrário do governante são constantes. No Brasil comandado pelos militares, milhares de pessoas foram perseguidas, presas, torturadas e mortas só por pensarem ou apoiarem a luta por uma democracia verdadeira – muitos casos vindo à tona ou apenas tendo confirmação só agora. Para quem nasceu depois desse período, já com liberdades de expressão garantida, chega a ser difícil imaginar que houve um tempo em que ser contrário a algo poderia significar a morte. Mas a literatura sobre esse tema é vasta, e nos faz conhecer os horrores de viver sob o peso da censura.

Infelizmente, não foi só o Brasil que viveu sua ditadura. Tais regimes fazem parte da história política de muitos países, e alguns ainda vivem sob eles. Para a ganhadora do Nobel de Literatura de 2009, Herta Müller, romena de origem alemã, falar sobre esse tema é parte central de sua obra. Filha de um ex-soldado da SS nazista na Segunda Guerra Mundial, Herta nasceu na Romênia, para onde muitos alemães foram enviados após o fim da guerra. Esquecidos no país, essa minoria composta por milhares de alemães viveram sob o regime comunista de Nicolae Ceausescu, que durou de 1965 a 1989. A violência desse período fez parte da vida de Herta, que no romance Fera d’alma usa parte de sua história real para contar o drama de jovens perseguidos pela Securitate, a polícia romena a serviço de Ceausescu.

Helene Hegemann foi recebida como prodígio literário ao publicar Axolotle atropelado com apenas 17 anos de idade. O livro é o diário de Mifti, uma adolescente problemática de 16 anos envolvida com drogas e sexo na Berlim atual, cercada pela riqueza dos artigos luxuosos da moda e amigos “intelectualóides”. Uma garota prodígio como a autora do livro, que assume sua condição de ruína como uma criança em busca de atenção, mas com frases de impacto que soam muito inteligentes. Órfã de mãe, mora com os irmãos mais velhos super descolados enquanto seu pai negligente viaja pelo mundo. Mifti nunca recebeu muito afeto da família, principalmente da mãe esquizofrênica, e sua carência a leva para as mais absurdas relações sexuais, incluindo a obsessão por uma mulher um pouco mais velha, a quem se submete a atividades sádicas.

O axolotle é uma espécie de salamandra mexicana que nunca se desenvolve, e nesse animal Mifti vê um retrato seu. Ela é igualmente parada no seu desenvolvimento, sem perspectiva de que vá fazer algo além de ir em festas, se drogar e passar os dias dormindo sem ir à escola. E também não recebe ajuda ou incentivo algum da família ou dos amigos para que saia dessa rotina desregrada, por mais que demonstrem preocupação. Axolotle atropelado tem ritmo intenso, uma verborragia de sentimentos e diálogos de Mifti, muitos deles fragmentados como suas lembranças danificadas pelo constante estado de embriaguez ou delírio.  E assim o leitor tem contato com a família, amigos ou estranhos com quem Mifti se encontra – e eventualmente transa – enquanto espera que algo dite o seu fim, seja uma overdose, suicídio ou a relação com aquela que a sodomiza e causa sua dependência e depressão, como a própria droga que consome.