Dezessete segundos. É um intervalo de tempo mínimo perto das 24 horas que um dia possui. Mas em alguns casos, pode ser tão longo quanto a eternidade. Podem ser decisivos. O intervalo de dezessete segundos entre o primeiro e o segundo lugar em uma corrida, por exemplo, é muito. Dezessete segundos desacordado ao ser nocauteado em uma luta de boxe, então, significa a derrota. É o que aconteceu com Jack Dempsey em 14 de setembro de 1923 na luta para defender o título mundial de pesos pesados contra o argentino Luis Ángel Firpo, em Nova York. O atual campeão foi jogado do ringue e passou dezessete segundos fora da luta, mas por algum motivo Firpo, El Toro de los Pampas, não foi declarado o vencedor. Dempsey volta ao ringue e, para a surpresa de todos, vence a luta e mantém o título.

Essa é só uma das histórias resgatadas pelo argentino Martín Kohan em Segundos fora, publicado há pouco aqui no Brasil pela Companhia das Letras. O dia 14 de setembro de 1923 foi marcado ainda por outro evento além da disputa entre o norte-americano e o argentino. Nesse dia, o famoso maestro e compositor Richard Strauss apresentou no Teatro Colón a primeira sinfonia de Mahler com a Filarmônica de Viena, um dos principais eventos culturais que Buenos Aires presenciou na época. Ainda há dois jornalistas, 50 anos depois, discutindo esses eventos. Ledesma e Verani trabalham em um jornal na cidade de Trelew, na Patagônia, e escolhem esses acontecimentos como pautas para uma edição comemorativa dos 50 anos da publicação. Um aficionado pelo esporte e pelo episódio Dempsey/Firpo, o outro apaixonado pela música clássica e as obras Mahler. 

Quando falamos de Jorge Luis Borges, lembramos principalmente do realismo fantástico e de suas contribuições para a literatura. Um dos autores latino-americanos mais conhecidos e aclamados é nome obrigatório em qualquer lista digna de leitura – e por isso mesmo já faz tempo que quis incluí-lo na minha. Mas além da produção literária, sabemos que o escritor, falecido em 1986, era um grande estudioso da literatura e línguas anglo-saxãs – aprendeu inglês com sua avó e daí vieram suas primeiras leituras. A literatura clássica, lendas e histórias vindas da Europa eram seu material de estudo, e é claro que seu trabalho como estudioso também está disponível para quem quiser ler. Como O livro dos seres imaginários, em que Borges enumera um grande número de criaturas mágicas que figuram nas mais variadas histórias contadas através dos tempos.

Escrito com a colaboração de Margarita Guerrero, esse compêndio reúne 116 criaturas – não necessariamente animais, como a palavra nos sugere – vindos tanto da literatura quanto de lendas, mitos e religiões. São seres estranhos criados pela mente fantasiosa do homem, e Borges pesquisa nas mais antigas fontes para tentar resgatar suas origens e diversas descrições. Organizados em verbetes breves, Borges usa as palavras de suas próprias fontes para, por vezes, descrevê-los. Assim, apresenta essas criaturas fantásticas através de C. S. Lewis, Franz Kafka, Edgar Allan Poe, resgata escritos de Shakespeare, Homero, Virgílio, conta-nos histórias de Confúcio e Plínio. O livro, então, não é apenas uma lista com descrições simples desses seres imaginários, mas uma reunião de grandes autores e histórias unidos por essas criaturas.

Familiarizar o leitor com histórias baseadas principalmente no cotidiano é fácil quando o que se tem em mãos é um enredo simples, uma trama interessante e bem fechada, realista e próxima ao que se vê na realidade. Quando essa realidade é cortada por rompantes de fantasia, tornar essa história ainda natural aos olhos de quem lê é um pouco mais complicado. E quando isso é feito, o efeito de surpresa é ainda maior, assim como a satisfação da leitura. Em Todos os fogos o fogo, de Julio Cortázar, a união do real com a fantasia não distancia o leitor daquilo que ele mesmo vê em seu dia-a-dia, mas o aproxima dele mesmo, com seus desejos e fantasias que ele alimenta poderem ser reais.