Raquel Tommazzi é artista, tem 130 quilos, estudou na Europa e usa sua arte para discutir a violência. Alexandre Tommazzi, seu irmão, é dono de uma rede de academias, religioso, daqueles que prezam a família e os bons costumes. Durante uma palestra em um seminário sobre a violência, Raquel é espancada em cima do palco por um homem que tem ligação com seu irmão. Esse acontecimento repercute no meio artístico, e uma cineasta europeia vem até o Brasil para entrevistar Raquel e Alexandre sobre esse acontecimento para um documentário que trata, também, da violência. 

Edgar Wilson trabalha recolhendo restos de animais mortos na beira da estrada. Quem já andou pelas estradas do interior sabe bem o quanto essa cena é comum: gambás, tatus, aves, cachorros, gatos, vacas… Não são poucos os animais que colidem com veículos e que assustam e até matam quem é surpreendido por eles. Mas Edgar não não se preocupa com quem atropela, e sim com o atropelado. Seu trabalho é recolher os animais, não os humanos. Ele é o protagonista de Enterre seus mortos, de Ana Paula Maia (Companhia das Letras), livro que foi finalista do Prêmio Jabuti.

Gustavo Melo Czekster lançou sua primeira coletânea de contos, O homem despedaçado, em 2011 (Dublinense). Foi uma ótima estreia, e até hoje está entre meus livros favoritos de literatura brasileira. “Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de autoconhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo”, escrevi sobre o livro na época. Em 2017, o segundo livro do autor foi lançado pela editora Zouk, Não há amanhã, com tema diferente de sua primeira obra, mas ainda com a narrativa afiada e inventiva que me fez gostar de seus contos.

Em 1985, um parque está prestes a inaugurar no coração da floresta Amazônica. Tupinilândia é a exaltação da cultura brasileira: Artur Arara recebe de asas abertas o público adulto e infantil que poderá se encantar com montanhas-russas, carrosséis, réplicas de dinossauros, encontrar antigos personagens queridos da ficção e da realidade, tudo regado ao melhor da produção nacional. Tupinilândia não é só um parque de diversões, mas também uma cidade milimetricamente planejada. Como o município mais perto fica a dezenas de quilômetros de distância, os funcionários do empreendimento vivem dentro do complexo, contando com uma estrutura bem abastecida para atender a todas as suas necessidades. Tupinilândia é um sonho que está se tornando realidade. Ou quase.

Já devo ter comentado em algum texto, acredito, sobre aquilo que eu pensava que gostaria de ser quando adulta. Aos 15 anos, decidi estudar jornalismo, sonhando, sei lá, ser uma correspondente internacional, fazer grandes matérias, escrever sobre aquilo que eu acreditava ser importante e fazer diferença para o mundo. Aos 17, indo para a faculdade, estava empolgada com as aulas, ansiosa para começar a trabalhar feito uma louca em algum jornal, crente de que iria aguentar o tranco. Também estava feliz em um relacionamento que indicava durar para sempre, imaginando um futuro em que dividiria um espaço só meu com alguém que amava. Não preciso nem dizer que tudo saiu bem diferente do planejado. Não só deixei o sonho de ser uma grande jornalista de lado como estou em outra cidade, dividindo um apartamento com uma amiga, sem nenhum sinal de relacionamento ou amor no horizonte. E estou bem satisfeita com isso, ou pelo menos com parte disso.

A terra neste lugar já foi próspera, mas não se pode dizer o mesmo nos dias de hoje. Plantação nunca vingou muito, só para o sustento. Criação ninguém nunca teve muita para dela tirar lucro. A riqueza que havia ali vinha das pedras, do garimpo de diamantes que levou até lá homens em busca de riqueza, e que caíram nas mãos controladoras de um coronel capaz de confiscar as próprias ferramentas de trabalho como pagamento de dívidas que ele forçou seus homens a adquirir. Hoje eles continuam a trabalhar com menos afinco que antes, mas com esperança e desespero maior, movidos pela fome em busca da última pedra.

Em Tempo de espalhar pedras, Estevão Azevedo acompanha a vida de quatro personagens nessa terra sem nome: Ximena, filha de um dos garimpeiros mais velhos, se engraça com Rodrigo, este caçula de garimpeiro rival, Diogo. Ainda há Joca, seu irmão, que busca uma forma de mostrar seu valor, se não para a família que seja para Bezerra, amigo que o acolhe na busca pela pedra em local escondido das fuças do coronel. E, por fim, Silvério, o carola que reza enquanto, alucinando de fraqueza e fome, procura convicto a pedra que se esconde quiçá debaixo da própria casa.

Enquanto Deus não está olhando, o mundo inteiro pode mudar e você nem perceber. É o que o pai de Érica diz, internado no hospital, debilitado pelos anos de alcoolismo. A frase, em si, demora para aparecer no romance de Débora Ferraz, vencedor do Prêmio SESC de Literatura de 2014. Na verdade, a palavra (ou nome) “Deus” é pouco citada durante toda a narrativa de mais de 360 páginas, mas ainda assim é o que dá título ao livro. Enquanto Deus não está olhando é sobre mudanças, e sobre como lidar com elas.

Érica Valentim é a narradora, uma jovem pintora de 20 e poucos anos. Ela está perdida, em busca de um pai que sumiu: um pai alcóolico, que não a compreende e nem aprova sua escolha profissional, mas que mesmo assim é amado e procurado pela filha. Na busca, ela é acompanhada, ou melhor, amparada, por Vinícius, um velho amigo com quem não mantinha contato há cinco anos. No desespero, ela liga para ele, e ele a ajuda. Eles têm uma história mal resolvida, e o retorno do contato é permeado pela tensão desses anos sem se falar. Enquanto procura o pai, Érica evita pisar na garagem recém transformada em ateliê, uma reforma caseira que seu pai com certeza não aprovaria. Mas ela nem teve chance de contar a novidade a ele, pois antes disso ele sumiu de sua vida. Só não da maneira como as primeiras páginas do romance dão a entender.

Felicidade é ter status, conhecer pessoas, ser convidado para festas. É ter um emprego badalado, que paga bem e te faz conhecer mais pessoas e ir para mais festas. Essas afirmações podem ser verdadeiras para muitos jovens de hoje. Mas para Davi, protagonista e narrador de A festa é minha e eu choro se eu quiser, romance de estreia de Maria Clara Drummond, não há felicidade nisso – nunca houve. Nem todos os amigos do mundo são capazes de fazer você esquecer que está insatisfeito, sem saber com o quê ou por quê. A vida é mais complicada que uma noite de festas e um círculo social da modinha, e felizmente (ou infelizmente), não são todos que possuem uma autoconsciência capaz de lhes dizer que aparentar felicidade não é o mesmo que ser feliz.

Davi é um cineasta do Rio de Janeiro que aceita um emprego para dirigir vídeos publicitários em São Paulo. É um jovem bonito, com um bom salário, que frequenta festas todas as noites e também viaja para Berlim. Mas é a sua autoconsciência a responsável pela narrativa. Ela aponta o que parece falso nas relações que mantêm e nas que observa durante as noitadas com seus supostos amigos. Ela o lembra de seu passado pouco popular, de quando era um menino gordinho que tomava antidepressivos e dormia no palco durante uma apresentação da feira de ciências. Ela repete o tempo todo que ele está perto do fracasso, que seu sucesso não é real e logo ele será desmascarado. Ela o trava, o desanima e o arrasta para um buraco interno do qual ele luta para sair.