Amar não é para todos. Talvez essa frase seja realidade para quem tem dificuldade em lidar com pessoas. De estar em volta delas, ouvindo suas histórias, seus problemas, vendo fotos não solicitadas dos seus filhos. Para quem gostaria de viver o máximo possível longe da maioria dos seres humanos. Para uma pessoa que seria considerada antissocial, grosseira, egoísta. Mas o que as pessoas não veem, que está além da grosseria, é que essas pessoas amam. Só que é um amor escondido, direcionado a pouquíssimas pessoas. 

No começo do ano, postei uma pilha de livros que eu gostaria de ler em 2021. Tinha Joan Didion, Svetlana Aleksiévtich, Audre Lorde, clássicos como Mrs. Dalloway, Eu sou um gato e O grande Gatsby – como não leio muitos clássicos, queria dar mais tempo para eles. Ontem retornei a essa foto e postei ela novamente no Instagram apenas para dizer: é, não rolou. Nenhum daqueles livros foram lidos. Ainda quero ler? Óbvio, claro. Mas eu falhei totalmente em fazer isso nesse ano.

A pessoa quando deprimida não vê esperança e sentido em nada. A vida pessoal parece estagnada — e se não estagnada, em constante decadência. A crença no trabalho acaba, a pessoa duvida de suas capacidades e até da utilidade da sua existência. E é difícil identificar qual a razão dessa depressão. É uma tristeza que invade sua mente e seu corpo, e aos poucos vai se alastrando como um vírus, impossível de ser contido pelos nossos anticorpos — as frases motivacionais, os objetivos a serem alcançados, as pessoas que amamos. Antônio Xerxenesky escreveu em Uma tristeza infinita (Companhia das Letras) uma história que retrata muito bem essa sensação de que nada mais vale a pena e tudo vai desmoronar. 

Nada como uma tragédia familiar para te fazer ficar presa em um livro. Sou da opinião de que todo leitor de ficção é um grande fofoqueiro, então essas histórias são perfeitas para a sede de fofoca que habita em nós. Histórias de gente que podemos imaginar como sendo nossos vizinhos, fuxicando uns com os outros sobre a vida alheia e seus segredos. Foi com isso em mente que li Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, um sucesso literário dos anos 1950 que ganhou nova edição pela Companhia das Letras. 

Muita gente recomendou que eu lesse Copo vazio, de Natalia Timerman (Todavia) por causa do podcast PPKANSADA. Caso você não saiba, sim, participo de um podcast com esse nome. Um dos episódios foi uma conversa sobre ghosting, a prática de sumir sem dizer nada e deixar a outra pessoa lá só divagando o que pode ter acontecido. Odeio sofrer ghosting, mas não vou mentir dizendo que nunca dei um. Todo mundo passa por isso em algum momento da vida, principalmente se a pessoa em questão foi um match do Tinder. Com a protagonista de Copo vazio não foi diferente. 

Uma das coisas que contribuem para a falta de vontade de viver, para mim, é quando a minha casa está desarrumada. Não sou a pessoa mais organizada, nem a mais limpinha, mas se eu deixo a casa chegar a um estado de quase abandono, meu humor só piora. A irritação aumenta conforme cresce a poeira em cima dos móveis. Limpar a casa acaba sendo, então, uma forma de terapia. Ver o chão limpo, as coisas no seu lugar, a louça lavada… Isso traz uma paz de espírito. Lendo Os tais caquinhos, de Natércia Pontes (Companhia das Letras), reafirmei isso para mim mesma: minha casa reflete meu (des)equilíbrio mental. 

Raquel Tommazzi é artista, tem 130 quilos, estudou na Europa e usa sua arte para discutir a violência. Alexandre Tommazzi, seu irmão, é dono de uma rede de academias, religioso, daqueles que prezam a família e os bons costumes. Durante uma palestra em um seminário sobre a violência, Raquel é espancada em cima do palco por um homem que tem ligação com seu irmão. Esse acontecimento repercute no meio artístico, e uma cineasta europeia vem até o Brasil para entrevistar Raquel e Alexandre sobre esse acontecimento para um documentário que trata, também, da violência. 

Edgar Wilson trabalha recolhendo restos de animais mortos na beira da estrada. Quem já andou pelas estradas do interior sabe bem o quanto essa cena é comum: gambás, tatus, aves, cachorros, gatos, vacas… Não são poucos os animais que colidem com veículos e que assustam e até matam quem é surpreendido por eles. Mas Edgar não não se preocupa com quem atropela, e sim com o atropelado. Seu trabalho é recolher os animais, não os humanos. Ele é o protagonista de Enterre seus mortos, de Ana Paula Maia (Companhia das Letras), livro que foi finalista do Prêmio Jabuti.

Gustavo Melo Czekster lançou sua primeira coletânea de contos, O homem despedaçado, em 2011 (Dublinense). Foi uma ótima estreia, e até hoje está entre meus livros favoritos de literatura brasileira. “Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de autoconhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo”, escrevi sobre o livro na época. Em 2017, o segundo livro do autor foi lançado pela editora Zouk, Não há amanhã, com tema diferente de sua primeira obra, mas ainda com a narrativa afiada e inventiva que me fez gostar de seus contos.