O primeiro parágrafo já tinha me pegado de jeito logo na primeira leitura, lá quandoNoites de alface era só um capítulo solto dentro da Granta dos 20 melhores jovens escritores brasileiros. Não sou de colecionar “inícios marcantes” de romances, novelas ou contos, mas acho que vou começar a fazer isso agora:

Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoitos abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.

Em um parágrafo de poucas linhas, Vanessa Barbara passa ao leitor toda a dimensão emocional da história: Ada morre inesperadamente, e deixa uma falta enorme em sua casa. Falta que irá permear todo o romance. No parágrafo seguinte, sabemos quem é que realmente vai sofrer com essa perda: Otto, o homem com quem é casada desde 1958 e que nunca saiu do lado dela por mais de 50 anos. Ada era a única pessoa com quem Otto se importava e falava. Na pequena cidade do interior, na casinha amarela prensada entre outras casas que ocupam o morro em que está localizada, é apenas com ela que ele interage. Não possuem filhos ou parentes próximos, e Otto só nutre amizade com uma pessoa, o Sr. Tanaguchi, um ex-soldado japonês da Segunda Guerra que agora sofre de Alzheimer (e que, por conta disso, Otto não visita mais).

Eu tenho um celular da moda. Roupas da moda. Talvez pudesse ter um carro da moda, um apartamento decorado por um decorador famoso, livros de design na mesinha de centro, a televisão mais cara, com mais polegadas e mais funções extras além da tradicional função de “ver TV” que provavelmente eu deixaria ligada a tarde inteira sem mal olhar para ela. Poderia ter essas coisas se economizasse, ou se eu me importasse com elas. Mas muita gente se importa, principalmente hoje. Ter é ser. É status. E há quem dê mais valor a isso do que às coisas que realmente são importantes.

Clarissa é uma menina de 11 anos muito mais madura do que sua idade aparenta. Ela é a filha única de Lorena e Augusto, um casal de publicitários donos de uma agência que moram no bairro mais bem localizado da maior cidade do país, tem o melhor carro, os melhores gadgets, os melhores amigos ricos e a melhor TV “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (embora nunca estejam em casa para usufruir das centenas de canais da TV a cabo nesse lindo aparelho). Clarissa é bem solitária, tem poucos amigos na escola, está um pouco acima do peso e usa roupas estranhas, maiores para o seu tamanho, todas presente de uma mãe que não sabe nem qual é a numeração das calças da filha. Ela esquenta sua comida sozinha, brinca com seu gato, Zazzles, e assiste a programas na televisão “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (prefere os documentários, nunca aproveita a tal conexão à internet) até a hora de dormir, e talvez nem veja seus pais no fim do dia. Clarissa é jovem demais para ter a vida medíocre e triste que Luisa Geisler narra em Quiçá, seu primeiro romance.

Um escritor que vai para Dublin passar um tempo para escrever um livro ambientado na cidade provavelmente vai falar de James Joyce em algum momento da narrativa, certo? Errado. Nem usar o estilo Ulysses de ser? Talvez. Mas a referência pode não ser assim tão clara, e aí você passa um livro inteiro sobre Dublin sem nem pensar em Orlando Bloom, Molly, Joyce e companhia. Melhor fugir do clichê. Quem esperaria um pouquinho da grande obra joyceana em Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari, pode se decepcionar um pouco, mas apenas nesse aspecto. Só porque se passa em Dublin e as personagens não sabem muito bem o que fazer com a vida e as coisas simplesmente “acontecem” com elas, não quer dizer que Joyce deveria estar ali aparecendo nas entrelinhas de cada página – na verdade ele aparece, quando o protagonista fala de “turistas pretensiosos”. Esse parágrafo só está aqui para dizer que não pensei em Joyce em momento algum da leitura, e isso foi bom.

Nos idos de 1750, o Brasil era um território divido entre portugueses e espanhóis. Nas terras gaúchas, jesuítas catequizavam e auxiliavam os índios guaranis, que eram mortos aos montes pelos soldados portugueses e espanhóis durante disputas pelo território. A ciência ainda estava engatinhando, ser esclarecido era ser excêntrico, muitos livros eram proibidos e, no caso dos brasileiros, tinham que ser importados pois não era permitido imprimir uma folha sequer no Brasil (pensamento paralelo: engraçado pensar que ainda hoje reclamam do acesso aos livros – preço e oferta – quando eles pululam por aí. Se bem que, em alguns locais, realmente é complicado). Pouco sei sobre esse Brasil, não li muitas histórias sobre ele, ou elas nunca me pareceram muito interessantes a princípio. Felizmente, o novo livro de Samir Machado de Machado superou a barreira do desinteresse e me presenteou com quatro ótimas histórias ambientadas nessa terra cheia de conflitos, com muitas aventuras e exaltação da leitura e dos livros.

Existe um fetiche por trás das road trips de filmes de Hollywood. Nelas não há filas e o incômodo de uma rodoviária ou aeroporto, não existem atrasos, pois sendo um viajante de carro sem destino você provavelmente não se importa com o tempo da viagem, e geralmente não existem congestionamentos – pois pode-se seguir por caminhos alternativos, afastados, desconhecidos, onde há só o carro e a estrada. Tudo isso dá uma sensação de imensa liberdade, você não tem destino definido, pode sair dirigindo a hora que quiser, pode mudar de ideia no meio do caminho e alterar todo o seu trajeto. Mas a maior liberdade está no fato de que você pode fazer uma road trip: largar por alguns dias ou semanas trabalho, aula, família e todos os problemas que existem e desfrutar da solidão da estrada, correndo o risco de viver uma experiência única ou passar por momentos de tédio absoluto. Mas não importa, ainda sim, prevalece o fato de que você é livre para fazer isso. Esse foi o motivo número um de eu começar a ler Todos nós adorávamos caubóis, terceiro livro de Carol Bensimon.

Lawanda tem 19 anos de idade, um emprego de faxineira num hospital, uma coleção de besouros e uma deficiência mental. Que deficiência é essa não sabemos ao certo, mas em um momento específico ela se diz “meio autista”. O que importa é que ela é capaz de limpar cada centímetro do hospital no turno da noite, que inicia às 18h todos os dias. Quando não está lá, está em seu quartinho alugado e pago pela tia religiosa. Nesse quarto ela tem uma “cama de meteorito”, uma poltrona e um armário, onde guarda nas gavetas suas caixas de besouros gordinhos e rabugentos e uma coleção de macumbas feitas com suas calcinhas, que possui borboletas mortas costuradas nelas com inúmeros desejos. É essa, em resumo, a sua vida.

Dentro de si, o homem guarda impulsos sombrios. Por fora, a imagem é de uma pessoa normal, incapaz de pensar em alguma atrocidade contra outro ser humano, ainda mais de praticá-lo. Mas por mais direito, ético e bem apessoado que alguém possa parecer, a verdade é que todos guardam em seu íntimo algo nebuloso, um desejo maléfico ou vontade de, em alguns momentos, praticar em alguém algo dolorido como castigo ou escape. São momentos assim os narrados nos breves contos de Flavio Torres em seu primeiro livro, lançado pela Não Editora, Monstros fora do armário.

Nascido em Niterói, mas criado em Porto Alegre, o currículo de Flavio como ficcionista é parecido com o de vários outros autores publicados por essas bandas: participação na oficina de Luiz Antonio de Assis Brasil – provavelmente uma das oficinas de criação literária mais famosas do país – e também dos seminários de criação literária de Léa Masina. Ou seja, exercício criativo não faltou.

Há sempre altas expectativas quando um futuro lançamento é muito comentado. Se os burburinhos sobre um livro já se espalham com entusiasmo mesmo antes de ele ficar pronto, significa que há algo grande vindo por aí. Quando um trecho desse livro é selecionado entre os 20 melhores da ficção brasileira para ser publicado em uma revista de renome, o nível de curiosidade e certeza de que o livro será bom só aumenta. Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, deve ter sido um dos lançamentos nacionais mais comentados de 2012, com direitos de tradução vendidos para outros países antes mesmo de chegar às livrarias. Um bafafá danado. Apnéia, título que deu ao primeiro capítulo da obra que foi publicado na Granta, foi um dos textos que mais gostei da coletânea. É óbvio que o livro seria lido com curiosidade e entusiasmo.

O fim da leitura não ficou abaixo e nem superou as expectativas: era o que eu esperava, um livro bom. Não maravilhoso, fenomenal, a melhor coisa que li na vida, apenas bom. Faz sentido começar comentando sobre o que ficou ao encerrar a leitura, pois é com o final que ela começa. Não é o primeiro capítulo publicado na Granta que abre o livro, mas sim um prólogo onde um homem narra em primeira pessoa uma história sobre um tio que nunca conheceu, cuja vida decidiu investigar depois de sua morte. Contudo, ao ler a sinopse o leitor já sabe que o protagonista do romance não procura desvendar o que aconteceu com a vida de seu tio. Ele quer saber da vida de seu avô. Um início que pode confundir alguns leitores, ou deixá-los em alerta para o desfecho da história antes mesmo de começar a enveredar por ela.

Não há amor, apenas isso. O que existem são trepadas, como diz a narradora-protagonista de O que deu para fazer em matéria de história de amor, de Elvira Vigna, publicado pela Companhia das Letras. Trepadas rápidas contra pias de banheiro, de relacionamentos que não são relacionamentos, apenas atrações físicas que ora existem, ora não, e que persistem nesse vai e vem por 30 anos de sua vida. Ela, que não é nomeada, poderia ser só chamada de narradora, pois a história que conta, a princípio, fala de outro casal. Ou outros casais.