Ultimamente os romances breves têm me agradado muito. É estranho lembrar de quando era adolescente, eu empolgada com a descoberta da leitura querendo ler os maiores livros que eu encontrava na biblioteca – se tivesse menos de 400 páginas não me interessava. Naquela época havia tempo livre e mais energia para isso. Não que eu não goste dos livros grandes hoje, mas depois de certo período lendo o mesmo romance, fico com a sensação de que a leitura está se arrastando, quando o problema ne verdade é não ter mais aquelas preciosas horas para dedicar a um livro. Tudo isso só para dizer que os livrinhos que eu desprezava naquela época de descoberta literária hoje estão entre as minhas melhores experiências.

No ano passado, uma das minhas leituras favoritas foi Bonsai, do chileno Alejandro Zambra. O que me encantou no livro foi a forma econômica que ele utilizou para escrever o romance, cortando tudo aquilo que fosse enfeite, penduricalho estilístico, deixando apenas o básico que uma narrativa precisa para funcionar. Isso não significa de forma alguma que o texto seja seco e bruto, sem emoção. Bonsai é carregado de sentimento, de paixão, e cada linha era lida com certo ar aparvalhado de surpresa. É possível escrever um grande romance com poucas páginas. As opiniões sobre o livro de Zambra foram quase unânimes – é impossível que qualquer coisa agrade a todos –, e com certeza o tamanho do romance teve algum efeito sobre a lista de livros lidos de muitos conhecidos.

“Esta é, então, uma história leve que se torna pesada. Esta é a história de dois estudantes devotados à verdade, a dispersar frases que parecem verdadeiras, a fumar cigarros eternos e a se fechar na violenta complacência dos que se creem melhores, mais puros do que o resto, do que esse imenso e desprezível grupo que chamam de o resto.”

11941-Detetives selvagen#12566AUlises Lima e Arturo Belano podem parecer meros coadjuvantes que uma vez ou outra aparecem na vida de Juan García Madero, a personagem que inicia os relatos através de seu diário em Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño. Ok, é só ler a orelha do livro para saber que os protagonistas são Belano e Lima, o que já encaminha a concentração do leitor para as aparições dessas duas personagens. Mas por mais que sabemos que tudo gira em torno dos dois jovens poetas e suas andanças pelo México e também pelo mundo, é impossível não se deixar levar pelas histórias daqueles que conviveram – muito ou pouco – com eles.

O romance inicia no México da década de 1970. Arturo Belano, um chileno, e Ulises Lima, mexicano, são dois jovens criadores do real-visceralismo, um grupo de poetas da capital que passa os dias na boemia enquanto escrevem, leem e discutem a poesia atual do país. Belano e Lima se empenham na investigação da vida e obra daquela que seria a mãe dos reais-visceralistas, a poeta vanguardista Cesária Tinajero, cuja poesia poucos leram e se perdeu nos anos 1920 na revista que havia organizado, assim como sua própria figura, desconhecida de muitos. Dividido em três partes, essa história começa – e termina – a ser narrada por García Madero, um estudante de direito e poeta de 17 anos que se une aos real-visceralistas e conta ao leitor suas novas experiências – a primeira vez, os porres tomados com os poetas que agora segue e o cotidiano do meio artístico da capital mexicana que aos poucos vai descobrindo.