Mudança era para ser um livro sobre as mudanças pelas quais a China passou nos últimos 30 anos. No povoado rural em que nasceu, Mo Yan viveu os últimos dias da era maoista, vivenciou a Revolução Cultural e se tornou escritor enquanto a China caminhava para um grande crescimento econômico. Mas o livro, uma encomenda feita por Tariq Ali para a coleção What Was Comunism, acabou tomando outra forma do que um relato preciso sobre as transformações da China comunista. Na verdade, é uma “autobiografia ficcionalizada” em que Mo Yan mostra a mudança por um viés mais humano, focado nas pessoas de seu povoado e em um velho caminhão soviético.

Um caminhão soviético porque, desde quando ainda estava na escola, a vida de Mo Yan esteve ligada ao Gaz 51 dirigido pelo pai de uma de suas colegas, Lu Wenli. Na comunidade rural em que cresceu, dirigir um caminhão conferia um status superior ao seu motorista e sua família, pois poder sentar atrás de um volante e ser responsável por ele era um sinal de importância que deveria ser respeitado. Havia satisfação em ver o Gaz 51 percorrendo as ruazinhas, levantando poeira sem se importar com o que vinha pela frente – o que causava a morte de muitas galinhas por atropelamento. Todas as crianças sonhavam em sentar no banco do caminhão com o pai de Lu Wenli para sentir sua velocidade.

O dinheiro conseguido com sangue é sagrado. Nos campos da China do final dos anos 1950, o homem que vendia seu sangue era visto como forte, saudável, um bom partido para as filhas dos camponeses. Isso porque possuía sangue em abundancia e bom o suficiente para receber por ele. Já nas cidades, o sangue é algo tão sagrado que vendê-lo é quase como dar a própria vida. O que aqui chamamos de ato solidário, doar para aqueles que necessitam, nessa China constitui um mercado negro em que as pessoas davam sua energia em troca de dinheiro – e precisavam, inclusive, levar mimos ao “Chefe de Sangue” para que ele aceitasse comprá-lo. E o que deveria ser feito esporadicamente vira um hábito que suga a vida das pessoas transformando-as em vítimas.

O mercado negro de sangue da China é o ponto de partida de Crônica de um vendedor de sangue, romance do escritor chinês Yu Hua, que mostra como gradualmente seu protagonista utiliza a sua “energia” para solucionar os problemas de sua família. Xu Sanguan – o nome faz parecer que é seu destino viver de sangue – é um funcionário de uma fábrica de seda de uma pequena cidade, casado com Xu Yulan, com quem teve três filhos: Yile, Erle e Sanle. A família vive tranquilamente até Xu Sanguan descobrir que seu primogênito é, na verdade, filho de outro homem. A rejeição do filho até então favorito é imediata, mas como seu verdadeiro pai não reconhece Yile, Xu Sanguan deve passar por cima dos próprios ideais para conviver com o primogênito e aceitar que, apesar de não terem o mesmo sangue, ser ainda assim seu pai.