É ridículo que, ainda em 2019, as pessoas viram a cara ou dão um a risadinha vergonhosa quando falamos de literatura erótica. Acho que já estamos em um tempo em que o fato de as pessoas transarem – e de gostarem disso – não deveria ser motivo para tanta comoção. É claro que, na literatura, temos muitos exemplos de cenas sexuais pobremente narradas, outras totalmente constrangedoras, outras tão obscenas que é até ok dar aquela corada. Desde sempre se escreveu sobre sexo, de forma explícita ou não, então isso não é nenhuma novidade. A novidade é quando é bem escrito, sem tocar no assunto como algo vergonhoso ou escrachado.

“Masoquismo é uma tendência ou prática parafílica, pela qual uma pessoa busca prazer ao sentir dor ou imaginar que a sente.”

Isso é o que Wikipedia diz sobre masoquismo. Nada muito complexo, apenas isso mesmo: encontrar o prazer na dor, ou na sensação de estar sentindo dor. Ser amarrado, chicoteado, socado, cortado, quiçá xingado, humilhado e até traído. A dor pode ser física ou também mental, mas é isso o que buscam: uma submissão que só pode ser conquistada com a confiança – pois no final você sabe que é só ali, na hora do sexo, e depois tudo voltará à velha forma de antes. O termo foi inspirado no nome de Leopold von Sacher-Masoch por conta do livro A Vênus das peles, uma das primeiras narrativas em que o desejo da dor como meio de atingir o prazer sexual foi narrado na literatura, escrito em 1870 – e que, claro, causou o maior escândalo na época. O livro ganhou uma nova edição pela Hedra em 2015 com tradução de Saulo Krieger.

Severin é um jovem rico quando conhece Wanda, uma viúva tão bem financeiramente quanto ele. A inicial admiração pela beleza da mulher logo se transforma em juras de amor, juras que encontram resistência na própria mulher que, amante da própria liberdade, sabe que seu desejo por Severin não será eterno. Mas, louco de paixão, ele se entrega à sua visão da Vênus em carne e osso – e peles. Uma entrega tão grande que ele lhe revela suas predileções, que consistem em ser maltratado, amarrado e espancado, tratado como um escravo ávido por satisfazer os desejos de sua “dona”. Apesar de nunca ter praticado tais atos, Wanda aceita, com algumas objeções iniciais, ser a Vênus das peles de Severin.