No início dos anos 1980, a Espanha vive seus anos de liberdade após o fim da ditadura franquista. Francisco Franco ficou no poder de 1936 até sua morte, em 1975, e o país viveu tempos obscuros durante esse período. O que aconteceu entre opositores e apoiadores de Franco nestes anos raramente era comentado logo após as primeiras eleições livres, e os espanhóis, principalmente os jovens, aproveitavam essa liberdade, enquanto os que viveram os anos de ditadura preferiam não lembrar os detalhes do que aconteceu. Mas esse silêncio é quebrado, em parte, por Juan de Vere, um jovem de 23 anos contratado pelo cineasta Eduardo Muriel para ser seu assistente.

Em 2011, Enrique Vila-Matas aceitou o convite para participar da Documenta, uma exposição de arte sediada na cidade de Kassel, na Alemanha (seria Kassel a Inhotim da Europa?). Conhecido como um evento que apresenta o que há de mais novo no mundo da arte, o rótulo vanguardista da Documenta, à princípio, não o deixa muito animado. É da arte vanguardista que seus colegas riem, pensa o escritor, são ideias “inovadoras” facilmente rejeitadas. Mas esse não é o tipo de pessoa que ele quer ser, alguém que zomba daquilo que propõe ser novo, inédito, diferente. Aceitando participar, viaja à cidade onde fica por alguns dias, mais contemplando as obras e refletindo sobre a literatura e a arte do que, de fato, sendo parte da obra – ou, pelo menos, da obra que ele deveria representar. O relato – romanceado – desse convite e de sua participação está em Não há lugar para a lógica em Kassel, recém-lançado no país com tradução de Antônio Xerxenesky. A tarefa de Vila-Matas na Documenta é sentar em um restaurante e escrever, assim como outros colegas escritores fizeram. Escrever e interagir com possíveis curiosos que venham lhe perguntar o que está escrevendo. Dar ao visitante a oportunidade de conversar com o autor sobre seu processo criativo enquanto ele está realmente criando, quem sabe. Mas a perspectiva de passar dias sentado à mesa de um restaurante chinês durante algumas horas em uma cidade alemã não lhe é muito empolgante, e logo a animação que sente ao raiar do dia vai sendo soterrada pela ansiedade de estar à espera de ninguém tendo que escrever “ao vivo”.

O verão de 1978 foi atípico para Ignacio Cañas, um jovem catalão da classe média, na cidade de Girona. De um adolescente com uma rotina normal, com amigos da escola e uma família tradicional, ele terminou o ano letivo sendo perseguido por um colega valentão, amedrontado pelos ataques e insultos de seus antigos amigos e travando discussões com o pai. Com 16 anos, a escola não era mais um lugar suportável, sair na rua não era mais divertido, pois a qualquer momento ele poderia topar com seu algoz, e sua casa se tornou um lugar insuportável de ficar. Até que um dia, em um dos fliperamas da cidade, conheceu Zarco e Tere. Jovens que nem ele, praticamente seus vizinhos, mas vindos de um outro lugar, separados de Cañas por um abismo enorme criado pela desigualdade.

Zarco e Tere eram quinquis, gíria catalã para “delinquentes juvenis”, moradores da parte mais pobre da cidade. Nesse dia, no fliperama, convidam Cañas para se juntar a eles em um bar no bairro chinês, conhecido na época por abrigar os traficantes, bandidos e prostitutas de Girona. Qualquer garoto teria declinado o convite e saído correndo amedrontado ao ser “recrutado” para sair com pessoas como Zarco e Tere, mas não Ignacio. Ele já não tinha muito a perder, e o interesse por Tere o convenceu a aparecer no bar depois de alguns dias. E aí a última peça da gangue juvenil mais famosa da Espanha se integra ao grupo, e a história de As leis da fronteira começa.

Há um certo perigo na literatura experimental, que é o leitor não entender direito qual é a intenção do autor. Por que a estrutura desse livro é assim? O que esse capítulo tem a ver com o anterior – e com o próximo? Por que tantas personagens e histórias paralelas? Eu só queria ler uma boa história, mas já estou na página 100 e ainda não entendi qual é a desse livro… Quando me perguntavam o que eu estava achando de Nocilla dream, primeiro livro da trilogia de Agustín Fernández Mallo, era essa a minha resposta: “não entendi qual é a vibe do livro ainda”.

Mas você não precisa saber resumir o enredo de um livro em 140 caracteres para que ele seja bom. É só deixar se levar capítulo a capítulo até a última página para reconhecer o potencial da narrativa e tentar elaborar algumas interpretações e explicações. Pois é melhor, então, falar daquilo que me pareceu mais importante na obra de Mallo: o álamo no meio do deserto de Nevada. Nesse deserto, todos os álamos pereceram, mas restou apenas um, perdido no nada, e carregado de pares de sapatos presos em seus galhos pelos cadarços. Botas, tênis, sandálias, são centenas de pares que, apesar de ocuparem todos os cantos da árvore, não a danificam. Ela segue viva.

O ser humano é um animal dotado de racionalidade que tem todas as escolhas nas suas mãos. Pode escolher seguir os impulsos instintivos do que ainda resta de sua natureza selvagem, ou viver em harmonia com a sociedade seguindo as suas regras éticas e morais. É da escolha dele viver intensamente ou prezar pela tranquilidade dos fins de semana em casa. É totalmente sua a responsabilidade de se empenhar nos estudos e trabalhar arduamente para, anos depois, recolher os frutos na aposentadoria. Ou vagabundear pelo mundo sempre sem dinheiro, mas com liberdade. E também é da escolha dele, simplesmente, viver ou tirar a própria vida. Sim, nós podemos deixar a existência física – e eu acredito, a consciência – no momento em que quisermos. Nós podemos nos matar, suicidar. Mas nem todos conseguimos.

Em Suicídios exemplares, o catalão Enrique Vila-Matas elenca uma série de histórias em que os protagonistas flertam constantemente com a opção da morte. Não são personagens deprimidas, num todo, como o leitor pode imaginar ao começar a ler o livro. O suicídio, muitas vezes, não é o deles, mas de alguém em volta que por algum motivo exerce alguma atração em pensar sobre a própria morte, imaginar inúmeras possibilidades de se deixar levar por ela. Mas ela, apesar de rondar quase todas as linhas desse livro, nem sempre é alcançada.

Falar de amor é passatempo preferido da literatura. Amores, paixões, relacionamentos que se formam ou que se desgastam são matéria-prima para a maioria dos romances – quando se fala em “romance”, o gênero, muitos não familiarizados tendem a confundir com uma história de amor, um livro sobre uma moça que encontra um rapaz e eles-se-apaixonam-e-devem-enfrentar-vários-desafios-para-ficarem-juntos. Esse seria um esquema clássico de uma história de amor. Mas Os enamoramentos, de Javier Marías, passa longe dessa fórmula. Não parece ser uma história de amor, mas uma história sobre o amor, em suas formas mais variadas e que impulsionam ações não necessariamente corajosas ou moralmente belas.

María Dolz trabalha em uma editora em Madrid, e todos os dias pela manhã toma seu café em uma cafeteria perto de seu escritório. E todos os dias observa aquele que chama de Casal Perfeito, um homem e uma mulher que estão também todas as manhãs naquele café, às vezes com os filhos pequenos, às vezes sozinhos, mas sempre o motivo de María chegar atrasada para o trabalho. O que ela sente ao observar esse casal não é inveja, como muitos poderiam pensar – porque o amor alheio dá inveja, sim, naqueles que não têm um amor ou contam apenas com um caso mal resolvido. O que prende sua atenção é a forma como parecem se amar incondicionalmente, como o humor do homem e da mulher combinam, como parecem perfeitos um para o outro e inabaláveis. Até que ele morre.

“Todos nós conhecemos os bartlebys, seres em que habita uma profunda negação do mundo.” Eu posso me considerar uma bartleby – não estava conseguindo começar esse texto e pensei em desistir. Escrevê-lo agora me torna uma não-bartleby, ou uma não adepta do Não. Mas tenho certos traços dessas pessoas, o que me fez simpatizar com o livro logo nas primeiras páginas. Bartlebys não são preguiçosos, como pode parecer, apenas não fazem, ou não são. O adjetivo vem de Bartleby, o escrivão, de Herman Melville, um homem que a partir de certo momento da vida resolveu negar qualquer atividade com um “preferiria não o fazer”. No caso de Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas, a negação é a da literatura. Seu protagonista é um velho corcunda que já publicou um livro, trabalha em um “escritório pavoroso” e não escreve mais há 25 anos. Mas em 8 de julho de 1999 resolve iniciar um diário, um catálogo de adeptos do Não.

Dizer que ele voltou a escrever não seria o mais certo. O que ele coloca no papel são notas de rodapé para um texto invisível, pois ele é um bartleby, e para continuar sendo, não pode escrever. A função desse seu diário é apresentar a um leitor ocasional outros bartlebys da literatura que dividem com ele o panteão dos não-escritores.