Quando o conto “Cat Person” foi publicado na revista New Yorker, em 2017, foi o maior furor. Muitos leitores se identificaram com o texto de Kristen Roupenian que narra o flerte de uma garota de 20 anos com um cara de 30, de como a relação foi se desenvolvendo via mensagem de texto e como ela desandou completamente após o primeiro encontro. Muitos confundiram o texto de ficção com um relato real – totalmente equivocados. E o texto, claro, gerou toda uma discussão também sobre a dinâmica dos relacionamentos atuais, consenso, expectativas e tudo o mais. Foi o texto de ficção mais compartilhado da New Yorker, então é óbvio que isso chamou a atenção dos editores. Com esse sucesso, Roupenian acabou conseguindo um contrato de publicação, e assim surgiu Cat Person e outros contos.

“A vida de Sueco Levov, até onde eu sabia, fora a mais simples, a mais comum e portanto fora ótima, bem de acordo com o temperamento americano.” Nathan Zuckerman, o alter ego de Philip Roth, tem uma opinião bem formada sobre a vida do herói de sua infância e adolescência. Seymour “Sueco” Levov foi o grande nome do esporte nos seus tempos de colégio: bom no basquete, no beisebol e no futebol americano. Não havia nada que o Sueco pudesse fazer sem que fosse bom em tudo. Cinquenta anos depois, com toda a experiência de vida, é essa a imagem que Zuckerman ainda nutre de seu herói – alguém que conquistou o que quis na vida: admiração.

“Nós, libertinos, pegamos mulheres para serem nossas escravas; a qualidade delas de esposas as torna mais submissas que as amantes, e você sabe como o despotismo é precioso nos prazeres que saboreamos.”  

Os 120 dias de Sodoma talvez seja um dos livros que mais comprovam o quanto o homem sente nojo, ódio e asco pelas mulheres. O clássico inacabado de Marquês de Sade (1740-1814) é um compilado gigantesco de todos os atos perversos que homens praticam com mulheres – e com homens também, claro, mas elas são o principal alvo de seus libertinos quando falamos de sofrimento. Publicado postumamente em 1904, Os 120 dias de Sodoma (tradução de Rosa Freire D’Aguiar para a Penguin-Companhia) foi escrito durante a prisão do Marquês de Sade na Bastilha.  

Não há explicação para a perturbação que aflige Yeonghye. Depois de ter um sonho cheio de sangue e morte, essa pacata sul-coreana decide parar de comer carne. Ela sempre foi boa cozinheira e nunca antes demonstrou sinais de que gostaria de ser vegetariana. Sua transição para uma vida sem carne não foi gradual, não foi planejada. O sonho que tanto a perturbou a fez tomar essa decisão brusca, e no dia seguinte já aboliu qualquer alimento de origem animal da sua dieta. Mas a decisão de Yeonghye não a afetou apenas individualmente. Toda a sua família sentiu os efeitos de sua nova vida vegetariana.  

Entre o absurdo e a realidade, os contos de George Saunders estão entre os meus favoritos. Autor de Dez de dezembro (publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2013) e do romance Lincoln no limbo (pela mesma editora no ano passado, e vencedor do Man Booker Prize) ele é considerado um dos principais autores da atualidade. Mas ainda tem coisas do autor não publicadas aqui para se conhecer, que é o caso de Pastoralia, sua segunda coletânea de contos lançada em 2000.

Sempre imaginei que, entre a vinda do diabo e a volta do messias, o diabo seria mais divertido. Não sou nada religiosa, apesar de me interessar bastante pelo tema – a religião influencia demais toda a nossa vida e sociedade para que eu possa ignorá-la, então sendo religiosa ou não, é um assunto a se conhecer. Mas, caso tivesse algum tipo de fé ou crença, o diabo teria meu voto. Sei lá, os vilões sempre me agradaram. Demorei muito para ler O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (li na edição da Alfaguara, tradução de Zoia Prestes, mas dizem que a edição da Editora 34 é melhor), apesar de todas as recomendações e de estar na minha mira por pelo menos uns seis anos. A capa com o gato demoníaco me atraía sempre, mas por algum motivo eu sempre deixava para lá. Até ler esse artigo de Viv Grokop no Literary Hub sobre como a leitura desse romance é fundamental para tempos sombrios. E estamos em tempos sombrios. E a vinda do diabo não poderia ser mais divertida.

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A literatura certamente é uma ótima ferramenta para lidar com os conflitos internos e acertos de contas com o passado. Ao ler Coração azedo, de Jenny Zhang (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe), logo liguei seus contos aos romances de Zadie Smith. As duas possuem backgrounds bem diferentes, é claro, mas o que escrevem dialoga muito com os próprios conflitos de identidade, cultura e família.

Na sociedade há padrões de comportamento que são repetidos quase que inconscientemente. Quando algo acontece, temos reações já pré-estabelecidas, regras sobre o que devemos dizer e expectativas quanto aos rumos da vida. Você estuda, você cresce na carreira, você casa, tem filhos, depois netos e então morre. Keiko Furukura tem 36 anos e está longe de seguir esse padrão. Funcionária de uma konbini há 18 anos – as famosas lojas de conveniência japonesa –, sua grande preocupação é esconder da sociedade a sua visão peculiar de mundo para ser vista como alguém normal. Mas o próprio fato de ter estar perto dos 40 e ainda trabalhar nesse estabelecimento conta como ponto negativo a seu desejo por normalidade.

Rachel Chu, professora de economia, namora há dois anos Nick Young, professor de história. Ela nasceu na China e se mudou quando criança para os EUA, ele nasceu e cresceu em Cingapura, e ambos não gostavam da ideia de serem apresentados a possíveis pretendentes só porque eram asiáticos. Contudo, indo contra essa própria regra pessoal, os dois estão completamente apaixonados, e Nick convidou a namorada para acompanhá-lo no casamento de seu melhor amigo em sua terra natal. Só tem um pequeno detalhe sobre sua vida que ele nunca contou a Rachel: a sua família é podre de rica, umas das mais endinheiradas de Cingapura –um lugar que abriga muitos endinheirados.