Berta Isla e Tomás Nevinson se conhecem desde a adolescência. Cresceram em Madrid, mas Nevinson tem dupla nacionalidade – a mãe é madrilenha, o pai é inglês. Por isso mesmo, após o colegial, ele parte para Oxford, onde chamu a atenção de um professor que havia trabalhado para o MI6 durante a Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos da ditadura de Franco, Nevinson se vê recrutado – praticamente obrigado – a trabalhar como agente secreto.

Meu primeiro contato com Siri Hustvedt foi com o livro O mundo em chamas, uma trama feita de retalhos que contava a história de uma artista plástica e seu experimento sobre como o mercado da arte, a mídia e o público recebem de formas diferentes o que é produzido por uma mulher e o que é produzido por um homem. Com digressões sobre a arte em si, sobre neurologia e psicologia, O mundo em chamas se tornou um dos meus livros favoritos. Mas quando fui ler outras obras da autora, como Os encantamentos de Lili Dahl e O verão sem homens, o furor que senti com seu romance mais recente não veio.

Identidade é aquela coisa que sempre estamos desenvolvendo, ou que estamos buscando descobrir qual é. É mais fácil quando sua família toda cresceu no mesmo lugar, com as mesmas referências sobre quem se é e onde vive bem claras e definidas. Para o protagonista de Meu pequeno país, romance de Gaël Faye (Rádio Londres, tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto), a identidade e o lugar em que pertence não é uma questão tão clara assim.

“Faltava pouco para as oito da manhã quando o conselheiro titular Yákov Pietróvitch Golyádkin despertou de um longo sono, bocejou, espreguiçou-se e por fim abriu inteiramente os olhos. Aliás, ficou uns dois minutos deitado em sua cama, imóvel, como alguém que ainda não sabe direito se acordou ou continua dormindo, se tudo o que está acontecendo é de fato real ou uma continuação de seus desordenados devaneios.”

“Quando vê um cadáver, um tralfamadoriano pensa apenas que a pessoa morta não está em boas condições naquele momento específico, mas que em diversos outros momentos essa mesma pessoa está muito bem. Agora, quando fico sabendo que alguém morreu, dou de ombros e digo a mesma coisa que os tralfamadorianos dizem sobre os mortos, que é o seguinte: ‘é assim mesmo’.”

“[…] o mundo em geral não pensa que assaltantes de bancos podem ter filhos – embora um bocado deles os tenha. Mas a história dos filhos – que é a minha história e da minha irmã – cabe a nós ponderar, partilhar e julgar tal como a vemos.”

Dell Parsons tem 15 anos quando seus pais são presos por um assalto a banco nos EUA, em 1960. Com sua irmã gêmea, viram os pais sendo levados pela polícia, duas pessoas que nunca imaginariam ser capazes de cometer qualquer tipo de crime. Dell é filho de um militar da aeronáutica que veio do sul do país, sua mãe é filha de imigrantes judeus. Um casal improvável, mas que deu certo durante todos esses anos. Até o assalto.

Quando o conto “Cat Person” foi publicado na revista New Yorker, em 2017, foi o maior furor. Muitos leitores se identificaram com o texto de Kristen Roupenian que narra o flerte de uma garota de 20 anos com um cara de 30, de como a relação foi se desenvolvendo via mensagem de texto e como ela desandou completamente após o primeiro encontro. Muitos confundiram o texto de ficção com um relato real – totalmente equivocados. E o texto, claro, gerou toda uma discussão também sobre a dinâmica dos relacionamentos atuais, consenso, expectativas e tudo o mais. Foi o texto de ficção mais compartilhado da New Yorker, então é óbvio que isso chamou a atenção dos editores. Com esse sucesso, Roupenian acabou conseguindo um contrato de publicação, e assim surgiu Cat Person e outros contos.