Samuel Anderson é um professor de literatura inglesa numa universidade próxima a Chicago. Está na casa dos 30 anos de idade, há 10 anos assinou contrato para um livro – que nunca chegou a terminar de escrever – e sente um imenso tédio ao dar suas aulas: alunos desmotivados, que não se interessam pelo tema e estão lá apenas por obrigação. A única coisa que faz Samuel esquecer um pouco da vida estagnada é Elfscape, um RPG online que joga após o expediente. Certamente Samuel preferiria continuar na calmaria do tédio cotidiano do que ter que lidar com vários problemas que surgem ao mesmo tempo: a “perseguição” de uma aluna que não aceita ser reprovada e o retorno de sua mãe, que o abandonou quando ele tinha 11 anos de idade.

Duas crianças estão mortas. O bebê morreu rapidamente. A menina, um pouco mais velha, não vai resistir às agressões. A mãe voltou mais cedo para casa, e o que encontrou foi o caos: seus filhos mortos e a babá que tentou tirar a própria vida depois do que fez. O primeiro capítulo de Canção de ninar, de Leïla Slimani (Tusquets, tradução de Sandra M. Stoparo) conta logo de cara qual é o desfecho dessa trama que fala sobre maternidade e sobre a relação de poder entre as classes. Slimani é uma das autoras confirmadas da Festa Literária Internacional de Paraty de 2018 e também uma das conferencistas do Fronteiras do Pensamento. Com Canção de ninar, foi a primeira autora de origem marroquina a vencer o Prêmio Goncourt, em 2016.

“Me chame de Jonah”, começa o protagonista e narrador de Cama de gato, de Kurt Vonnegut (Aleph, tradução de Livia Koeppl), que também pode ser chamado de John. Pensei logo em Moby Dick, um livro que nunca li – e não sei se quero ler. Mas nunca esqueci o final do filme Matilda, onde a garota confortavelmente sentada na sua cama faz o livro de Herman Melville flutuar até ela e o abre na primeira página: Call me Ishmael…

“História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo.”

Roman Osipovitch Markin é um artista que virou censor. Na União Soviética dos anos 1930, seu trabalho consiste em apagar da História personalidades controversas, artistas, políticos, ativistas, qualquer pessoa que tenha se oposto ao regime socialista. Seu talento para a pintura, mais especificamente os retratos, não era grande o bastante para se tornar um artista. Mas em um regime onde a “História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo”, Markin é um dos melhores no seu trabalho.

Quando li Tipos de perturbação, passei a considerar Lydia Davis uma das minhas autoras favoritas. Seus contos curtíssimos, muitas vezes com poucos parágrafos ou até mesmo uma frase, têm aquele humor sagaz que te deixa por minutos rindo sozinha, pensando em como tão pouco pode dizer tanto. E seus textos mais longos são tão encantadores quanto, com personagens muito bem desenvolvidas e histórias que se sustentam a cada frase. Seu primeiro romance, O fim da história, não causou a mesma impressão, mas não abalou minha admiração pela autora. E bem ansiosa fui ler sua segunda coletânea de contos publicada no Brasil, Nem vem (tradução de Branca Vianna), lançada no Brasil no ano passado pela Companhia das Letras.

 

“Não é magia, é tecnologia”. A propaganda da famigerada Tekpix é um bom exemplo de que magia e tecnologia não andam juntas. Uma é totalmente subjetiva, baseada em crenças nunca comprovadas. A outra é pura exatidão, real, palpável. Não tem como as duas coisas andarem de mãos dadas. Uma recusa a outra: a magia não aprova o progresso que a tecnologia traz, que destrói recursos naturais e deixa as pessoas mais próximas das máquinas, e não da natureza; a tecnologia não aceita a magia, uma invenção para pegar trouxa, pseudociência, coisa de gente doida.

Charlie Jane Anders quer aproximar esses dois “inimigos” em Todos os pássaros no céu (Morro Branco, tradução de Petê Rissatti), vencedor do Nebula Awards, um dos principais prêmios da ficção científica, e finalista do Hugo Awards. O livro acompanha a vida de dois jovens, Patricia e Laurence, que são completamente opostos. Mas seus destinos estão fortemente ligados.

No mundo corporativo, nada é mais importante do que a produtividade. Se alguma coisa irá melhorar a produtividade dos funcionários, ela será implementada. Se alguma coisa influenciar negativamente essa produtividade, ela será proibida – pelo menos seria assim na teoria, mas sabemos que nem sempre é o que acontece. No mundo corporativo, um assunto que certamente é delicado e afeta o desempenho dos funcionários são os seus desejos carnais. O estresse do ambiente de trabalho combinado com a presença de mulheres no escritório – mais ainda se a vida conjugal em casa não estiver aquelas coisas – pode desencadear uma série de comportamentos inaceitáveis que influenciam naquilo que mais importa para uma empresa: a produtividade.

Em 1942, a expansão germânica está no seu auge. O território tchecoslovaco foi anexado ao império nazista de Hitler, sua população dividida entre resistir e perder a vida ou se curvar ao novo líder e sobreviver. Reinhard Heydrich, chefe da Gestapo, é nomeado o “protetor” da agora chamada Boêmia-Morávia, um homem extremamente ambicioso, que rapidamente cresceu aos olhos do führer, e que é tão malévolo quanto ele. Heydrich foi, também, um dos principais arquitetos da “solução final”.

“‘HHhH’, dizem na SS: Himmlers Hirn heiβt Heydrich – o cérebro de Himmler chama-se Heydrich.” O romance de Laurent Binet, apesar do título, não é sobre Heydrich. Ou não é apenas sobre ele. E nem é apenas sobre a Segunda Guerra. Vencedor do Prêmio Goncourt de 2010, HHhH (Companhia das Letras, tradução de Paulo Neves) apresenta um autor aficionado por um específico momento histórico: a operação Antropoide, que matou Heydrich em Praga em 1942. O plano foi arquitetado pelo exército tchecoslovaco exilado em Londres, e posto em prática pelos sargentos Jan Kubiš e Jozef Gabcík. Uma missão suicida.

 

“Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial”, diz Julian Barnes em vários momentos de Altos voos e quedas livres (tradução de Léa Viveiros de Castro). As 128 páginas desse livro enganam, assim como o início, Pode parecer uma história leve sobre balonismo, as primeiras pessoas que se aventuraram pelo ar, os pioneiros que pensaram em unir balão com câmera fotográfica e mostrar para quem nunca esteve lá em cima como é ver a cidade de tão alto. Mas Altos voos e quedas livres é um livro sobre amor e perda – amor que nos leva tão para o alto; perda que nos derruba sem aviso.

Duas meninas se conhecem nas aulinhas de dança do bairro. Duas meninas pardas, filhas de pais brancos e negros. Uma delas, Tracey, demonstra um talento singular logo de início. A mãe, branca e espalhafatosa, mima a garota com o que ela quer, e Tracey tem uma liberdade que nenhuma outra criança do bairro tem. O pai, negro, está preso – mas para a pequena Tracey ele está em turnê com Michael Jackson. A outra menina, que vem a ser a narradora de Swing Time, romance mais recente de Zadie Smith, não tem o mesmo talento, mas é apaixonada por musicais – com todas as suas canções e danças. Sua mãe, descendente de jamaicanos, é uma dona de casa mergulhada em leituras que tenta passar à filha um senso de identidade. O pai, branco, trabalha nos correios e, apesar de apaixonado pela esposa, sente que é deixado de lado pelo seu autodidatismo. Tracey e a narradora são duas crianças com muito em comum, mas também guardam diferenças gigantescas.