Identidade é aquela coisa que sempre estamos desenvolvendo, ou que estamos buscando descobrir qual é. É mais fácil quando sua família toda cresceu no mesmo lugar, com as mesmas referências sobre quem se é e onde vive bem claras e definidas. Para o protagonista de Meu pequeno país, romance de Gaël Faye (Rádio Londres, tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto), a identidade e o lugar em que pertence não é uma questão tão clara assim.

“Faltava pouco para as oito da manhã quando o conselheiro titular Yákov Pietróvitch Golyádkin despertou de um longo sono, bocejou, espreguiçou-se e por fim abriu inteiramente os olhos. Aliás, ficou uns dois minutos deitado em sua cama, imóvel, como alguém que ainda não sabe direito se acordou ou continua dormindo, se tudo o que está acontecendo é de fato real ou uma continuação de seus desordenados devaneios.”

“Quando vê um cadáver, um tralfamadoriano pensa apenas que a pessoa morta não está em boas condições naquele momento específico, mas que em diversos outros momentos essa mesma pessoa está muito bem. Agora, quando fico sabendo que alguém morreu, dou de ombros e digo a mesma coisa que os tralfamadorianos dizem sobre os mortos, que é o seguinte: ‘é assim mesmo’.”

“[…] o mundo em geral não pensa que assaltantes de bancos podem ter filhos – embora um bocado deles os tenha. Mas a história dos filhos – que é a minha história e da minha irmã – cabe a nós ponderar, partilhar e julgar tal como a vemos.”

Dell Parsons tem 15 anos quando seus pais são presos por um assalto a banco nos EUA, em 1960. Com sua irmã gêmea, viram os pais sendo levados pela polícia, duas pessoas que nunca imaginariam ser capazes de cometer qualquer tipo de crime. Dell é filho de um militar da aeronáutica que veio do sul do país, sua mãe é filha de imigrantes judeus. Um casal improvável, mas que deu certo durante todos esses anos. Até o assalto.

Quando o conto “Cat Person” foi publicado na revista New Yorker, em 2017, foi o maior furor. Muitos leitores se identificaram com o texto de Kristen Roupenian que narra o flerte de uma garota de 20 anos com um cara de 30, de como a relação foi se desenvolvendo via mensagem de texto e como ela desandou completamente após o primeiro encontro. Muitos confundiram o texto de ficção com um relato real – totalmente equivocados. E o texto, claro, gerou toda uma discussão também sobre a dinâmica dos relacionamentos atuais, consenso, expectativas e tudo o mais. Foi o texto de ficção mais compartilhado da New Yorker, então é óbvio que isso chamou a atenção dos editores. Com esse sucesso, Roupenian acabou conseguindo um contrato de publicação, e assim surgiu Cat Person e outros contos.

“A vida de Sueco Levov, até onde eu sabia, fora a mais simples, a mais comum e portanto fora ótima, bem de acordo com o temperamento americano.” Nathan Zuckerman, o alter ego de Philip Roth, tem uma opinião bem formada sobre a vida do herói de sua infância e adolescência. Seymour “Sueco” Levov foi o grande nome do esporte nos seus tempos de colégio: bom no basquete, no beisebol e no futebol americano. Não havia nada que o Sueco pudesse fazer sem que fosse bom em tudo. Cinquenta anos depois, com toda a experiência de vida, é essa a imagem que Zuckerman ainda nutre de seu herói – alguém que conquistou o que quis na vida: admiração.

“Nós, libertinos, pegamos mulheres para serem nossas escravas; a qualidade delas de esposas as torna mais submissas que as amantes, e você sabe como o despotismo é precioso nos prazeres que saboreamos.”  

Os 120 dias de Sodoma talvez seja um dos livros que mais comprovam o quanto o homem sente nojo, ódio e asco pelas mulheres. O clássico inacabado de Marquês de Sade (1740-1814) é um compilado gigantesco de todos os atos perversos que homens praticam com mulheres – e com homens também, claro, mas elas são o principal alvo de seus libertinos quando falamos de sofrimento. Publicado postumamente em 1904, Os 120 dias de Sodoma (tradução de Rosa Freire D’Aguiar para a Penguin-Companhia) foi escrito durante a prisão do Marquês de Sade na Bastilha.  

Não há explicação para a perturbação que aflige Yeonghye. Depois de ter um sonho cheio de sangue e morte, essa pacata sul-coreana decide parar de comer carne. Ela sempre foi boa cozinheira e nunca antes demonstrou sinais de que gostaria de ser vegetariana. Sua transição para uma vida sem carne não foi gradual, não foi planejada. O sonho que tanto a perturbou a fez tomar essa decisão brusca, e no dia seguinte já aboliu qualquer alimento de origem animal da sua dieta. Mas a decisão de Yeonghye não a afetou apenas individualmente. Toda a sua família sentiu os efeitos de sua nova vida vegetariana.  

Entre o absurdo e a realidade, os contos de George Saunders estão entre os meus favoritos. Autor de Dez de dezembro (publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2013) e do romance Lincoln no limbo (pela mesma editora no ano passado, e vencedor do Man Booker Prize) ele é considerado um dos principais autores da atualidade. Mas ainda tem coisas do autor não publicadas aqui para se conhecer, que é o caso de Pastoralia, sua segunda coletânea de contos lançada em 2000.