Em 1942, a expansão germânica está no seu auge. O território tchecoslovaco foi anexado ao império nazista de Hitler, sua população dividida entre resistir e perder a vida ou se curvar ao novo líder e sobreviver. Reinhard Heydrich, chefe da Gestapo, é nomeado o “protetor” da agora chamada Boêmia-Morávia, um homem extremamente ambicioso, que rapidamente cresceu aos olhos do führer, e que é tão malévolo quanto ele. Heydrich foi, também, um dos principais arquitetos da “solução final”.

“‘HHhH’, dizem na SS: Himmlers Hirn heiβt Heydrich – o cérebro de Himmler chama-se Heydrich.” O romance de Laurent Binet, apesar do título, não é sobre Heydrich. Ou não é apenas sobre ele. E nem é apenas sobre a Segunda Guerra. Vencedor do Prêmio Goncourt de 2010, HHhH (Companhia das Letras, tradução de Paulo Neves) apresenta um autor aficionado por um específico momento histórico: a operação Antropoide, que matou Heydrich em Praga em 1942. O plano foi arquitetado pelo exército tchecoslovaco exilado em Londres, e posto em prática pelos sargentos Jan Kubiš e Jozef Gabcík. Uma missão suicida.

 

Quem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet (tradução de Rosa Freire D’Aguiar), foi o último livro lido em 2016, e um dos meus preferidos do ano. É daqueles livros que você não sabe exatamente os motivos de ter gostado, ou apenas não consegue descrevê-los bem. Ele é divertido, ele é bem escrito, ele pode até ser considerado inventivo, apesar de ser uma clássica história de investigação policial, um quem matou quem – ou quem mandou alguém matar quem, neste caso –, um romance que usa elementos reais para criar uma absurda história de conspiração que envolve a linguagem. Talvez eu tenha gostado do livro porque finalmente usei o que tive que aprender de semiótica na faculdade. Talvez.

o-diabo-no-corpoCostumo ter algumas fases em que livros sobre certos temas me interessam mais. No início do ano, a minha obsessão literária eram os livros sobre suicídios, boa parte deles protagonizados por jovens que não teriam, aparentemente, motivo algum para tirar a vida. No momento as leituras andam bem dispersas em se tratado de temas, mas tenho planos de ler mais sobre questões do cérebro e da memória. E apesar dessa gama enorme de assuntos e abordagens que a literatura tem, meu interesse sempre acaba voltando para as histórias de amor. Não há pessoa que em algum momento da vida não lide com esse sentimento, de estar apaixonado ou enamorado por alguém e fazer toda sua rotina girar em torno disso. Então me animei quando, recentemente, a Companhia das Letras anunciou a publicação pelo selo Penguin-Companhia de uma série de textos clássicos na coleção Grandes Amores, começando com O diabo no corpo, de Raymond Radiguet, e Os mortos, de James Joyce.

Como os títulos sugerem, essas “grandes histórias de amor” não parecem ser daquelas que terminam felizes – essas são justamente o meu tipo preferido. Comecei lendo O diabo no corpo, uma clássica novela francesa publicada originalmente em 1923, escrito pelo jovem Radiguet, que morreu com pouco mais de 20 anos de idade. Radiguet era um prodígio das letras que escrevia desde a adolescência, e sua história se reflete no protagonista de O diabo no corpo. A esposa de um soldado que está nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial se envolve com um jovem de 16 anos, que conta sua história de amor “proibido” com a mulher de 19 anos. São dois jovens, mas a sociedade da época os condena pela relação.

Aos 15 anos e meio de idade Marguerite Duras teve sua iniciação sexual. Foi em um dia em que usava um vestido de seda quase transparente que fora de sua mãe, com um cinto de couro de um de seus irmãos, um chapéu de modelo masculino cor-de-rosa e um sapato de salto alto dourado. Cabelos trançados, maquiagem forte, batom vermelho. Vestida assim, em uma balsa que atravessava o rio Mekong, na antiga Indochina francesa (hoje o Vietnã), ela chamou a atenção de um rico homem chinês. E é com ele que Marguerite engatou um relacionamento que envolve sexo, dinheiro, e um amor que ele, o chinês, sente por ela, mas que ela não corresponde.

Uma sociedade onde praticamente tudo é permitido e a liberdade e felicidade existem para todos está em um futuro próximo. A hiperdemocracia nos permite ter o que mais desejamos com injeções de dinheiro em contas bancárias, as mais sofisticadas plásticas e tratamentos de estética. Apesar do Sol não brilhar mais nessa Terra por conta de uma misteriosa fuligem que cobre o planeta, a vida segue na sua mais completa perfeição. Contudo, toda essa liberdade de Clair-Monde é uma farsa, um sentimento imposto a uma população alienada pelo consumismo. Cidade da Penumbra, novo livro da francesa Lolita Pille publicado pela editora Intrínseca, se baseia em grandes ficções do século XX para recriar uma sociedade que, por mais caricata que pareça, é muito parecida com a em que vivemos hoje.

No século XVI, na região de Auvergne, na França, a história das mulheres-lobas continua envolta em mistérios e dores impossíveis de reparar. Iniciada a trama em O Baile das Lobas – Volume 1: A Câmara Maldita, a escritora francesa Mireille Calmel conquistou milhares de leitores com seu drama que envolve vingança, amor e magia. A história de Isabel, uma jovem camponesa que viu seu marido morrer e sofreu abusos do senhor de Vollore, Francisco de Chazeron, para satisfazer a seus caprichos, não havia terminado. Um segundo livro dá cabo dessa trama que narra a vida de gerações dessas mulheres que procuram apenas a cura de sua maldição. O Baile das Lobas – Volume 2: A Vingança de Isabel (Nova Fronteira), fecha essa história se perdendo em sub-tramas que prolongam a sua leitura.

Semana passada nem fiz o Leitura da Semana porque nem valeria à pena. Quando vi, já tava terminando A Questão dos Livros, e em poucas sentadas li Ponto Final, um livro da Dublinense. Mas estava com saudade de uma história mais longa sobre alguma época antiga, e como segundo volume de O Baile das Lobas, escrito pela francesa Mireille Calmel e publicado aqui pela Nova Fronteira, estava aguardando na fila, acabei passando ele pra frente. É bom “escolher” o que ler às vezes. Então vou passar a semana toda, provavelmente, lendo só ele – se bem que meu ritmo está bem adiantado, até.

O Leitura da Semana tá sendo algo simbólico nesses últimos dias. Ando lendo mais de um livro por semana e, da última postagem para cá, li dois e nem comentei. Um deles foi Sob o Céu de Agosto, cuja resenha já está no ar desde segunda-feira, e o outro O Palácio de Inverno, de John Boyne, que vou publicar a resenha amanhã. Livros muito bons, por sinal, o que colaboraram por lê-los em um tempo tão curto. O livro “eleito” da semana, então, foi O Último Olimpiano, de Rick Riordan, finaleira da série Percy Jackson e os Olimpianos.