Edward St. Aubyn começou a publicar os romances de Patrick Melrose em 1992 e terminou a série de cinco livros em 2012. Baseado em fatos de sua própria vida, os livros acompanham Patrick da infância até a idade adulta. Seu pai, David, é um ex-soldado e médico que enriqueceu após o casamento com Eleanor, filha de uma tradicional família inglesa. Patrick é filho único, cresceu em mansões e estudou em boas escolas. Viajou pelo mundo todo e frequentou festas com a presença da família real. Uma vida bem abastada, digamos, para render uma narrativa de cinco livros sobre os podres da elite londrina. Mas a história de Patrick Melrose não é só puro deboche da vida cheia de riquezas de sua família e amigos.

Família, identidade e cultura: essas três palavras podem definir os livros de Zadie Smith. NW é uma trama que, sob o ponto de vista de quatro personagens que cresceram no mesmo bairro, mostra como eles se tornaram pessoas diferentes, com dramas próprios, mas unidos todos pela mesma geografia. Swing Time, seu livro mais recente, gira em torno do deslocamento de sua narradora, uma mulher com mãe negra e pai branco, que sente não pertencer a lugar nenhum, ligada a uma amiga que tem o mesmo background que o seu, mas que fez escolhas na vida e tem uma visão de mundo diferente do dela. As três palavras estão nessas tramas: o lugar em que cresceram, o lugar em que pertencem – ou querem pertencer –, as culturas de que se alimentam suas personagens. E tudo isso começou com White Teeth.

 

“Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial”, diz Julian Barnes em vários momentos de Altos voos e quedas livres (tradução de Léa Viveiros de Castro). As 128 páginas desse livro enganam, assim como o início, Pode parecer uma história leve sobre balonismo, as primeiras pessoas que se aventuraram pelo ar, os pioneiros que pensaram em unir balão com câmera fotográfica e mostrar para quem nunca esteve lá em cima como é ver a cidade de tão alto. Mas Altos voos e quedas livres é um livro sobre amor e perda – amor que nos leva tão para o alto; perda que nos derruba sem aviso.

Duas meninas se conhecem nas aulinhas de dança do bairro. Duas meninas pardas, filhas de pais brancos e negros. Uma delas, Tracey, demonstra um talento singular logo de início. A mãe, branca e espalhafatosa, mima a garota com o que ela quer, e Tracey tem uma liberdade que nenhuma outra criança do bairro tem. O pai, negro, está preso – mas para a pequena Tracey ele está em turnê com Michael Jackson. A outra menina, que vem a ser a narradora de Swing Time, romance mais recente de Zadie Smith, não tem o mesmo talento, mas é apaixonada por musicais – com todas as suas canções e danças. Sua mãe, descendente de jamaicanos, é uma dona de casa mergulhada em leituras que tenta passar à filha um senso de identidade. O pai, branco, trabalha nos correios e, apesar de apaixonado pela esposa, sente que é deixado de lado pelo seu autodidatismo. Tracey e a narradora são duas crianças com muito em comum, mas também guardam diferenças gigantescas.

 

De dentro do útero da mãe, um feto de quase nove meses escuta os planos horríveis de sua genitora para assassinar seu pai. Ela arquiteta o plano com seu amante, que vem a ser também o tio do feto. O motivo do crime é a casa onde eles se encontram, um imóvel que, apesar de decrépito, vale cerca de seis ou sete milhões de libras. Se a mãe, Trudy, simplesmente se separasse do editor e poeta John, ela não conseguiria um bom acordo que enriquecesse sua conta bancária e a de Claude, o amante/cunhado. A única saída para arrancar dinheiro do decadente poeta é o assassinato. E o feto escuta tudo.

do-que-e-feita-uma-garota-capaJohanna Morrigan é uma garota de 14 anos que não vê a hora de experimentar a vida. Em 1990, ela vive em Wolverhampton, uma cidadezinha no condado de West Midlands, Inglaterra, com sua família totalmente decadente: um pai (Pat) sem noção da realidade que sonha em ser um astro do rock milionário, uma mãe em depressão pós-parto depois da chegada dos gêmeos surpresa (que nem nome têm), o irmão mais velho (Krissi), de 15 anos, uma sombra sensata na casa, e outro de seis anos (Lupin), sempre às voltas com a irmã. Ninguém na casa trabalha e a família vive de benefícios do governo – o pai é “meio deficiente”. Mas Johanna é uma adolescente feliz, inteligente, que devora todos os livros da biblioteca, reencena musicais com seus irmãos, se diverte do seu jeito.

O único porém é que ela está louca para perder a virgindade e não tem perspectivas de ver isso acontecer tão cedo – é feia, gordinha, não tem amigos, nenhum atrativo para um homem. Então, para tentar fazer isso acontecer e também arranjar mais dinheiro para sua família – e para se livrar de um episódio humilhante protagonizado por ela na TV –, Johanna decide se reinventar assumindo uma nova personalidade, a de Dolly Wilde. Do que é feita uma garota (tradução de Caroline Chang) é um romance de formação onde a própria protagonista se constrói, costurando hábitos, conhecimentos, experiências para se tornar uma garota cool e “transável”. Caitlin Moran, autora de Como ser mulher, recheia essa história com referências a livros, séries, filmes e, o mais importante, muita música da cena underground dos anos 1990. Pois quando se torna Dolly Wilde, ela escolhe como objetivo, além das transas, claro, ser jornalista e crítica musical numa revista de circulação nacional.

Dentre o monte de livros que compõem a minha pilha interminável de futuras leituras, escolhi A balada de Adam Henry, o mais recente romance de Ian McEwan, pelo dilema moral e religioso que a história prometia. Fiona Maye é uma juíza do Tribunal Superior especializada em direito de família, em Londres, e está prestes a completar sessenta anos. Com sucesso na carreira e, até então, na vida pessoal, ela vê sua rotina abalada pelo pedido do marido, Jack, de que eles tenham um casamento “aberto”, ou seja: insatisfeito com a vida sexual, ele informa Fiona que está interessado em uma mulher muito mais nova, uma estudante de estatística de 28 anos, e que gostaria de manter um caso com ela, mas com o consentimento da esposa – ela mesma poderia ter suas aventuras fora do casamento.

nwTenho uma predileção por livros em que, aparentemente, nada acontece. São só personagens andando para lá ou para cá, às vezes nem isso. Um livro pode se passar inteiramente em uma sala, em um sofá, em uma cama – como a história da literatura já mostrou várias vezes –, só se alimentando do caos da mente humana. Quem fica muito tempo parado reconhece isso. Não é fácil lidar com os próprios pensamentos, às vezes. A sensação de que “nada acontece” é só isso, uma sensação. A verdade é que tudo acontece, de forma desordenada e sem sentido. NW, o último romance de Zadie Smith, passa essa sensação em vários momentos. Suas personagens quase não ultrapassam os limites do bairro de Kilburn, na região North West de Londres (daí o título, NW), e suas vidas se cruzam a todo o instante, mas de uma forma tão corriqueira, usual, que não parece que algo realmente vai acontecer.

Neste livro Zadie Smith concentra a narrativa em quatro personagens: Leah Hanwell, Natalie Blake, Felix Cooper e Nathan Bogle. Mas podemos dizer mesmo que as principais são Leah e Natalie, melhores amigas desde a infância, em quem Zadie concentra a maior parte do livro. Nathan cresceu no mesmo conjunto habitacional e estudou na mesma escola que as duas, e Leah sentia um queda por ele quando tinha 10 anos de idade. E Felix é só mais um morador da região que cruza com os três de maneiras distintas. Apesar de terem crescido no mesmo lugar, os quatro construíram vidas muito diferentes, e é isso o que todo o romance mostra: pessoas destoantes se cruzando em algum momento, passando pelo mesmo desafio de sobreviver em uma cidade que às vezes parece acolhedora, outras vezes estranha, construindo suas identidades ou tentando escapar delas.

Era pouco mais de meio-dia do dia 7 de julho de 2012 quando Ian McEwan revelou para uma Tenda dos Autores lotada – e para quem assistia de fora – o final de seu novo romance, lançado mundialmente no Brasil durante a Flip. O segredo de Serena pertencia agora à todos, não só àqueles que já tinham dado conta do livro. Se o próprio autor de uma obra faz isso – entrega de mão beijada, durante um bate-papo, o final de uma história surpreendente –, quem sou eu para reclamar. Mas tudo não poderia passar de mais uma estratégia de manipulação de McEwan com o público, agora podendo ver ele fazer isso ao vivo, cara a cara, e não só através dos livros. Afinal, neste mesmo lugar, ele diria – ou já tinha dito, não lembro direito – que “manipular o leitor é o meu maior prazer”.

Hoje é raro um casal chegar na sua lua de mel sem saber o que deve – e como – fazer. O sexo não é mais aquele ato “sagrado”, que deve ser praticado apenas quando as duas almas apaixonadas estão ligadas pelos laços do matrimônio e toda essa lenga-lenga que persistiu a reprimir desejos durante tanto tempo. O homem sempre teve essa liberdade de ter algum tipo de relação sexual antes do casamento, e inclusive fora dele. Já para a mulher, sua virgindade era seu selo de honra, e tratar desse assunto com quem quer que fosse era um ato impensável. Existe ainda certo conservadorismo quando o assunto é a sexualidade da mulher, um conjunto de regras que deve reger o comportamento das “boas moças”, as para casar. Tudo besteira.