Na sociedade há padrões de comportamento que são repetidos quase que inconscientemente. Quando algo acontece, temos reações já pré-estabelecidas, regras sobre o que devemos dizer e expectativas quanto aos rumos da vida. Você estuda, você cresce na carreira, você casa, tem filhos, depois netos e então morre. Keiko Furukura tem 36 anos e está longe de seguir esse padrão. Funcionária de uma konbini há 18 anos – as famosas lojas de conveniência japonesa –, sua grande preocupação é esconder da sociedade a sua visão peculiar de mundo para ser vista como alguém normal. Mas o próprio fato de ter estar perto dos 40 e ainda trabalhar nesse estabelecimento conta como ponto negativo a seu desejo por normalidade.

Existem mais filmes sobre cachorros, mas no mundo animal, acho que dá para dizer que os gatos são quem dominam a literatura. Ou, pelo menos, que a literatura ajudou a formar a imagem que temos dos gatos. Reflexões do gato Murr, Eu sou um gato, até O mestre e Margarida, para deixar essa lista mais gorda, apresentam felinos que vão além da fofura aparente – muito pelo contrário. Arrogantes, superiores, críticos, desconfiados, orgulhosos, traiçoeiros: esses adjetivos fazem uma imagem não muito lisonjeira dos gatos, mas é disso que a gente gosta. Só que os gatos vão muito além disso, quem tem sabe muito bem disso.

Quando tinha 16 anos, comecei a sentir dificuldades para dormir. Preferia passar as noites aproveitando a conexão gratuita da internet discada, conversando com pessoas distantes para passar o tempo, até o momento em que minha mãe, pela terceira vez, com certa indignação na voz, me pedia para desligar de vez o computador e ir dormir porque “você tem aula amanhã cedo, e já passou da hora”. Essa pseudo-insônia durou por mais uns três anos, principalmente no primeiro semestre em que estive dividindo um apartamento com mais duas meninas aqui em São Leopoldo. Sem ter pai ou mãe por perto, e calculando cada movimento para não acordar as gurias, pude passar minhas noites acordada, na internet. Depois que toda a rede mundial de computadores se recolhia para a cama, podia passar o resto da madrugada lendo e vendo vídeo clipes indies na MTV.

Nas últimas semanas, o suicídio tem virado um tema de reportagens e discussões pela mídia. Isso no jornalismo brasileiro, que raramente relata casos em que pessoas tiram a própria vida – uma questão ética da profissão que até hoje ainda não conseguem explicar direito. Houve dois casos recentes que chamaram bastante atenção: o da menina indiana de 17 anos, levada pela polícia a não denunciar o estupro coletivo que sofreu e decidiu se matar; e a de uma jovem estagiária de advocacia paulista, estuprada pelos colegas do trabalho numa festa de fim de ano que se jogou do prédio em que morava. Ambos os casos tem por trás do suicídio um trauma físico e mental enorme, uma violação do corpo e a impunidade dos agressores. Coincidentemente, enquanto esses casos vinham à tona na mídia brasileira, estava lendo Norwegian Wood, livro publicado pelo japonês Haruki Murakami em 1987, em que o suicídio tem uma natureza levemente diferente da que impulsionou essas tragédias reais.

Se algumas personagens dos contos escritos por Kenzaburo Oe, escritor japonês ganhador do Nobel de Literatura em 1993, são dotados de certa dificuldade de externar seus sentimentos e preocupações – expostas através de uma narrativa cuidadosa –, uma faceta diferente, mas ainda assim semelhante a alguns de seus textos curtos, pode ser vista em Jovens de um novo tempo, despertai!O narrador/protagonista desse livro não conta com nenhum problema de expressão. Lidar com palavras, aliás, é o que o sustenta. Escritor conhecido e renomado do Japão, o protagonista decide a, finalmente, iniciar uma empreitada que vinha adiando: “Vou escrever o livro de definições do mundo, da sociedade e do ser humano nem tanto para dedicá-lo a meu filho, mas com o objetivo de purgar e de incentivar a mim mesmo.”

Ao falar da literatura japonesa na introdução de 14 contos de Kenzaburo Oe, Arthur Dapieve destaca o talento desse povo em dizer muito usando poucas palavras. Ou seja, da forma que os japoneses, como sociedade em geral e não só seus escritores, dizem tanto sobre suas dores e problemas quando justamente silenciam. É estranho pensar na literatura como algo que se destaca pelo silêncio, pela ausência de palavras, sejam ditas ou escritas, justamente na abertura de uma coletânea de contos de um dos maiores escritores japoneses, ganhador do Nobel de Literatura em 1994. Ainda mais que Kenzaburo Oe não esconde nenhum desses dramas dentro dele mesmo, mas confere à suas personagens certa dificuldade para falarem de seus problemas – e, por isso, o talento da narrativa se faz indispensável para que o leitor veja o que elas não dizem.