Chilenita, peruanita, guerrilheira, madame Robert Arnoux, Mrs. ou menina má. Ela teve muitos outros nomes, maridos, casas e nacionalidades, mas nunca deixou de ser a menina má, uma mulher que sempre foi amada, adorada e desejada por Ricardo Somocurcio, um peruano que praticamente viveu toda sua vida adulta em Paris. Tradutor e intérprete de inglês, espanhol e russo da Unesco, desde a adolescência esteve às voltas com a menina má, uma mulher mesquinha, egoísta, manipuladora, que entra e sai de sua vida de forma brusca e dolorosa. É ela o centro da vida de Ricardo e do livro Travessuras da menina, de Mario Vargas Llosa, o Nobel de Literatura de 2010.

Dentro de uma sociedade pequena, onde as notícias correm rápidas em questão de minutos, o boato de que uma morte está prestes a acontecer deveria mobilizar a todos para que ela fosse impedida. Mas alguma coisa nas personagens de Crônica de uma morte anunciada, romance de Gabriel García Márquez, publicado no ano em que recebeu o Nobel, leva a todos dessa cidade a não fazerem nada além de espalhar mais ainda a notícia e esperar para ver se essa morte realmente aconteceria, transformando todos em cúmplices de um assassinato considerado improvável.

Um narrador quase desconhecido – não fossem as menções à sua mãe e irmãos, também personagens – reconstitui anos depois da tragédia as últimas horas de vida de Santiago Nasar, um jovem de boa vida de uma pequena cidade do litoral colombiano. Não só seus últimos momentos, o narrador procura desvendar o que motivou sua morte e mostrar porque esse assassinato tão anunciado não foi impedido por ninguém. Com um texto curto e direto como um relato jornalístico que explora a fala de diversas personagens, García Márquez constrói essa crônica absurda sobre a fatalidade que abarcou o protagonista e a reação de toda essa sociedade à notícia antecipada.

Ulises Lima e Arturo Belano podem parecer meros coadjuvantes que uma vez ou outra aparecem na vida de Juan García Madero, a personagem que inicia os relatos através de seu diário em Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño. Ok, é só ler a orelha do livro para saber que os protagonistas são Belano e Lima, o que já encaminha a concentração do leitor para as aparições dessas duas personagens. Mas por mais que sabemos que tudo gira em torno dos dois jovens poetas e suas andanças pelo México e também pelo mundo, é impossível não se deixar levar pelas histórias daqueles que conviveram – muito ou pouco – com eles.

O romance inicia no México da década de 1970. Arturo Belano, um chileno, e Ulises Lima, mexicano, são dois jovens criadores do real-visceralismo, um grupo de poetas da capital que passa os dias na boemia enquanto escrevem, leem e discutem a poesia atual do país. Belano e Lima se empenham na investigação da vida e obra daquela que seria a mãe dos reais-visceralistas, a poeta vanguardista Cesária Tinajero, cuja poesia poucos leram e se perdeu nos anos 1920 na revista que havia organizado, assim como sua própria figura, desconhecida de muitos. Dividido em três partes, essa história começa – e termina – a ser narrada por García Madero, um estudante de direito e poeta de 17 anos que se une aos real-visceralistas e conta ao leitor suas novas experiências – a primeira vez, os porres tomados com os poetas que agora segue e o cotidiano do meio artístico da capital mexicana que aos poucos vai descobrindo.

Familiarizar o leitor com histórias baseadas principalmente no cotidiano é fácil quando o que se tem em mãos é um enredo simples, uma trama interessante e bem fechada, realista e próxima ao que se vê na realidade. Quando essa realidade é cortada por rompantes de fantasia, tornar essa história ainda natural aos olhos de quem lê é um pouco mais complicado. E quando isso é feito, o efeito de surpresa é ainda maior, assim como a satisfação da leitura. Em Todos os fogos o fogo, de Julio Cortázar, a união do real com a fantasia não distancia o leitor daquilo que ele mesmo vê em seu dia-a-dia, mas o aproxima dele mesmo, com seus desejos e fantasias que ele alimenta poderem ser reais.

Palavras podem ser tão devastadoras quanto bombas. Ditas na hora errada e para pessoas erradas, têm o poder de destruir vidas como se elas estivessem no meio da própria guerra. Elas comprometem pessoas e destroem laços. São armas e também mecanismos que nos levam a lembrar do que deveria ser esquecido. Os Informantes, do colombiano Juan Gabriel Vásquez, prova como as palavras exercem esse poder. O livro é uma narração surpreendente sobre traições e mágoas que envolvem uma família e sua rede de amizades.