Uma fábrica de sucos do México convidou a autora Valeria Luiselli para escrever sobre a organização do catálogo de uma galeria. Essa fábrica patrocina e mantém uma das maiores coleções de arte do país, e o convite fazia parte de mais uma obra artística. Valeria aceitou a encomenda, porém não queria escrever sobre esse tema específico. Ela se interessou mais pelos operários da fábrica. E assim começou a escrever capítulos curtos que, semanalmente, eram enviados de Nova York, onde vive, para o México. O texto era impresso em pequenos caderninhos e distribuídos entre os operários que liam e, uma vez por semana, se reuniam para discutir o texto. Os encontros eram gravados e os comentários eram, então, enviados de volta para Valeria nos EUA. Ela fazia alterações conforme as sugestões ou críticas dos funcionários da fábrica de sucos. Assim nasceu A história dos meus dentes (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman).

Não sei se existe alguma regra que define a partir de que ponto você tem certeza que um livro é bom. Ou quantos livros de um determinado autor você precisa ler até ter certeza de que ele realmente é bom. Como quase tudo na literatura, essas relações de gosto são bem relativas. Um parágrafo pode ser o bastante para alguém se apaixonar por uma história, enquanto outros sempre ficarão à procura das qualidades que fazem aquele escritor ser adorado por tantos. Isso tudo só para dizer que para mim as coisas também funcionam de um jeito bem diferente dependendo do livro. O ideal é o básico: ler tudo, e na última página decidir se é bom ou não. Mas às vezes ignoro essa minha própria regra, e já determino bem antes disso o que pensei sobre o livro.

Com Valeria Luiselli, posso dizer que lá pela página 20 do seu romance eu estava totalmente encantada com a sua narradora. Valeria nasceu na Cidade do México, vive entre o México e Nova York, onde faz mestrado na Universidade de Columbia. Antes de Rostos na multidão, havia publicado apenas um livro de ensaios em 2010. Assim como a autora, a protagonista e narradora do romance é uma mexicana que se divide entre a capital do país e a Big Apple. O elemento curioso do livro está presente logo no começo, que deixa claro que toda a história é fragmentada, montada com pequenos parágrafos que alternam-se em tempo e espaço, um agrupamento de retalhos literários que dão conta da história da mulher. “Os romances são de longo fôlego. Assim querem os romancistas. Ninguém sabe exatamente o que significa, mas todos dizem: longo fôlego. Eu tenho uma bebê e um menino médio. Não me deixam respirar. Tudo o que escrevo é – tem que ser – de curto fôlego. Pouco ar.”

Crianças têm algumas sacadas geniais sobre algumas coisas da vida. Por conhecerem pouco do mundo e terem uma visão limitada dele, tudo parece mais simples e descomplicado nas suas cabeças. As explicações inocentes que, quando criança, damos para as coisas mais esquisitas e as associações que fazemos são a grande parte da graça da infância. Para uma criança como Tochtli, então, isso é ainda mais visível. Seu desconhecimento do mundo é um tempero a mais na sua imaginação trágica, mas cômica, que alimenta suas vontades em Festa no covil.

Tochtli tem 10 anos de idade e é filho de Yolcault, um chefão do tráfico mexicano. Vive junto com ele em um castelo, como diz, e conhece, no máximo, umas 14 ou 15 pessoas. Porém, mantém contato com um número menor que esse: algumas empregadas, dois ou três capangas de seu pai e Mazatzin, seu tutor que lhe ensina o que ele deveria estar aprendendo numa escola com outras crianças. Ele adora chapéus, tem uma enorme coleção de todos os tipos, três deles de detetive, que usa para fazer pequenas investigações pelo seu palácio. Às vezes é atacado por fortes dores de barriga, e seu desejo consumista mais recente é adquirir um hipopótamo anão da Libéria para seu pequeno zoológico.