Histórias para quem gosta de contar histórias é um livro que deixa dúvidas: é escrito para o leitor ou para o próprio autor? Ele, Cássio Pantaleoni, diz na contracapa que é inegável o fato de que gostamos de ouvir e contar histórias – uma justificativa simples para o porquê de ele escrever. Nessa apresentação, aliás, o autor justifica a própria escrita: ilustrar acontecimentos mundanos deixando-os mais “coloridos”, trazer histórias sobre prazer, angústia e outros aspectos cotidianos revividos através do seu estilo. Assim, é de se pensar que o livro foi feito para ele mesmo, para aproveitar em uma edição bem acabada (da editora 8Inverso) as histórias que primeiro figuraram em folhas soltas de papel – ou num documento do Word.

Mas o leitor não é esquecido por Pantaleoni. Os 20 contos que preenchem cerca de 100 páginas são bons entretenimentos – como o próprio autor sentencia, dizendo que pelo menos isso pode ser tirado do texto –, mas melhores aproveitados se lidos em doses homeopáticas. No livro a história fica, na verdade, em um segundo plano. O que salta aos olhos é o estilo de Pantaleoni: uma narração musicalizada, com palavras cuidadosamente escolhidas e frases rimadas, perfeitas para se ler em voz alta apreciando o seu som. Isso fica acima dos enredos, tramas simples que exploram a sexualidade – como em “Despantalhamundo”, “Casa de Menina” e “Vai, Fontinha!” –, acontecimentos cômicos e momentos melancólicos – a angústia de um casamento sem sentimentos em “Para não passar em branco”, um enterro visto pelos olhos de um menino em “O Abismo”, uma vida dupla em “Substituição”.

Gerard, Oludara, Sjala e Tajarê: quatro personagens de origens diversas criadas também por autores diferentes. Os dois primeiros, um holandês e outro africano, são de Christopher Kastensmidt, autor norte-americano que adotou o Brasil como morada. Os dois últimos, uma viking e um índio, de Roberto de Sousa Causo, esse sim brasileiro. Essas quatro personagens já apareceram antes, até concorreram a prêmios – no caso de “O encontro fortuito de Gerard von Oost e Oludara” e estão de volta em Duplo Fantasia Heroica 2. O primeiro volume que reuniu as séries fantásticas de Kastensmidt e Causo foi lançado pela Devir no ano passado e cumpriu com o objetivo de trazer boas histórias fantásticas ambientadas no Brasil. E com essa segunda edição não é diferente.

Seguindo a ordem do volume um, a primeira noveleta é “A batalha temerária contra o Capelobo”, dando seguimento à série A bandeira do elefante e da arara criada por Kastensmidt. Se em Dupla Fantasia Heroica o autor relatou o encontro que firmou a parceria entre o ex-escravo e o explorador holandês – narrando parte da história na terra natal de Oludara –, aqui ele e Gerard estão muito mais inseridos no folclore brasileiro. Depois de conseguirem autorização para explorarem as matas daqui, a bandeira de apenas dois homens encontra uma grande dificuldade: a ignorância quanto às características do país. Amedrontados diante de um inofensivo tatu, a dupla, depois de um sopro de inspiração do Saci-Pererê, decide ir aprender mais sobre a cultura, fauna e flora brasileira com os índios tupinambás. Mas eles não são assim tão amigáveis, e para conseguir ter acesso aos segredos indígenas, Gerard e Oludara recebem uma missão: se bem cumprida, farão parte da tribo.

Esses dias, em uma aula na faculdade, um professor falou que a morte, a nossa única certeza, é o que moveu a criação de lendas, mitos e histórias na tentativa de explicá-la – pelo menos é o que acho ter ouvido dele. Incontáveis histórias foram criadas para tratar do fim da vida, outras inúmeras trazem a própria como personagem, é inegável dizer que a morte alimenta a criatividade e o imaginário, pois ao mesmo tempo em que é um fato do qual não podemos fugir, é rodeada de dúvidas que nunca se esgotam, sempre são renovadas. Eni Allgayer, gaúcha autora de livros juvenis e ensaios históricos, apresenta em seu primeiro livro de contos a morte como ponto central. Em Ciranda negra, publicado pela Dublinense, se deparar com a morte é regra para todas as personagens.

Os contos de Eni são ambientados predominantemente na vida rural, do interior do Rio Grande do Sul, mas não deixam de falar também de áreas urbanas e sua relação com a morte, apresentada nesse livro das mais diversas formas. Eni começa dando ao leitor uma ideia das adversidades pelas quais suas personagens passam no conto “A maçã”, em que narra a alegria e satisfação com que uma criança come a fruta, fazendo a história parecer um inocente e feliz momento em sua vida infantil. Mas os bons sentimentos narrados pela autora escondem a podridão do local em que a menina está, surpreendendo com o final melancólico do curto conto. Esse primeiro texto também engana o leitor sobre o que mais Eni tem a contar, pois a morte não precisa ser necessariamente triste, perturbadora ou indesejada.

Parece que é só de hoje, mas política e corrupção são duas coisas que andam juntas há muito tempo. Quando uns reclamam que governo tal é corrupto, outros respondem com a frase: “mas isso sempre foi assim”. Ou dizem então que essa sensação de que a roubalheira do governo só parece ser maior agora porque é mais noticiada. Isso até pode fazer sentido, embora considere que tendemos a achar os problemas atuais muito maiores do que os de uma época que já passou – sensação acentuada pelo hábito de não pesquisar por conta própria para nos informarmos mais sobre. Mas o fato é que, aqui no Brasil – e outros lugares do mundo também –, a corrupção não é um mal dos dias contemporâneos ou só dos prédios em Brasília, mas vem de longe, de quando a nossa capital não existia nem em sonho.

As críticas a um governo mergulhado em roubo e exploração do dinheiro púbico já eram feitas antes mesmo da Proclamação da República, como em 1868, quando foi publicado o romance Memórias do sobrinho de meu tio, de Joaquim Manuel de Macedo, que ganhou nova edição pelo selo Penguin – Companhia das Letras. Continuação de outro livro do autor, A carteira de meu tio, esse romance dá sequência às aspirações políticas de um certo jovem sem estudos, sem vergonha na cara e sem escrúpulos. Seu objetivo é ser eleito deputado da província do Rio de Janeiro – cargo que o próprio autor ocupou em 1854 – e para isso vai contar com uma herança deixada por seu tio, que falece logo no início dessa história. Com linguagem sarcástica que explicita as ideias pouco lisonjeiras do protagonista, Macedo introduz o leitor à situação política do Brasil nesses anos sem esconder dele o que realmente interessava aos “representantes do povo”: enriquecer e viver à custa do governo.

Ao terminar a leitura de O homem despedaçado, o próprio autor resume bem o que o leitor acabou de ver em seu livro de estreia: “Todos os contos apresentam formas de despedaçamento e não surpreende que, em alguns pedaços, eles se encontrem assim como, às vezes, lembrem outras histórias”. Essa explicação final que Gustavo Melo Czekster faz de sua própria obra apenas confirma as desconfianças do leitor de que seus contos funcionam em conjunto, se complementam e mostram olhares diferentes das situações absurdas e extraordinárias pelas quais passam suas personagens. Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de auto-conhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo.

Publicado pela editora gaúcha Dublinense, os contos trazem diversas personagens que vivem em variadas épocas, mas ainda assim parecem semelhantes em seus medos, angústias e na própria fantasia que as envolve. Teorias filosóficas as levam a se digladiar com paradoxos e invencionices inacreditáveis se tornam críveis nas palavras do escritor, como em “A gênese dos paradoxos brancos”, em que um grupo de “pensadores” descobre a parte mínima que individualiza os seres humanos. A descoberta daquilo que faria “Deus” enxergar a matriz de cada homem é tão perturbante que leva as personagens a temerem o próprio ato de pensar – como na frase de Pamela Anderson (sim!) que abre o texto: “Pensar demais me deixa assustada”.

Se um diretor consegue condensar 700 páginas de um livro em duas horas de filme, então um escritor pode transformar duas horas de filme, ou uma carreira inteira de um diretor, em 10 páginas de um conto – ou mais, ou até menos. E dezessete escritores, cada um com seu diretor preferido, reúnem esses contos em 24 letras por segundo, último lançamento da Não Editora. Organizada pelo não-editor Rodrigo Rosp, que encarna Woody Allen no conto “Todos os homens dizem eu te amo”, a proposta da antologia é homenagear grandes diretores do cinema baseando-se em suas obras, trazendo para a literatura as principais referências de seus filmes.

Se os textos estão carregados de pedaços da história do cinema, com o livro em si isso não poderia ser diferente. O que o destaca, além da proposta, é a capa de Samir Machado de Machado também autor de um dos contos, inspirado em Steven Spielberg – e o projeto gráfico de Guilherme Smee, que fazem do livro uma capa de VHS vinda direto dos anos 1980. Antes de começar a leitura, é bom gastar bons minutos para olhar todos os detalhes do exemplar, cada referência colocada na contracapa, na folha de rosto, nas imagens que abrem os contos. 24 letras por segundo é o tipo de livro que torna insossa a leitura em um e-reader por conta de sua qualidade gráfica, coisa que nenhum leitor digital conseguiria imitar. 

Na vida cultuamos o que é belo, aquilo que possa ser admirado, que seja agradável e tão interessante que é impossível desviar os olhos. Diz-se também que ignoramos o que é feio, ou nos esforçamos por deixar passar em branco aquilo que nos embrulha o estômago e que pode se fixar em nossa mente o bastante para nos tirar o sono. Mas há coisas que, mesmo desprovidas de beleza, são atraentes o bastante para que nosso olhar recaia sobre ela e a mente fique ocupada com esse interesse que está longe de ser perturbador. Ou até sejam, mas em doses menores que conseguimos digerir.

Delicadamente Feio, lançamento da editora Dublinense e estreia de Ricardo Silveira na literatura, pretende falar dessas pequenas coisas presentes em nosso cotidiano, mas ignorados por conta de sua feiúra. A intenção é mostrar personalidades e ações que estão longe de serem belas, sejam elas físicas, como o rosto de uma pessoa, ou morais, alguma atitude pouco louvável. Ricardo Silveira é mais um dos autores da safra de oficinas literárias ministradas por Charles Kiefer, e assim como outros que exercitam sua escrita, seu primeiro livro contém os textos ali trabalhados. Mas isso não significa que sejam excelentes por terem a aprovação do professor.

Depois de passar por Tokyo, Cairo, Lisboa, Buenos Aires e outros lugares mais, a série Amores Expressos desembarca em Havana, Cuba. O amor dessa vez é retratado por Chico Mattoso no livro Nunca vai embora, e diferentemente do que se pode pensar sobre uma história de amor, não há carinhos e beijinhos que a sustente. Amor, nesse caso, é só um sentimento que inicialmente liga duas pessoas muito diferentes e é pano de fundo para outros conflitos que surgem entre elas, até atingir ares de obsessão.

Um velho médio aposentado e professor de renome perde sua esposa e fica sozinho em sua casa em uma fictícia cidade do interior do Rio Grande do Sul. Estamos na Ditadura Militar, em um lugar onde vivem descendentes de imigrantes italianos na calmaria de uma cidadezinha que não tem preocupações maiores como aquelas que infernizam os moradores da capital. Por ser conhecido, o velho poderia ter muitos amigos, mas assim como sua esposa, todos aqueles que estima já se foram. Só restou ele e seu desprezo pelo resto da vida que tem em volta. E também a certeza de que em pouco tempo, ele também vai finalmente deixar esse mundo.

O velho é José, protagonista de O Arcanjo Inconfidente, livro de estreia de Benhur Bortolotto publicado em 2009 pela editora Movimento. O velho, para o narrador, é simplesmente o velho, não tem outro nome ou definição, como as outras personagens que fazem parte dessa história. O livro não relata apenas a solidão dele ou a sua espera pela morte, mas também o sopro de vida que recebe de novas pessoas que, ao contrário de tudo o que esperava, conhece logo depois da partida de sua mulher. Primeiro conhece Carmem, sua nova vizinha, uma mulher negra e mal vista pelas outras pessoas que a julgam por sua cor. O velho não tem esse preconceito, mas sim um comportamento rude que desafia e ofende a todos, inclusive Carmem, ainda jovem e, como depois descobre, noiva de um rapaz filho de descendentes italianos que desaprovam a união.

“O daimon, para os antigos gregos, é tanto a natureza externa quanto a interna”, diz a contra capa de Daimon Junto à Porta, livro de contos de Nelson Rego. Como diz Charles Kiefer em sua orelha, daimon foi convertido a daemon, que em latim significa “demônio”. Mas o lançamento da editora Dublinense não traz histórias de demônios – só uma, pelo menos – ou coloca o diabo parado na frente de várias portas esperando levar almas para o inferno. Daimon, aqui, é a inspiração artística, uma força que existe no artista que a recebe e a transforma em texto.

Mas esse também não é o tema central desse livro. Nelson Rego traz histórias que oscilam entre o inocente e o sexual, com narradores que aos poucos também se revelam protagonistas. Esse confronto que traz sensualidade aparece logo no primeiro conto, “Platero e o Mar”, cujo narrador fala de Inocência, uma de suas amigas com quem passa uma temporada no litoral. Inocência, uma jovem adulta, é o sonho de um grupo de garotos pré-adolescentes, e seu amigo conta como ela gradualmente é seduzida por essas “inocentes” crianças. O mesmo narrador encerra o livro com “Um pedacinho do tempo diante dos olhos”, onde ele e suas amigas voltam ao livro, dessa vez como pessoas registradas pelas lentes de uma fotógrafa que todos os dias busca eternizar segundos em sequências. Ambos os textos prendem a leitura pelo cuidado na escolha das palavras, mas o último não tem a mesma atração exercida pelo primeiro.