Um velho médio aposentado e professor de renome perde sua esposa e fica sozinho em sua casa em uma fictícia cidade do interior do Rio Grande do Sul. Estamos na Ditadura Militar, em um lugar onde vivem descendentes de imigrantes italianos na calmaria de uma cidadezinha que não tem preocupações maiores como aquelas que infernizam os moradores da capital. Por ser conhecido, o velho poderia ter muitos amigos, mas assim como sua esposa, todos aqueles que estima já se foram. Só restou ele e seu desprezo pelo resto da vida que tem em volta. E também a certeza de que em pouco tempo, ele também vai finalmente deixar esse mundo.

O velho é José, protagonista de O Arcanjo Inconfidente, livro de estreia de Benhur Bortolotto publicado em 2009 pela editora Movimento. O velho, para o narrador, é simplesmente o velho, não tem outro nome ou definição, como as outras personagens que fazem parte dessa história. O livro não relata apenas a solidão dele ou a sua espera pela morte, mas também o sopro de vida que recebe de novas pessoas que, ao contrário de tudo o que esperava, conhece logo depois da partida de sua mulher. Primeiro conhece Carmem, sua nova vizinha, uma mulher negra e mal vista pelas outras pessoas que a julgam por sua cor. O velho não tem esse preconceito, mas sim um comportamento rude que desafia e ofende a todos, inclusive Carmem, ainda jovem e, como depois descobre, noiva de um rapaz filho de descendentes italianos que desaprovam a união.

“O daimon, para os antigos gregos, é tanto a natureza externa quanto a interna”, diz a contra capa de Daimon Junto à Porta, livro de contos de Nelson Rego. Como diz Charles Kiefer em sua orelha, daimon foi convertido a daemon, que em latim significa “demônio”. Mas o lançamento da editora Dublinense não traz histórias de demônios – só uma, pelo menos – ou coloca o diabo parado na frente de várias portas esperando levar almas para o inferno. Daimon, aqui, é a inspiração artística, uma força que existe no artista que a recebe e a transforma em texto.

Mas esse também não é o tema central desse livro. Nelson Rego traz histórias que oscilam entre o inocente e o sexual, com narradores que aos poucos também se revelam protagonistas. Esse confronto que traz sensualidade aparece logo no primeiro conto, “Platero e o Mar”, cujo narrador fala de Inocência, uma de suas amigas com quem passa uma temporada no litoral. Inocência, uma jovem adulta, é o sonho de um grupo de garotos pré-adolescentes, e seu amigo conta como ela gradualmente é seduzida por essas “inocentes” crianças. O mesmo narrador encerra o livro com “Um pedacinho do tempo diante dos olhos”, onde ele e suas amigas voltam ao livro, dessa vez como pessoas registradas pelas lentes de uma fotógrafa que todos os dias busca eternizar segundos em sequências. Ambos os textos prendem a leitura pelo cuidado na escolha das palavras, mas o último não tem a mesma atração exercida pelo primeiro.

Dias comuns viram literatura com personagens que se perdem em reflexões sobre o que rodeia suas vidas. Identificadas ou não, essas pessoas falam de suas dúvidas, dores e angústias pelas palavras da escritora gaúcha Daniela Langer em No inferno é sempre assim e outras histórias longe do céu, coletânea de contos publicada recentemente pela editora Dublinense. As histórias falam de pessoas normais com que topamos todos os dias pelas ruas, mas para as quais damos pouca atenção.

Dividindo o livro em duas partes – Histórias longe do céu e No inferno é sempre assim –, Daniela pega personagens comuns e deles tira angústias e expectativas que ocupam suas vidas. Acontecimentos que podem durar poucos segundos são transformados em minutos ou horas pela autora. Ela intensifica o detalhe, metaforiza e adjetiva pequenas ações, seja o voar de uma mosca, o suor escorrendo pelas costas, o beber de um copo de cerveja bem gelada ou o estirar-se na areia da praia. Nenhuma ação passa despercebida pelo texto de Daniela, que com suas palavras consegue remeter o leitor a sensações que já vivenciou.