Nos anos 1940, Anna Kerrigan é uma jovem de 21 anos que trabalha no Arsenal da Marinha, na zona portuária de Nova York. Em plena Segunda Guerra Mundial, a escassez de homens – pois muitos foram enviados para a batalha – leva as fábricas a contratarem cada vez mais mulheres. Anna é uma dessas jovens que se alistam para ajudar, para sentir que estão fazendo a sua parte na luta, mas os dias em que passa medindo peças minúsculas que farão parte de um navio da marinha são tediosos demais. Após observar um mergulhador sendo içado da água ela decide que vai se tornar uma mergulhadora.  

Quando uma autora que você gosta muito te decepciona, o sentimento é o mesmo de quando seu restaurante favorito te decepciona: triste demais. Meu primeiro contato com Donna Tartt foi aos 16 anos de idade, quando li A história secreta, uma trama sobre um grupo de estudantes da língua grega que se envolvem em rituais dionisíacos, uma certa dose de orgia e assassinato. Não é um livro de mistério, mas sim uma trama bem estruturada sobre amizade e segredos. Anos depois o li novamente e continuei achando o meu preferido. De O pintassilgo também gostei, talvez não com tanta força, mas o clima de A história secreta permanecia, aquela coisa da sofisticação de Donna Tartt que tanto gosto. Infelizmente, não tive a mesma sorte com amigo de infância.

Samuel Anderson é um professor de literatura inglesa numa universidade próxima a Chicago. Está na casa dos 30 anos de idade, há 10 anos assinou contrato para um livro – que nunca chegou a terminar de escrever – e sente um imenso tédio ao dar suas aulas: alunos desmotivados, que não se interessam pelo tema e estão lá apenas por obrigação. A única coisa que faz Samuel esquecer um pouco da vida estagnada é Elfscape, um RPG online que joga após o expediente. Certamente Samuel preferiria continuar na calmaria do tédio cotidiano do que ter que lidar com vários problemas que surgem ao mesmo tempo: a “perseguição” de uma aluna que não aceita ser reprovada e o retorno de sua mãe, que o abandonou quando ele tinha 11 anos de idade.

Shaker Heights é uma cidade onde tudo funciona perfeitamente. O bairro planejado contém casas grandes e bem arrumadas, com o mesmo padrão de cores, com jardins bem cuidados. Manter essa ordem exige regras bem restritas, como cortar a grama nos dias certos e no tamanho certo, não deixar o lixo na parte da frente da casa para não afetar a vista das fachadas. Toques de recolher em datas festivas para que as ruas não se sujem demais, para que o barulho não atrapalhe ninguém da vizinhança. Shaker Heights é o subúrbio perfeito, o lugar em que qualquer pessoa que ama organização e ordem gostaria de morar, um lugar sem problemas, sem escândalos. Shaker Heights não é um lugar para pessoas como Mia e Pearl Warren, novatas no lugar, ou como Izzy, que acaba de sair da casa dos pais após atear fogo na residência.

 

“História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo.”

Roman Osipovitch Markin é um artista que virou censor. Na União Soviética dos anos 1930, seu trabalho consiste em apagar da História personalidades controversas, artistas, políticos, ativistas, qualquer pessoa que tenha se oposto ao regime socialista. Seu talento para a pintura, mais especificamente os retratos, não era grande o bastante para se tornar um artista. Mas em um regime onde a “História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo”, Markin é um dos melhores no seu trabalho.

Quando li Tipos de perturbação, passei a considerar Lydia Davis uma das minhas autoras favoritas. Seus contos curtíssimos, muitas vezes com poucos parágrafos ou até mesmo uma frase, têm aquele humor sagaz que te deixa por minutos rindo sozinha, pensando em como tão pouco pode dizer tanto. E seus textos mais longos são tão encantadores quanto, com personagens muito bem desenvolvidas e histórias que se sustentam a cada frase. Seu primeiro romance, O fim da história, não causou a mesma impressão, mas não abalou minha admiração pela autora. E bem ansiosa fui ler sua segunda coletânea de contos publicada no Brasil, Nem vem (tradução de Branca Vianna), lançada no Brasil no ano passado pela Companhia das Letras.

No mundo corporativo, nada é mais importante do que a produtividade. Se alguma coisa irá melhorar a produtividade dos funcionários, ela será implementada. Se alguma coisa influenciar negativamente essa produtividade, ela será proibida – pelo menos seria assim na teoria, mas sabemos que nem sempre é o que acontece. No mundo corporativo, um assunto que certamente é delicado e afeta o desempenho dos funcionários são os seus desejos carnais. O estresse do ambiente de trabalho combinado com a presença de mulheres no escritório – mais ainda se a vida conjugal em casa não estiver aquelas coisas – pode desencadear uma série de comportamentos inaceitáveis que influenciam naquilo que mais importa para uma empresa: a produtividade.

Nunca antes na história (deste país) desta leitora, um livro de Nicole Krauss caiu em suas mãos. Eu conhecia o nome, sabia que deveria estar na minha lista de autoras contemporâneas lidas, mas fora isso, não tinha nenhuma outra informação sobre ela e seus livros – deixemos os dados matrimoniais de lado. No último mês, chegou aqui no Brasil seu romance mais recente, Floresta escura, traduzido por Sara Grünhagen e lançado pela Companhia das Letras. Aí aproveitei.

Quando ganhei Marlena, de Julie Buntin, a recomendação é de que o romance se assemelhava à tetralogia napolitana de Elena Ferrante. Aos trinta e poucos anos, Catherine, que trabalha como relações públicas de uma biblioteca em Nova York, recebe uma ligação inesperada: Sal, irmão mais novo de uma amiga de sua adolescência. Ele quer encontrar Cat para conversar sobre sua irmão, os dias que antecedem esse encontro liberam em Cat todas as lembranças dos oito meses que conviveu com Marlena na pequena e fria Silver Lake – ela com 15 anos, a amiga, com 18. Uma amizade tão intensa e reveladora que, mesmo anos depois da morte de Marlena, ainda afeta Cat.

No dia 16 de março de 1947, Archibald Isaac Ferguson nasceu. Filho de Rose Adler, fotógrafa, e Stanley Ferguson, que junto com seus dois irmãos tocava uma loja de móveis em New Jersey. Archie (ou Ferguson, como será chamado de seu nascimento em diante) teve uma infância normal: era amado pelos pais – mais pela mãe, com quem passava a maior parte do tempo –, brincava, praticava esportes, lia muito – por influência de Mildred, sua única tia materna –, tinha bons amigos no colégio, tirava boas notas, ia a cada verão para um acampamento para crianças judias. Ferguson gostava de histórias, gostava de contá-las também, e tinha uma curiosidade grande sobre o mundo. Ferguson perdeu o pai quando ainda criança. Ferguson viu os pais se separarem na sua adolescência. Ferguson foi filho de uma família rica e de uma família à margem da dificuldade financeira. Ferguson adorava beisebol e adorava basquete. Ferguson teve quatro histórias sobre si mesmo para contar.