O dinheiro conseguido com sangue é sagrado. Nos campos da China do final dos anos 1950, o homem que vendia seu sangue era visto como forte, saudável, um bom partido para as filhas dos camponeses. Isso porque possuía sangue em abundancia e bom o suficiente para receber por ele. Já nas cidades, o sangue é algo tão sagrado que vendê-lo é quase como dar a própria vida. O que aqui chamamos de ato solidário, doar para aqueles que necessitam, nessa China constitui um mercado negro em que as pessoas davam sua energia em troca de dinheiro – e precisavam, inclusive, levar mimos ao “Chefe de Sangue” para que ele aceitasse comprá-lo. E o que deveria ser feito esporadicamente vira um hábito que suga a vida das pessoas transformando-as em vítimas.

O mercado negro de sangue da China é o ponto de partida de Crônica de um vendedor de sangue, romance do escritor chinês Yu Hua, que mostra como gradualmente seu protagonista utiliza a sua “energia” para solucionar os problemas de sua família. Xu Sanguan – o nome faz parecer que é seu destino viver de sangue – é um funcionário de uma fábrica de seda de uma pequena cidade, casado com Xu Yulan, com quem teve três filhos: Yile, Erle e Sanle. A família vive tranquilamente até Xu Sanguan descobrir que seu primogênito é, na verdade, filho de outro homem. A rejeição do filho até então favorito é imediata, mas como seu verdadeiro pai não reconhece Yile, Xu Sanguan deve passar por cima dos próprios ideais para conviver com o primogênito e aceitar que, apesar de não terem o mesmo sangue, ser ainda assim seu pai.