antónio jorge da silva tem 84 anos de idade quando morre sua mulher, laura. A morte não lhe era esperada, apesar da idade, mas sim porque pensava – ou assim desejava – de não ter que viver um dia sequer sem ela depois de passarem juntos 48 anos, terem dois filhos e viverem tranquilamente os tempos de ditadura em Portugal. A perda foi dolorosa, sentida com muita indignação, e o velho silva é colocado pela filha em um lar de idosos em Portugal chamado “idade feliz”. Coloco-os aqui assim, em minúsculas, como valter hugo mãe o faz em a máquina de fazer espanhóis, romance publicado no Brasil em 2011 pela Cosac Naify.

“A mãe pousou o livro nas mãos do filho. […] O rapaz tinha seis anos, fugiu-lhe a atenção, distraiu-se, mas não se desinteressou pelo livro, apenas deixou de o interrogar enquanto objeto em si, começou a questioná-lo de maneira muito mais abstrata, enquanto intenção, enquanto sombra de um ato.” Não há como falar de Livro sem apresentar o trecho inicial desse romance de José Luís Peixoto. Seria pecaminoso ignorar outra passagem que ele protagoniza: “Se namorares comigo, dou-te um pombo, cem escudos e um livro.” A importância do livro nesta história vai além do próprio objeto, e seu significado é mais do que um monte de páginas reunidas cujo corpo contém letras, sejam elas de que idioma for.

No século que prometia grandes invenções, novidades e evolução social, Portugal era acusado de continuar tratando suas colônias como o fazia desde sempre: com excessiva exploração de suas terras e seus nativos. Com a abolição geral do regime escravagista em todas as suas colônias em 1875, o país que descobriu o Brasil ainda não havia erradicado de vez o trabalho forçado nos territórios controlados, tanto por conveniência quanto por atraso político. Para todos os portugueses não existiam mais escravos, os trabalhadores eram livres para ir e vir pelos territórios sob governo do país europeu. Mas para outras nações, inclusive aliadas, a mão-de-obra que trazia riquezas para o império português vivia em uma escravidão velada, escondida por leis que diziam conceder vida digna aos colonizados, mas que não eram efetivamente postas em prática.